You are currently browsing the monthly archive for Junho, 2008.
E chegou o dia em que temos que comemorar que 20 milhões de pessoas estão ficando pobres.
Antes elas eram miseráveis.
Sabe aquela coisa que dizem que dá juízo pra quem tem? Acho que eu posso ser bem irresponsável, sem medo de me perguntarem se eu não aprendi a me comportar. Agora definitivamente não tenho mais juízo. Tudo bem que pra isso eu tive que ficar com as mãos frias, molhadas de um suor gelado, o corpo teso, tenso e a boca meio aberta. Lá se foi meu último dente lá do fundão, que eu nunca soube direito se se escreve com cê ou com esse. O tal do juízo.
Tem umas pessoas que são, sei lá, abençoadas. Eu tinha uma colega no colégio que, por uma evolução genética, não sei direito, nasceu sem os cisos, sisos, scisos e çisos. Ela nunca ia precisar tirar. Isso me fez pensar se eu sou mais retardada no mundo evolugenético, já que tive que tirar os quatro, que me infernizaram direitinho.
Se bem que eu também não fui das mais azaradas. Nesse último, o cara me deu anestesia, cortou a gengiva e tirou o dentão pra fora em menos de dez minutos. Depois foi só costurar e me dar a receita do antiinflamatório. Em quinze minutos eu saí da sala do dentista. Lembro que no dia que eu tirei o terceiro comi um monte de pizza e tomei tequila à beça de noite. Quer dizer, não lembro muito bem. Mas foi tudo em casa, de forma bem responsável. Afinal, eu ainda tinha um quarto de juízo. Agora que eu tirei o último, devia ter ido pra uma rave.
As minhas primas penaram um poquinho mais, ficaram deitadas, de cara inchada. Elas não sabiam do que uma garrafa de tequila é capaz. Aliás, isso me faz lembrar… Desculpa, Agni, da próxima vez que eu precisar de dentista, vou no teu consultório, mas sacomé, o cara já tinha me tirado os outros três, tri tranqüilo, de repente é sorte, melhor não arriscar. Fui até com a mesma calcinha. Tá, não, eu não lembro com que calcinha eu tirei dentes anos atrás. Mas a idéia era de superstição mesmo e tal.
Agora tem uns troços pretos dentro da minha boca. Cada vez que eu passo a língua me dá vontade de arrancar. Mas aí deve doer, e eu sou meio fraca pra dor. Não tanto quanto meu namorado ou meu pai, mas ainda meio cagona. Uma semana com esses fios ali pendurados. Parece que ficou um feijão no dente. Desculpa se parecer nojento, mas é a clara sensação de ter uma coisa ali que não pertence àquele lugar. Bom, mais uns dias e eu posso finalmente me considerar sem nada dessas coisas: dente, juízo e fios pretos esquisitos.
“Quando vi, achei que era uma lotação, pelo tamanho, mas depois vi escrito ‘Carris’”. Rosana Gazzola demorou para reconhecer o ônibus que tinha que pegar para ir ao dentista. O tamanho reduzido do C2, assim como dos outros circulares da Companhia Carris Porto-alegrense, chama a atenção de quem espera nas paradas. Com um trajeto majoritariamente central, os motoristas tinham dificuldade de dirigir pelas ruas estreitas. Agora os ônibus, que circulam desde 4 de junho, têm cerca de dois metros a menos no comprimento. Mas os passageiros continuam com o mesmo tamanho e em mesmo número.
Para o estudante Caio Turbiani, que pega o C2 e o C3 diariamente, a redução causa lotação excessiva: “Antes era difícil ver gente em pé, agora tem sempre”. Às 17h15min de sexta-feira, dia 13, 35 pessoas se amontoavam em pé no C3 que passava pela avenida Venâncio Aires.
O C2 tinha três carros de 47 assentos. Agora tem quatro com 27 lugares cada. Mesmo com o aumento no número de veículos, a procura ainda é maior que a oferta. Antes, o total de assentos da linha era de 141. Com a mudança, os passageiros passaram a ter 108 bancos.
A mudança integra o projeto Viva o Centro e, segundo o diretor técnico da Carris, Hélio Mendes, o objetivo é trazer maior qualidade de vida. “Os carros são mais leves, então consomem menos combustível e poluem menos”, explica. Para um motorista do C3, o tamanho ajuda nas manobras: “na Demétrio (Ribeiro) às vezes tinha que esperar um carro mal estacionado sair para poder passar”.
A população exige um aumento na freqüência dos ônibus, para compensar. O C2, que atende 3.000 pessoas, foi a única linha que teve aumentado o número de carros. No entanto, para seus 2.600 passageiros, o C3 perdeu um veículo. Os 1.500 usuários do C1 continuam tendo quatro carros à disposição. No total, o número de ônibus é o mesmo, enquanto os assentos passaram de 517 para 297. O motorista Agilberto Quiroz, no C2 há 22 anos, admite que os veículos ficam mais cheios do que antes. Uma passageira do C3 reclama que a linha não dá conta: “Fiquei 20 minutos esperando hoje”. Mendes argumenta: “se houver mais demanda, vamos cobrir com outros ônibus”.
A televisão é a novidade mais anunciada pela prefeitura. Mas ela passa despercebida para muitos passageiros, que têm que se esticar para desviar das cabeças que ficam na frente e enxergar a tela. “Eu nem vejo TV. No ônibus a gente quer olhar pra fora, ver a rua”, afirma uma passageira que pega o C2 de duas a três vezes por dia. Outras melhorias são o telefone e o câmbio automático.
Metade dos passageiros do C1, C2 e C3 tem mais de 60 anos, reflexo da população do centro da cidade. Para atendê-los, os ônibus têm a entrada rebaixada. A porta de saída fica no meio do veículo e também é mais baixa. Logo depois dela, porém, há dois degraus, atrás dos quais fica a maioria dos assentos. Essa é a parte mais criticada, considerada perigosa para os idosos. “Já vi muita gente caindo”, afirma uma passageira do C3. Hélio Mendes diz que o problema não tem solução e os carros vão continuar com os degraus.
Os ônibus foram comprados por R$ 333 mil cada. Os antigos tinham dez anos de uso e estavam no limite da sua capacidade, segundo Mendes. Eles foram vendidos por R$ 50 mil para prefeituras do interior do estado.
Quatro dias antes do aniversário, aparece o cartaz atrás do banco do motorista convidando o pessoal pra festa. Festerê, pra todos os passageiros do C2 tabela 4. Salão grande, buffet, decoração, ônibus para levar os convidados. Não, nada disso. Na verdade, só a última parte. Salgadinhos e torta são distribuídos a quem estiver no ônibus, no horário de trabalho de Porquinho e Melancia mesmo.
Melancia trabalha com Porquinho há 18 anos. Ele é cobrador do ônibus que Porquinho dirige. Vários aniversários já foram comemorados ali, com os passageiros conhecidos, de todo dia, ou com os que aparecem sem querer no meio da festa. Os serviços dos dois já estão até sendo contratados. Não ganham nada, mas já fazem festa de criança. Pelo menos uma, que a mãe dela já ligou pedindo pra fazer a festinha do filho no C2, com os mesmos salgadinhos e a mesma torta.
Por enquanto a especialidade são os aniversários, mas até casamento já teve. Bom, não casamento casamento, mas o cupido já passou por aquele ônibus. Uma passageira reclamava muito que era sozinha, sempre rezava pra Santo Antônio (santo que marca, aliás, outra das comemorações do C2 de Porquinho e Melancia) e nunca achava um marido. Um dia sua história veio a público por interferência dos dois. Foi parar no jornal. Um cara do interior viu e veio atrás. Melancia garante que ela era muito bonita, apesar de ter que recorrer a esses meios pra achar um marido. Mas casaram, e hoje a criança já tem três anos.
A velhinha chata de todos os dias à tarde sempre reclama de alguma coisa. Melancia tem dias que não agüenta olhar pra mulher. Mas atende, sempre simpático, como são os dois. Um dia ele não agüentou. A velhinha estava chata demais e dizia até palavrão. Sabedor dos pontos fracos da mulher, indicou. Naquele dia, segundo Melancia, a Linha Turismo era de graça. Não estava cobrando os cinco ou sete pila que cobra sempre. A velha se alvoroçou. Anda de ônibus porque é de graça. Mas naquele nunca tinha andado, não. E hoje era de graça. Desceu do C2 bem contente. Em outra viagem, perguntou a Melancia se tinha sido ele que lhe indicara o ônibus panorâmico no outro dia. Bem rápido, respondeu: “Eu não!”.
Porquinho trabalha no C2 há 18 anos. Melancia, há 22. Sorriem muito. O tempo todo. Se são felizes? Não sei, parece.
Apesar de tudo, tenho que admitir que a atitude do vice-governador, Paulo Feijó, foi louvável. Ele gravou a conversa com o chefe da Casa Civil, Cézar Busatto, em que negava participar do esquema. Pode ser só fachada, mas aparentemente Feijó é uma pessoa correta. Reacionário, empresário, de direita, mas correto. Portanto, na briga entre ele e Yeda, entre ele e todo o governo, eu torço por ele.
E mudando de assunto, mas não totalmente. Agora o esforço da RBS vai ser desvincular a imagem de Busatto da de Fogaça. Mas porto-alegrenses, estejamos atentos. Busatto foi o braço forte do prefeito José Fogaça durante praticamente todo o seu mandato. Esse ano tem eleições e Fogaça vai ser o candidato da RBS. Mas não nos deixemos enganar.
A coisa está fedendo. Ontem saiu na Zero mais uma matéria sobre essa história toda da CPI do Detran, incriminando o secretário geral de governo, Delson Martini, e até a governadora, Yeda Crusius. Hoje, quem entra na berlinda é o chefe
da Casa Civil, Cézar Busatto, e o vice-governador, Paulo Feijó. Em ambos os casos, foram descobertos através de gravações de telefonemas.
Aos poucos, começa a se dar o nome aos bois. Até agora, saía coisa nos jornais sobre isso quase todos os dias. A enxurrada de matérias sobre isso até antes de ontem era até um meio de esvaziar a discussão. O tema se tornou lugar-comum, chato, repetitivo, e ninguém mais lia os textos a respeito. E, quando lia, parecia que o governo do estado estava em outro mundo, que nada tinha a ver com as tretas. Pois tem. E agora começa aos poucos a aparecer. Mesmo que o RBS Notícias dê a chamada da matéria falando em “crise no executivo gaúcho” e não tocando no nome de Yeda. Mas já não está dando mais para fingir que não tem nada.
A coisa está tão feia que o Busatto já chamou o Feijó de mau-caráter na televisão, o PP e o PMDB estão tendo que se defender das acusações de serem financiados por órgãos públicos, como o Detran, o Banrisul, a CEEE, e já se fala em impeachment da governadora. A casa está caindo. É engraçado que ainda assim o alarido é pequeno. Tentam imaginar o que sairia na Zero Hora se quem estivesse no posto máximo do estado fosse o petista Olívio Dutra.
Agora, pensem comigo… Vai que sai um impeachment da Yeda. Assume o Paulo Feijó. Desastre. Não sei, sinceramente, qual é pior. Não que se tenha que parar de brigar contra a corrupção por conta disso. Evidentemente, tem que gritar, espernear, pedir que ela saia mesmo. Mas existe alguma forma de antecipar as eleições? Se não, é o caos. Fique quem ficar.
Em homenagem ao nosso um ano de namoro.
Excertos do livro Entrevistas, de Clarice Lispector. Todas as partes em itálico são falas da Clarice.
- Você escreve muito sobre o amor. O que é o amor?
- É a própria vida, é o melhor da vida, tudo. No amor não sou profano, aí não. Sou sectário.
(Jorge Amado)
- Nelson, qual é a coisa mais importante do mundo?
- É o amor.
- O que é o amor, Nelson?
- Eu sou um romântico num sentido quase caricatural. Acho que todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. Para mim, o amor continua além da vida e da morte. Digo isso e sinto que se insinua nas minhas palavras um ridículo irresistível, mas vivo a confessar que o ridículo é uma das minhas dimensões mais válidas.
(Nelson Rodrigues)
- Como é que você resumiria o conteúdo da palavra amor?
- Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro.
(Fernando Sabino)
- Você agora percorreu meio mundo com Mafalda. O que foi que mais impressionou você?
- A Mafalda.
(Érico Verissimo)
- O que é que mais importa na vida?
- A relação humana. O amor. A paixão, nisso incluída.
(Millôr Fernandes)
- Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?
- A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta fonte da verdadeira generosidade e entusiasmo.
- Que é o amor?
- Amor é surpresa, susto esplêndido – descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado.
(Hélio Pellegrino)
- Como é uma mulher bonita para você?
- Feita de muitas mulheres.
- O que é amor? Qualquer tipo de amor.
- A melhor definição seria: o amor é o amor.
- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.
(Pablo Neruda)
- Que você acha do amor?
- Não acho. Amo. Não acho. Achei: Miriam.
(…)
Enquanto a humanidade não definir o amor, enquanto não perceber que o amor é algo que independe da posse, do egocentrismo, da planificação, do medo de perder, da necessidade de ser correspondido, o amor não será amor.
(Pedro Bloch)
- Qual é a coisa mais importante do mundo?
- Trabalho e amor.
- Qual é a coisa mais importante para você, como indivíduo?
- A liberdade para trabalhar e amar.
- O que é amor?
- Não sei definir, e você?
- Nem eu.
(Chico Buarque)
- Vinícius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres com quem você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.
- Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores. Eu amo esse amor mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas a que amei realmente, me dei todo.
- Acredito, Vinícius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importam as brigas e os desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no par novos amores.
- É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.
- Você já amou desse modo?
- Eu só tenho amado desse modo.
- Reflita um pouco e me diga qual é a coisa mais importante do mundo, Vinícius?
- Para mim é a mulher, certamente.
(Vinícius de Moraes)
- Vou agora lhe fazer três perguntas clássicas. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?
- A coisa mais importante do mundo é o amor. Segunda pergunta: a integridade da alma, mesmo que no exterior ela pareça suja. (…) Quanto ao que é o amor, amor é se dar, se dar, se dar. Dar-se não de acordo com o seu eu – muita gente pensa que está se dando e não está dando nada – mas de acordo com o eu do ente amado. Quem não se dá, a si próprio detesta, e a si próprio se castra. Amor sozinho é besteira.
(Tom Jobim)
- Você já esteve apaixonada? Se esteve, suas interpretações mudaram nesse período?
- A pessoa apaixonada se comporta completamente diferente em relação a tudo, principalmente sendo sensível como eu sou.
(Elis Regina)
- Qual é a coisa mais importante do mundo?
- Amar plenamente.
- Que é o amor?
- O amor é imponderável. Só sei que existe e é difícil imaginar viver-se sem ele.
(Isaac Karabtchevsky)
- Você está me perguntando qual é a coisa mais importante do mundo, qual a coisa mais importante para a vida de uma pessoa como indivíduo, e o que é o amor. Respondo-lhe: saber situar-se neste mundo de alegrias e tristezas em que vivemos, certos de que não estamos sozinhos, que milhões de criaturas nos cercam e que a vida é injusta e sem perspectivas. Sentir a fragilidade das coisas e a pouca importância de tudo que realizamos; ter prazer em ser útil e solidário com os que sofrem, usufruindo da vida os momentos de prazer e ilusão que ela nos propicia; dar ao amor o sentido universal que merece. Nascemos para amar. Para isso, sem consulta, fomos depositados neste planeta.
(Oscar Niemeyer)
- O que é amor, Zagallo?
É provável que ele, como a maioria das pessoas, nunca tenha parado o movimento de vida para reflexionar sobre a vida, e sobretudo para se fazer essa pergunta capital: o que é o amor? Afinal ele disse, e seu rosto ficou muito bonito quando disse:
- É um sentimento recíproco.
(Zagallo)
Alegre de champanhe, satisfeita com camarão e salmão, eu podia dizer que vi o museu Iberê ser inaugurado.
Ficamos das cinco e meia à meia-noite na festa que ia até as nove. Mostra da qualidade com que fomos recebidos. Mas isso é a parte menos importante. Daqui a cinqüenta anos, vou poder dizer pros meus netos que vi o primeiro museu de verdade de Porto Alegre ser inaugurado.
Primeiro museu de verdade? Pois é, “as pessoas acham que aquilo ali (o Margs – Museu de Arte do Rio Grande do Sul) é museu, na verdade aquilo é uma alfândega, um prédio de repartição pública adaptado pra museu”, me disse o museólogo Francisco Marschall. E assim é com todos os espaços de exposição em Porto Alegre. Nenhum nasceu com vocação para museu. Agora um, sim.
O museu é, na verdade, a nova sede da Fundação Iberê Camargo. “Essa instituição não vai se chamar museu, mas Fundação Iberê Camargo. Porque o museu tem uma conotação de guarda de obras, de uma situação de preservação. Isso existe. Mas uma das vocações fundamentais da fundação é o incentivo ao pensamento sobre a arte.” Môn
ica Zielinsky, a autora dessa frase, fez a catalogação de toda a obra do artista gaúcho Iberê Camargo, para cujas obras o espaço foi construído.
Para quem duvida da importância do negócio, dá uma olhada em quem assina o projeto do prédio: o nome dele é Álvaro Siza, um arquiteto português, referência mundial. Referência mundial, aliás, virou Porto Alegre no que diz respeito a arte moderna e contemporânea. Pode não ser unanimidade, mas não se pode dizer que o prédio seja tímido ou pouco importante. Chamado de elefante branco por alguns, defendido entusiasticamente por outros. Particularmente, tenho que confessar que a arquitetura do prédio me atrai mais do que as obras do Iberê. Não sei direito se gosto, mas me faz pensar, me chama a atenção.
Acho que, se fizer isso com todos, cumpre com o seu objetivo. Feio ou bonito, não importa, ele choca. Se a arte deve fazer isso, esse prédio é arte. O Iberê é construído em concreto branco, tem rampas aparentemente meio tortas delineando a fachada e, o mais marcante, praticamente não tem janelas. Detalhe, ele fica na orla do Guaíba, tem uma paisagem lind
íssima. Mas é fechado. O artista plástico Paulo Gomes é da turma dos defensores do projeto. “Eu já vi vários comentários, as pessoas reclamarem que não tem nenhuma janela pro Guaíba, mas isso é uma demência, uma loucura. Pros gaúchos todos os museus têm que ter milhares de janelas. O museu não é aberto pra fora, o museu tem que ser aberto pra dentro.” O museólogo Francisco Marschall concorda: “O acervo pertence ao interior, ao coração do museu, uma experiência estética que se dá dentro do museu, não olhando pela janela. Então, muitos acham aquilo um bunker, porque ele está fechado pra área externa, mas exatamente esse é um conceito de museu”.
Ou seja, gostando ou não, o museu inaugura um novo tempo na arte de Porto Alegre. A “capital cultural” do Brasil não podia continuar sem um museu de verdade. Porto Alegre cresce. Adquire uma importância no mundo artístico difícil de expressar. O país cresce também. E nós vamos pelo menos poder falar que um dos maiores arquitetos do mundo fez um prédio aqui que mudou a noção de arte da cidade.

