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Todo mundo preocupado com a crise e com peninha dos bancos quebrando nos Estados Unidos. Mas os donos desses bancos andam muito preocupados é com a redução de sua fortuna. Afinal, 817 milhões de dólares é mesmo muito pouco. É o que levou Charles Schwab, da empresa de mesmo nome, que vale agora metade do que valia há um ano. Angelo Mozilo, da Countrywide Financial, de hipotecas, está quase morrendo de fome. Pudera, sua empresa vale só 10% do que valia e ele teve que se contentar com apenas 470 milhões de dólares. Fico com mais pena ainda do dono do Lehman Brothers, aquele banco financeiro que foi à falência. Esse ficou com sua fortuna muito reduzida, coitado, só 185 milhões. Quem consegue viver com tão pouco dinheiro?
No total, os executivos de Wall Street, como esses senhores citados aí em cima, que foram os responsáveis por toda essa muvuca financeira através de muita especulação e essa coisa toda, levaram 4,9 bilhões de dólares. Lê de novo ali: 4,9 BILHÕES DE DÓLARES. Enquanto isso, os que investiram nas bolsas norte-americanas perderem 9 trilhões no último ano. E isso tudo de um dinheiro que nem existe direito, uma coisa completamente abstrata.
A informação também é da Carta Capital.
Um advogado boliviano chamado Reynaldo Peters guarda uma relíquia bizarra – mas que dá uma idéia da dificuldade por que passavam – dos anos de chumbo bolivianos (o ditador era Hugo Banzer): “uma tira de papel higiênico onde rascunhou um pedido de habeas corpus. Escreveu com uma pena e usou tinta derretida de uma carga esferográfica seca, encontrada no canto da cela”. Ele foi preso em 1972.
A informação é da revista Carta Capital.
Essa semana teve eleições municipais na Venezuela. Um teste para Chávez, quase um plebiscito, essas coisas todas. Acabei de ler uma reportagem sobre o assunto na Carta Capital – muito interessante, por sinal – e o finalzinho dela me fez comparar as coisas lá com as coisas aqui. Mas só em um aspecto bem específico.
Lá, 80% das pessoas consideram muito importante votar, uma forma de mudar as coisas. No Brasil, são 58% (confirmar). Nos cartazes das eleições municipais de lá, o Chávez aparece mais que os candidatos. Aqui, muito se tentou fazer o Lula apoiar cada candidato em cada cidade, em busca da transmissão da popularidade do presidente. Alguns conseguiram, de forma mais ou menos discreta, mas esse apoio não se refletiu muito nas urnas. O Chávez não, ele transfere votos. Ele elege candidatos em todos os lugares em que o apoio a ele é maioria.
Um líder de uma comunidade pobre com mais de 50 mil moradores em Caracas disse que as pessoas lá estão descontentes com algumas coisas do governo bolivariano, mas ninguém ali vai deixar de votar no candidato do presidente. Detalhe: o candidato de Chávez é sempre do partido de Chávez. O candidato de Lula nas últimas eleições ia do PT ao PP, passando por PMDB, PSB e o que mais fosse, até aliança com o PSDB.
Por que essas diferenças? Claro, é só uma opinião, não sou analista política nem nada, só uma observadora, mas acho que isso acontece justamente por causa dessa divisão clara. Ou se é governo ou se é oposição. No Brasil, as coisas estão tão misturadas que não se sabe mais quem é quem. O Lula tem popularidade, mas o que ele representa? Ele não representa um partido para a grande maioria da população que o apóia. Com isso, ele também não representa uma idéia. Ele é popular porque tem políticas populares, porque tem carisma, porque sim. Não quero com isso dizer que o governo dele é horrível. Tenho muitas críticas, mas enxergo muitas coisas boas. Mas entre as críticas está essa, de que o Lula não representa mais uma ideologia como representava alguns anos atrás.
Na Venezuela, o Chávez é popular também porque é carismático e porque tem políticas populares, mas tem por trás uma idéia, o socialismo bolivariano, a revolução. Mesmo que tenha feito muitas coisas erradas também. Ele tentou a reeleição indefinidamente. Não conseguiu. Mas provavelmente ele elege um sucessor, se ainda não conseguir mudar a Constituição. Elege mesmo com uma Venezuela dividida e uma oposição ferrenha, muito mais determinada que a oposição brasileira. E isso porque ele representa uma política de transformações. Ele representa o PSUV, ou o PSUV representa a política chavista, tanto faz. O importante é que tem uma política, uma linha, uma ideologia. Tudo o que está faltando no Brasil.
Indico um texto muito bom do RS Urgente sobre o governo Yeda.
Da Zero de ontem:
“PSDB lança Yeda à reeleição”
O governo Yeda comemora a antecipação do 13º e o déficit zero. Não vi ainda a grande mídia explicar a que custo isso aconteceu. A ironia foi a comemoração acontecer no mesmo dia do início da greve do magistério. Déficit zero sem respeito ao piso dos professores. Aumento ao funcionalismo? Nem pensar. Reajuste? Um pedaço, em forma de ticket. Os gastos constitucionais com saúde, educação, entre outros, não foram cumpridos. O RS Urgente explica melhor aqui.
Déficit zero é bacana, mas ainda acho que as prioridades estão invertidas. Há que se cortar dos grandes empresários e estabelecer uma verdadeira nova forma de governar. Não adianta nada ter dinheiro em caixa se a educação e a saúde continuam uma merda. Quais os reais benefícios pra população de um déficit zero sem investimentos sociais?
E a Zero Hora apóia e comemora euforicamente. (E eu aproveito pra fazer um jabá do meu outro blog)
“O fato de outros discordarem de nós … não é um obstáculo no caminho que conduz à comunidade humana. Mas a convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são ‘meras opiniões’, esse sim é um obstáculo.”
Zygmunt Bauman, em Amor Líquido
Imagina que tu tens uma casa há muitos e muitos anos. Ela já é quase parte da família. Aí um dia tu decides vendê-la, porque tiveste quadrigêmeos e precisas de mais quartos, mas não podes construir mais um andar, ali é proibido. Tu fazes uma pesquisa de mercado e descobre que ela vale 10 mil reais. Pões à venda e, depois de um tempinho, ela é comprada por esse preço. Alguns meses depois, um amigo do novo dono da tua casa propõe uma lei que permita construir mais ali. A lei é aprovada e o cara constrói uma casa de três andares e aluga os quartos. Ganha uma grana. E agora, por causa da nova lei, o terreno vale 100 mil. Agora imagina essa situação em proporções bem maiores.
Pois é, teu dinheiro está sendo desviado, caro contribuinte, mas de uma forma legal. A notícia já é meio velha, mas, dois dias atrás, foi aprovado na Câmara de Vereadores um projeto de lei pra lá de sacana. Em 2005, a área do antigo Estaleiro Só, na orla do Guaíba, foi vendida por 7 milhões de reais para o grupo SVB Participações, uma ninharia para o tamanho do lugar e pela sua localização. Inicialmente, não havia interessados em comprar a área porque ali não se podia construir nada muito grande, era proibido por lei. Era espaço público, tinha que construir para todos. Afinal, construir ali para poucos é como vender o pôr-do-sol.
Depois de adiar várias vezes por causa das eleições (podia pegar mal, né), essa semana, pois, foi aprovado o tal projeto. Ele permite que se construa. E não só, já tem até projeto pra construir ali, há muito tempo. São cinco prédios de 12 andares, com garagem e o escambau. Até marina tem, com espaço para estacionar o barco de cada morador do novo empreendimento. A região está sendo valorizada por conta do shopping Barra Sul ainda por cima. Toda a Zona Sul está valorizando. Foi construído o Museu Iberê Camargo, tem vários fatores melhorando o preço dos imóveis por ali. Os prédios vão ser de alto luxo, com uma vista panorâmica para o cartão postal de Porto Alegre. Imagina quanto não vai custar cada apartamento e qual não vai ser o lucro dessa construtora. Eu ouvi alguma coisa em torno de 20 milhões, mas aí acho um pouco de exagero. Mas pelo menos um milhão de reais eles tiram em cada apartamento. Se venderem sete, pagam o terreno. Está prevista a construção de 220, mais um hotel com 200 quartos, um píer e uma extensa área comercial.
Esqueçamos por um momento a questão ambiental, o direito de exclusividade que alguns poucos ricos terão sobre o pôr-do-sol, a questão urbana (todos importantíssimos, evidentemente, mas já tratados em outro post). Nos detenhamos a uma questão: é ético? Sinceramente, não consigo enxergar onde está a ética dos vereadores que votaram a favor disso. É uma forma de corrupção legal, pois põe no lixo dinheiro público.
Quem votou a favor:
Alceu Brasinha (PTB)
Almerindo Filho (PTB)
Bernardino Vendruscolo (PMDB)
Dr. Goulart (PTB)
Elias Vidal (PPS)
Ervino Besson (PDT)
Haroldo de Souza (PMDB)
João Carlos Nedel (PP)
João Antônio Dib (PP)
João Bosco Vaz (PDT)
José Ismael Heinen (DEM)
Luiz Braz (PSDB)
Maria Luiza (PTB)
Maristela Meneghetti (DEM)
Maurício Dziedricki (PTB)
Mauro Zacher (PDT)
Nereu D´Avila (PDT)
Nilo Santos (PTB)
Sebastião Melo (PMDB)
Valdir Caetano (PR)
Declarações de alguns deles, retiradas do blog RS Urgente (comentários meus):
Luiz Braz (PSDB)
“Para mim, tanto fez como tanto faz.”
Elias Vidal (PPS)
“Futuras gerações? Eu quero é para mim e agora”.
“Ecologia o caramba”.
“Essa empresa vem com responsabilidade para Porto Alegre devolver a orla para nós”. [nós quem, cara pálida?]
Brasinha (PTB)
“Eu queria que tivesse mais três, quatro pontal do estaleiro.” [ganhava mais dinheiro, né?]
“Eu votava duas vezes esse projeto”. [duas vezes mais dinheiro]
“Eles ali (os empresários) querem o crescimento. Vocês não querem?” [dos empresários? não, obrigada.]
Haroldo de Souza (PMDB)
“Machuca o meu coração quando levanta alguma suspeita de que pode estar correndo dinheiro por este projeto”. [o coração e o bolso]
“Esse é o momento mais sublime da vida do vereador”.
“Vai mostrar esse dinheiro para o teu pai”.
José Ismael Heinen (DEM)
“A iniciativa privada, auto-sustentável, vai trazer riqueza para nós”. [nós quem, cara pálida?]
“Chega do Império do Público.” [claro, ganhando dinheiro, é melhor o privado mesmo]
“De repente, nossos filhos universitários tenham que continuar indo aos Estados Unidos encontrar oportunidades”.
Nereu D’Avila (PDT)
“Presidente, os mal educados têm que se retirar”. [tenha a bondade, vereador]
“Essa casa aqui não é circo”. [até onde eu sei, é a casa do povo, certo? não é ali que tem que se defender os interesses do povo? ah tá.]
“Nós somos vereadores e temos o direito de usar a tribuna em silêncio”. [nesse caso, seria bem mais produtivo mesmo]
Nilo Santos (PTB)
“Reclamam que não se poderá ver o Guaíba, mas há uma via de 20 metros para o carro passar”. [aaaah, bom, agora sim.]
João Antônio Dib (PP)
“Não vai acontecer outra construção na orla do Guaíba”. [pra quê? essa já vai acabar com a vista mesmo.]
”Eu não quero ver aquilo virar outra vila do Chocolatão.” [melhor ficar bonito, bem rico, brilhando, mas pra bem poucos, né?]
Dr. Goulart (PTB)
“Aqui tá o Iberê no meio da selva.” (mostrando foto do museu)
“Quem manda aqui é o vereador, não é a Justiça.” [obrigada por avisar]
“A Justiça é para trabalhar com criminoso, não com vereador.” [ué, achei que fosse a mesma coisa]
“Quem decide altura de prédio é vereador.”
Quem votou contra:
Adeli Sell (PT)
Aldacir Oliboni (PT)
Beto Moesch (PP)
Carlos Todeschini (PT)
Cláudio Sebenelo (PSDB)
Dr. Raul (PMDB)
Guilherme Barbosa (PT)
José Valdir (PT)
Marcelo Danéris (PT)
Margarete Moraes (PT)
Maria Celeste (PT)
Mauro Pinheiro (PT)
Neuza Canabarro (PDT)
Professor Garcia (PMDB)
Abstenções:
Elói Guimarães (PTB)
Maristela Maffei (PCdoB)
Do site do Jornal Já, um resumo do projeto, pronto há muito tempo:
“O empreendimento, estimado em R$ 130 milhões, prevê a construção de cinco edifícios residenciais de 12 andares (220 apartamentos e uma área de 32.160 mil metros quadrados), um hotel com 200 apartamentos e centro de convenções, estacionamento com 1.449 vagas, prédios para escritórios e consultórios, uma marina, um píer para embarcações turísticas, uma esplanada pública de lazer e espaço para bares, restaurantes, lancherias e danceteria.”
“Existe uma conexão entre a publicidade e a prostituição. As duas te excitam pra depois ganhar uma graninha.”
Rafinha Bastos, do CQC
Sabe quando parece que as coisas estão fora do lugar? Pois é.




