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“Quando o homem conseguiu colocar pedais em seu próprio equipamento, inventou a bicicleta. Não fez nada mais que isso, pois nem sequer as rodas eram indispensáveis. As rodas já existiam, em alguma parte do mundo, à espera de que os homens aprendessem a mover os pés no ar, enquanto descansavam comodamente sentados em seu centro de gravidade. O selim? Não. Tampouco era indispensável o selim. Foi inventado mais tarde, quando se descobriu que era necessário proteger o centro da gravidade da fricção contínua. Logo surgiu o guidom. O homem poderia existir indefinidamente sem ele, porque a terra era redonda e teria podido dirigir-se a qualquer lugar apenas mantendo a direção inicial. Mas quando surgiu um homem que quebrou a cabeça para inventar a bicicleta, houve outro que quebrou a sua para inventar as esquinas. E então o guidom se tornou necessário, indispensável.
Uma vez que o homem descobriu o profundo senso locomotor de seu equilíbrio, tinha ganhado já a primeira batalha contra o tempo e o espaço e havia descoberto um novo sistema para driblar a morte. Mas não se contentou com isso. E o grave começou precisamente quando essa inconformidade sofreu sua crise e o que a princípio foi uma simples diversão converteu-se em válvula de escape para sua vaidade. Foi então quando Adão atravessou o paraíso sentado sobre uma idéia, movendo os pés para fazer girar um pedal metafísico, e Eva não pôde compreender racionalmente o princípio físico de que se serviu seu companheiro para se deslocar no espaço sem tocar o chão. Várias vezes esforçou-se Adão para conseguir que Eva desse um salto no ar, já com uma noção precisa de seu centro de gravidade, e passear pela grama dos caminhos do paraíso terrestre, sentada a meio metro de altura. O trágico episódio da maçã pôs fim à experiência, mas a idéia sobreviveu e foi sendo transmitida de geração a geração, até o instante em que alguma mulher conseguiu convencer seu marido de que toda idéia prática que aceitasse o clima do cérebro humano era suscetível de ser montada sobre um parafuso. E o marido obedeceu. E subiu ao ar e marcou no espaço um ponto em torno do qual poderiam girar seus pés sem grande esforço. E ali colocou o primeiro parafuso.
Desde logo o que se seguiu foi uma conseqüência lógica, visto que já existia um ponto de referência para continuar dando à idéia primitiva uma qualidade ponderável. No entanto, quando aquela laboriosa atividade foi concluída, a mulher ainda não era capaz de desfrutar as vantagens do novo invento, pela razão elementar de que, não tendo concebido a sua noção, para ela o instrumento era inútil. A engrenagem metálica, as rodas e o selim continuariam sendo tão inoperantes como o eram antes de existir enquanto a mulher não compreendesse que aquilo não era realmente um veículo, mas simplesmente uma idéia projetada no espaço para facilitar sua compreensão. E como o tempo passou e com o tempo a paciência do homem para conseguir que sua mulher aprendesse a aproveitar as inumeráveis vantagens do centro de gravidade, o diligente inventor tomou uma nova iniciativa. Se a mulher não conseguia sentar-se sobre seu próprio equilíbrio, só restava um recurso; sentar simultaneamente a mulher e o equilíbrio. E assim nasceu o triciclo.
Mais tarde o novo objeto tornou-se tão elementar que se converteu numa diversão para as crianças. A mulher sentiu-se envergonhada e fez novos esforços para aprender a manobrar a bicicleta. Mas outra vez, e quem sabe para sempre, foram inúteis todos os seus esforços. Ao homem só restava uma esperança; saber se seu equilíbrio era indivisível, pessoal e intransferível. E quando descobriu que não o era, seu problema ficou momentaneamente resolvido, porque havia conseguido que a mulher não se sentasse sobre seu próprio centro de gravidade, mas no centro de gravidade do homem. E estava inventada a bicicleta de dois lugares.
E assim, de descobrimento em descobrimento, a mentalidade humana foi evoluindo, projetando-se até novas formas de vida, até quando os mortais, cansados de pedalar pelo mundo, conseguiram desvincular a bicicleta do movimento. E inventaram a cadeira.”
Gabriel García Marquez, junho de 1950, tirado de Textos Caribenhos, o primeiro livro da sua obra jornalística
Esse negócio de amizade é um troço esquisito. Não tenho bem certeza de por que a gente se torna amigo de alguém, se é mais por afinidade ou por oportunidade. De um modo geral, acho que as oportunidades geram as afinidades. Quando eu escolho uma faculdade ou trabalho na área que eu escolher, vou conhecer pessoas que tenham as mesmas motivações que eu. Tá parecendo um papo meio auto-ajuda, né? Mas eu explico. Essa semana reencontrei uma colega do colégio. A guria é insuportável, e eu andava sempre com ela. E é burra, coitada. Vai se formar agora, veio me convidar, e passou o tempo inteiro falando em como ela é boa. É metida, ainda por cima. Agora me explica, por que diabos eu desperdicei anos da minha vida com uma amizade assim? Será que por falta de companhia melhor? Sei lá, acho que aí é muito mais uma questão de oportunidade mesmo. Quando se tem seis anos e se é extremamente tímido, fica difícil tentar conversar com muita gente pra ver quem é mais parecido contigo. Até porque, aos seis anos, todo mundo é meio parecido e meio diferente. Ninguém ainda formou opiniões sobre muitas coisas. No máximo um prato de comida ou um time de futebol. Mas nada é definitivo, todo mundo está descobrindo junto. E de repente, mesmo crescendo no mesmo colégio e partilhando os mesmos amigos e professores, a gente cresce diferente. Bem diferente. Aí a gente vê o peso da família, da criação, do tipo de vida. E vê quem é quem mesmo, o que a pessoa é de verdade. A gente vai se descobrindo. E de repente, cinco anos depois de quase não se ver, eu descubro que não sei quem é a pessoa que andou comigo durante onze anos. Essa tal de vida é estranha mesmo. As amizades vão mudando tanto. Reflexo do nosso crescimento, do nosso amadurecimento. Perder um amigo e ganhar outro (não que a gente tenha que ter apenas um amigo) pode ser um grande ganho ou uma grande perda. Às vezes, eles se vão. Às vezes, a gente manda eles embora, talvez até sem querer. Outras vezes, ninguém faz nada. Com essa do colégio, foi assim. Ninguém se mandou embora. Ninguém brigou. Na verdade, nos despedimos com beijos e abraços, comemorando uma formatura que parecia o fim, mas que não chegava nem perto disso. Na verdade, ali a vida começava de fato. Mas assim é. Perdi ali uma amiga, mas quem sabe não ganhei muito mais?
E que ela não leia o meu blog, pelamordedeus.
“Na ansiedade promocional da Operação Cidade Limpa, em ano de eleição, a prefeitura de São Paulo higienizou um painel colorido pelo qual cidades cosmopolitas e democráticas estariam dispostas a pagar milhares de dólares.
Na confluência da avenida 23 de Maio com a malfadada Ligação Leste-Oeste, sumiu do mapa, quer dizer, do muro, o painel de quase 500 metros quadrados criado por um time de grafiteiros. Entre eles, aqueles Os Gêmeos que neste momento enfeitam, num mural de 20 metros de altura, a fachada da Tate Modern de Londres. Lá na Inglaterra, o mural da dupla brasileira é cultura; aqui, é sujeira.
Os Gêmeos – Otávio e Gustavo Pandolfo, de 34 anos, paulistanos do Cambuci – são cartão-postal na folclórica Coney Island, vizinha a Nova York, vestiram de cores o mais antigo castelo da Escócia, o de Kelburn, e foram badaladíssimos na última Art Basel de Miami. Uma tela deles, vendida em galeria, não sai por menos de 30 mil dólares. Aqui são confundidos com vândalos da periferia.
Cidade Limpa é a bandeira eleitoral do prefeito Gilberto Kassab, daquele PFL que, envergonhado, mudou de nome. Trata-se de intervenção de forte apelo publicitário. Ocupa o espaço cênico de um vazio de ações e idéias. O atentado não teria acontecido sem o aval do übersecretário Andrea Matarazzo, incansável em sua faina saneadora. Na Itália da pré-Renascença, teria mandado limpar os painéis de Giotto.
A tão elogiada Cidade Limpa é, portanto, mais do que mera maquiagem para a metrópole maltrapilha – é política cultural. Ninguém discorda da idéia de disciplinar a poluição visual de fachadas caóticas, mas, quando você começa a perseguir essa expressão tão contemporânea que é a street art, o que você está apagando é tudo o que for diferente do medíocre padrão da elite à qual você serve. Mesmo quando concebida por meninos brancos da classe média, como Os Gêmeos, street art ressoa a hip-hop, a linguagem de pobre, a protesto de excluído (de mais a mais, quem cedeu o espaço foi Marta Suplicy).
Show off para a turma do pedigree, promove-se uma faxina estética que, no fundo, é profilaxia social, homogeneizando muros e fachadas mesmo que tenha de passar uma demão por cima do talento de artistas como Os Gêmeos, Kobra, Nunca, Herbert. A graça das metrópoles é a sua diversidade pulsante. Nova York, Times Square, por exemplo. Com sua frenética efusão de néons, não tem nenhum pudor em parecer – como escreveu o filósofo Marshall Berman (em On the Town) – “a luminosa encruzilhada do mundo”. Se Times Square estivesse em São Paulo, a Cidade Limpa iria apagar todas as suas luzes e toda a sua alegria. Os Gêmeos são apenas involuntárias testemunhas das trevas.”
Por Niralndo Beirão, Carta Capital, 23 de julho de 2008
Digamos que os cerca de 7200 segundos passando mal em pé na fila valeram a pena. Foram uns 8400 segundos de muito Jorge Drexler e um pouco de Vitor Ramil. Com tudo de melhor que se pode tirar daí.
A primeira é muito idiota. As outras são um pouco menos.
Sonhei que eu era o Harry Potter e estava enfrentando o Voldemort. O Voldemort tinha raptado a Naty Leal e estava transformando-a em seguidora dele. Ela estava ficando má e toda desfigurada, meio preta. Mas não queria ser má (ou não queria ficar feia, vai saber), e resolveu se revoltar contra ele, mas não tinha força. Ele perguntou qual membro dela o Harry Potter (no caso eu) já tinha amputado. Ela disse que nenhum, porque ele (eu) não amputava nada de ninguém. E disse pro Voldemort que ele podia matá-la, porque ela não queria ser má. Mas ele decidiu amputar metade da perna da Naty. Quando ele estava começando a cortar, eu cheguei e mandei-a, através de magia, pra enfermaria, onde ela seria tratada. Hogwarts estava quase vazia, só tinha alguns amigos do Harry (meus) e a enfermeira, q tava meio dominada pelo mau. Mas de alguma forma a Naty se recuperou.
Outra cena: eu conjurando um patrono (o veado aquele do Harry Potter – não que o Harry Potter seja um veado, mas o patrono dele é) contra o Voldemort, e os nossos patronos se enfrentando. Só que eu estava bem perto do Voldemort e ele começou a me fazer cosquinha. Me desconcentrei e perdi meu patrono. Chegaram outras pessoas e tentaram me ajudar, mas ninguém mais conseguia fazer magia, porque estava chovendo pra cima. Foi o que disse a enfermeira má.
Outra cena: continua chovendo pra cima. Eu estou na escadaria da Borges. Mas eu sou o Harry Potter, não posso simplesmente andar pela escadaria. Então eu a escalo pelo lado de fora. Eu vou de um lado a outro da escadaria, mas, em vez de subir as escadas, eu escalo. Nas escadas está o Alexandre e mais algum personagem do livro. Do lado de fora da escadaria tem uma estante enorme com diversos livros. São meus, e eu recém organizei-os. Me conscientizo que eu vou ter que derrubar alguns pra conseguir me equilibrar, me segurando na estante. Derrubo o mínimo possível e, sempre que eu posso, coloco-os de volta no lugar. Termino a escadaria e encontro o Alexandre e o outro cara.
Outra cena: estou em casa. A Bida terminou minha estante e me levou lá. Não ficou exatamente como eu queria, mas não dá tempo de discutir isso agora, porque tenho que derrotar o Voldemort. Só comentei com a minha mãe o negócio da estante e me fui. Mas continuava chovendo pra cima e eu não conseguia conjurar o maldito patrono.
Acordei. Eu sei que frustrei as expectativas dos que estavam lendo, com uma história sem fim, mas eu estou só narrando o q aconteceu, não inventei nada e acordei antes da história terminar. Para saber mais, leiam o livro ou aguardem o próximo sonho.
- Será que a autora do Harry Potter tinha noção de que ela podia escrever qualquer merda no último que todo mundo ia ler?
- Huahuahuahauhauha.
- Será que ela já escreveu mais algum livro?
- Acho que não.
- Ela não precisa, né…
- Pois é. Ela já escreveu Harry Potter, já construiu Brasília…
- Construiu Brasília? Essa eu não entendi.
- JK.
- Ah é.
- E já foi assassinada. Que currículo, hein. E o mais incrível é que ela foi assassinada antes de construir Brasília e de escrever o Harry Potter. É, né?
- Antes de escrever o Harry Potter com certeza.
- Sim, com certeza, mas e de construir Brasília?
- Ah, não sei.
- Foi ali pela mesma época. Será que ela foi assassinada porque construiu Brasília?
- Mas quem ia querer assassinar a pessoa que construiu Brasília?
- Os defensores do Fusca!
O que eu não consigo entender é por que diabos os milionários sonegam impostos depois de já estarem milionários. Alguns milhões para o Estado não fariam nem cócegas nas suas contas pessoais. Aliás, eles não vão nem conseguir ver e gastar todo o dinheiro que eles têm nas suas contas pessoais. Mas eles não pagam os impostos. Vai entender…
São Paulo, a capital, tem 11 milhões de habitantes. Oito por cento da população corresponde a 880 mil pessoas. Mesmo considerando que nem todos são eleitores, não dá pra negar que 8% dos votos de um município como São Paulo é muita coisa. Segundo a última pesquisa para a próxima eleição municipal, 8% dos votos de São Paulo vão para Paulo Maluf. Mais de 500 mil pessoas votam em Paulo Maluf. Pode?
E o grande destaque do primeiro debate dos prefeituráveis de Porto Alegre em 2008 foi de…
Lasier Martins, que desde sua primeira manifestação deixou claro que não estava preparado para a tarefa. Gaguejando, errando os nomes, confundindo os temas, nervoso. Os candidatos fizeram mais mediação que o mediador, meio gagá, que volta e meia era auxiliado pelos políticos ao lembrarem alguma coisa que ele tinha esquecido. Que papelão.
“Na verdade eu tô pecando agora, porque eu tô orando de unhas pintadas. É como se não fizesse efeito.” Com apenas seis meses de vida muçulmana, ela já tem certeza da opção que fez. Se apaixonou por um muçulmano paquistanês e decidiu se converter. Agora faz aula todos os sábados à tarde. Pretende aprender também o árabe, não só a religião. Afinal, o idioma quase faz parte da crença, já que o Alcorão só tem valor em árabe, para os muçulmanos.
Ela ainda não casou. Como solteira, é ajudada pelo pessoal da mesquita. É de lá que tira os lenços e afins, coisas que o marido deve prover à esposa. Separa os lenços reserva na prateleira da sessão das mulheres, atrás do biombo, na sala do segundo andar do prédio da Dr. Flores. Ao lado da Losango, de frente pra Colombo. Com diversos traços do nosso mundo ocidental ao redor.
“Agora eu vou jejuar, obedecer o Ramadã. Vai ser meu primeiro ano.” É com um sorriso sincero de expectativa que ela diz isso. Uma certa excitação, talvez pela novidade disso tudo. Não parece ter medo das dificuldades a enfrentar. Talvez uma certa ingenuidade. Sim, com certeza. “O Islamismo parece muito rígido. Antes eu achava que os homens tratavam mal as mulheres. Agora eu sei que eles são muito respeitadores. Nos respeitam muito mesmo.” Aí vem uma certa dose de orgulho de um povo que não era seu, mas que ela vai aprendendo a incorporar na sua vida.
As mulheres não participam do ritual dos homens. Seu espaço é atrás do biombo feito de quatro placas de madeira verde clara. Ela não se sente excluída. Entende sem entender que seu espaço é separado, é de certa submissão. O lenço cobre a cabeça deixando só o rosto de fora. “A mulher tem que se preservar. O cabelo chama a atenção do homem.” Sua amiga chega de cabelos cobertos, mas veste justas calças jeans e All Star preto com ponta branca e listrinha vermelha, aquele tradicional. Tira para sentar no carpete, atrás do biombo.
Elas entendem, mas querem ver. Afinal, as mulheres também são curiosas. O que tem do outro lado? Elas já sabem de cor, mas não se cansam de espiar. Tudo, claro, pra satisfazer a curiosidade das estudantes que “vieram fazer uma pesquisa”. Mas o fato é que tudo que é proibido é mais gostoso. “Eles vão brigar se virem.” Mas já está lá abrindo uma fresta nos biombos. “Tu tem celular com câmera? Tira foto ali pela fresta.” O jeitinho brasileiro dentro da mesquita. A do All Star acha a fresta ainda muito pequena e puxa mais a placa de madeira.
Não podem pintar as unhas, mas pintam. Os olhos são bem maquiados, com delineador e rímel pretos. O rosto é uma das poucas partes do corpo que pode aparecer. O resto deve ficar escondido por preservação da mulher, pra não chamar a atenção do homem. Mas o que está à mostra é valorizado. O que é maquiagem senão uma tentativa de chamar a atenção. É contraditório. Mas afinal de contas, elas são muçulmanas, mas são mulheres. E vaidosas.






