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“Todos esses que aí estão atravancando meu caminho…”
Se tivesse que continuar o poema, o que você diria? O candidato a prefeito de Porto Alegre pelo PHS, Carlos Gomes (aquele que é metade político metade avenida – rá, eu não canso dessa), diria “Saiam da frente”. Pelo menos foi o que ele respondeu pro Rafael Cortez, do CQC, quando ele pediu pra completar o poema do Quintana. Salve a criatividade e originalidade.
“O nosso antepassado das cavernas diria: ‘É água’. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: ‘Sim, mas está contaminada’.”
José Saramago
Às vezes me dá vontade de entrar embaixo das cobertas e ficar ali o dia todo. Dormir, ler bons livros de literatura, esquecer o mundo, não ter que fazer nada. Se bem que nem bons livros eu não estou conseguindo ler. Ando com um sono exagerado, que cada vez que eu começo meu Saramago eu durmo. Estou cansada de as coisas darem errado, de falar e não me fazer entender, de nem eu mesma me entender. E eu ainda quero ser jornalista. Quero? Pois é, nem eu me entendo, não sei o que eu quero. Quero entrar embaixo das cobertas e dormir. Quero ter sono para não sair mais de lá por algum tempo, deixar o mundo correr um pouco sem mim. Não que eu faça muita diferença no mundo, mas às vezes parece que está tudo tão errado, que tudo que eu faço prejudica alguém. Juro que não é a intenção. Justo eu que a minha vida inteira fiz as coisas esperando aprovação de quem estivesse ao redor. Sei que assim também não é bom, a gente acaba vivendo pros outros. Será que eu vivo muito pros outros ou fechada demais em mim?
Essa semana estávamos eu e três amigos tomando nossos cafés tranqüilamente na frente da Fabico, naqueles banquinhos de pedra perto da árvore, quando chega um tiozão todo malhado, de camisa meio justa, começa a distribuir santinho. Era dele mesmo, candidato a vereador pelo PPS. Não adiantou meus colegas explicarem que não votam em Porto Alegre, ele acha que a política dele é “to the world”. A conversa foi mais ou menos assim:
- Meu nome é Magadan, eu sou triatleta, sou candidato a vereador…
- Eu não voto aqui.
- Não, mas pode pegar, vocês podem conhecer o meu projeto mesmo não votando aqui, meu projeto é to the world. Eu quero fazer mais pela saúde, proibir as redes de pesca em Tramandaí, porque eu sou triatleta, e resolvi me candidatar porque eu tenho projetos pra saúde e pra proibir as redes de pesca e se vocês quiserem me ajudar no meu projeto, taí o número [por que diabos ele não se candidata em Tramandaí a gente não conseguiu descobrir].
- Por que tu escolheu o PPS?
- Ah, eu não acredito nesse negócio de partido, é tudo a mesma coisa, não tem mais isso de ideologia, todos querem a mesma coisa, eu sou triatleta, hoje vou nadar dez mil metros. E não tem nada a ver com o pessoal que tá aí, porque o Fogaça saiu do PPS, foi pro PMDB, foi uma traição.
- Sim, mas o problema não é quem saiu do PPS, mas quem continuou nele, como o Britto, o Berfran.
- Olha, se tu não quer votar em mim tu não vota. Eu não quero discutir política contigo. Eu não vou ficar aqui insistindo pra tu votar em mim. Eu vou nadar dez mil metros hoje, porque eu sou triatleta. Tu pode votar em quem tu quiser, eu só acho que a saúde está muito ruim e eu sou triatleta.
- Tu é candidato a vereador e não quer discutir política comigo?
- Tu não precisa votar em mim, pode votar em quem tu quiser, eu sou triatleta, meu pai foi vereador, construiu a Restinga.
- Como é o nome do teu pai?
- Antonio Magadan.
- Ah.
Ele vai se retirando. Depois de andar alguns passos, ele volta e aparece ali do lado do nada.
- Olha, se tu não quer votar em mim não vota. Eu sou triatleta e quero fazer mais pela saúde, que a coisa tá muito ruim. E isso de política não me interessa, porque é tudo igual, eu não escolhi o partido por ideologia, que isso não existe mais, eu não quero discutir política. Obrigado.
Ok, então.
Passei hoje por um menino andando de bicicleta. Ele dava voltas sempre no mesmo lugar em uma rua tranqüila em que quase não passam carros. Devia ter uns oito anos. Eu passei por ele bem de canto, às vezes as crianças perdem o equilíbrio e não conseguem desviar da gente. E elas se machucam mais, mesmo se são elas as que ocupam o assento em cima das rodas, são menores, ainda não aprenderam a cair, embora suas feridas curem mais depressa.
Passei ao longe – não tão ao longe, já que a rua era estreita -, mas fiquei cuidando seus movimentos. Era alegre, como a maioria das crianças. De repente largou a bicicleta e saiu andando com uma agilidade que me impressionou. Encontrava uma menina de uns seis anos, talvez irmã, talvez amiga ou vizinha. Bonita a cena de duas crianças se encontrando, brincando juntas.
Foi aí que o menino denunciou qual seria a brincadeira. Agarrou a menina pelo pescoço e a outra mão deixou fechada, apenas com dois dedos esticados voltados para a cabeça da amiga. Era uma arma. Não atirava, não matava, mas assustava. Talvez não a menina, já acostumada às brincadeiras do colega. Mas os adultos desavisados, desacostumados de seu tempo de criança, quando brincavam de casinha ou carrinho, não sabiam direito como reagir àquilo. Ele se divertia dizendo “Passa tudo senão eu atiro”. Será que ele vê isso na televisão ou na rua? É nos jornais ou nos vizinhos? É na vida.
É bom que São Pedro não exista, porque se ele existir ele vai se ver comigo quando eu chegar no Céu.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”
Antonio Machado, poeta espanhol
Descobri hoje que, além do Fogaça ser o responsável pela consolidação do Orçamento Participativo, quem criou o projeto foi o Collares, através de idéia de Carlos Gomes. O compositor? Não, a avenida!
Rá!
O que o senhor gosta de fazer nas horas vagas?
“Gostar, gostar para valer, eu gosto mesmo é de dormir. Dormir é a melhor coisa deste mundo. Nem leitura, nem diversão, nem uma boa mesa, nada se compara. Sexo então é fichina perto. É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o seu corpo e a sua cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono. É o nirvana!”
Raduan Nassar, escritor
…é não precisar trocar de roupa na hora de dormir.
Ligo a TV e vejo um candidato a vice-prefeito dizendo “pô, demorô”, em um debate dos vices de Porto Alegre. Um debate político! Eu achei que era pra ser sério…
Parece que a campanha não se restringe a algumas poucas vozes. Depois de um abobado ter processado a estudante que escreveu a frase “Pra que (m) serve teu conhecimento?” em uma parede do Instituto de Letras da UFRGS e outro ter escondido o grafite com uma camada de tinta jogada em cima, ela ganhou novo posto e mais apoio. Agora no RU da Saúde. E a discussão, desvirtuada por conflitos políticos dentro da Universidade, pode finalmente voltar à sua origem. Afinal, pra que (m) serve teu conhecimento?
Se todo o mundo dissesse o que pensa e o que tem vontade o tempo todo, seria a liberdade ou o caos?



