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Sei que já tenho escrito pouco há um bom tempo, mas só agora estou oficialmente saindo de férias. Talvez eu volte a escrever alguma coisa em janeiro. Talvez não. De qualquer forma, até hoje esse foi um espaço em que eu pude dizer o que estava pensando das coisas do mundo. Vejo muitas coisas erradas acontecendo por aí e precisei de um meio pra dizer isso.
Obrigada a todos que me acompanharam até esse momento.

Vai dizer que não dá pena?
Hoje, três dias depois do aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, tem um outro acontecimento fazendo anos. Dessa vez um que contradiz a Declaração. Hoje faz 40 anos que o presidente Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5. A partir de 13 de dezembro de 1968, muito mais gente foi torturada, muito mais gente morreu, outras tantas pessoas tiveram que sair do país, os jornais foram mais duramente censurados. Enquanto isso, a classe média curtia o “milagre econômico”. A que custo! O jornalista Flávio Tavares estava lá. Tinha pouco mais de 30 anos e foi censurado, preso, torturado, exilado. No livro “Direitos Humanos: um desafio à comunicação”, organizado pela União Cristão Brasileira de Comunicação Social, ele descreve o período da ditadura, a vida dele nessa época, tudo por que ele passou. O texto é grande, fala da censura sofrida pelos jornalistas, do exílio, a impressão sobre o que estava acontecendo nos outros países, tudo. Eu selecionei apenas os trechos ligados mais diretamente ao AI-5. Vale a pena dar uma lida pra enxergar, pelos olhos de quem viveu o período, como foi a repressão.
“Acho que ao jornalista cabe, mais do que tudo, dar testemunho. O jornalista não faz esforço, não faz palestra, não dá preleção. A missão jornalística é evangélica: ela só pode nascer e desembocar no testemunho, pois, fora dele, nós acabamos neste sistema em que vivemos, sendo unicamente ponte e massa de manobra do sistema dominante. E é isso que venho fazer: dar-lhes meu testemunho de jornalista militante, perseguido, preso, procurado, exilado e anistiado.
(…)
Para muitos outros [os jornalistas que não se acomodaram depois do golpe], no entanto, 64 foi uma bofetada. Eu tinha, em 64, menos de 30 anos, ou melhor, estava fazendo 30 anos quando houve o golpe. (…) Comecei a sentir o que era o golpe de 64 quando me proibiram de dar uma notícia na minha coluna, da ‘Última Hora’, no Rio de Janeiro. (…) Lembro-me, em seguida, de que veio um outro telefonema do Ministro da Guerra. Eu estava impedido de escrever a expressão ‘Movimento de 1º de abril’, com a qual eu caracterizava a quartelada de 1º de abril de 1964. E me sugeriam, ingenuamente, mas com muita lucidez do ponto de vista deles, que eu deveria escrever ‘Revolução de 31 de março’. Minha ingenuidade começou a se romper e a se quebrar aí.
(…)
O sistema fez uma escalada. Foi o oposto do que aconteceu no Chile, como disse o companheiro Richard. No Chile, aquela bofetada foi imensa: campo de concentração, estádio nacional cheio, assassinatos. Aqui, não! O sistema começou envergonhado em 64, tinha muita vergonha em reprimir. Minha primeira detenção (tive três no Brasil) foi no dia 3 ou 4 de maio de 1964, ou seja, um mês depois do golpe militar. Fiquei detido 72 horas e houve, depois, até um pedido de desculpa oficial, pela Voz do Brasil, pelo lamentável equívoco que havia sido minha prisão. Em 1967 fui preso novamente. Fiquei os primeiros três dias e três noites sendo interrogado continuamente, sem dormir, por equipes diferentes em Brasília. Depois, fiquei preso mais sete meses e meio. E o Supremo Tribunal Federal, ao final, deu-me o habeas corpus e mandou libertar-me. Em 1969, depois da avalanche do Ato nº 5, fui preso de forma muito diferente. Em 1967, eu pensei que tinha sido torturado, mas não! Fui conhecer a tortura em 1969. Comecei a ser torturado dentro do automóvel, dentro do táxi em que fui preso. O meu peito se transformou em conzeiro e aí apagaram, pela primeira vez, o cigarro no meu peito.
(…)
[Depois da prisão em 1967] fui para o Rio de Janeiro e voltei ao jornalismo, até que veio aquela avalanche brutal e definitiva do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968. Aí sim, companheiros, foi a ruptura total. Deixou de haver qualquer razão para continuarmos no jornalismo. O Ato Institucional dava poderes tais que censurava, inclusive, a previsão do tempo.
(…)
Mas na luta armada, feita em 1969 novamente, com todos aqueles erros que havíamos cometido em 1967, todos nós acabamos na prisão. Aí é que fui conhecer o que era tortura neste País. Comecei (…) a apanhar dentro do táxi. Levaram-me de minha casa ao quartel da Polícia do Exército no Rio de Janeiro. Já no corredor do pátio da Polícia do Exército comecei a levar pontapés do soldado, que era obrigado a dá-los. Entrei no pelotão de investigações criminais e fui direto para o choque elétrico. Havia, até então, ouvido falar no assunto. Até escrevi sobre isso para nossas publicações clandestinas mas, com toda sinceridade, não acreditava muito na brutalidade do choque. Só quando caí na primeira descarga é que fui ver quanto eu e todos nós havíamos sido ingênuos e, sob certos aspectos, até desinformados. Tudo aquilo que havíamos escrito – com uma cor pura – era, na realidade, muito pior do que qualquer descrição.
Eu me lembro de que em 1969, todos nós, no Rio de Janeiro, e todos nossos companheiros em Porto Alegre, em São Paulo e no Nordeste, estávamos em disponibilidade de sermos presos. Achávamos que ser preso era até uma boa ação, um gesto romântico. Nenhum de nós sabia realmente o que era a repressão, mesmo os que, como eu, tinham tido duas prisões anteriores. Mas o golpe militar havia feito a sua escalada. Começou tênue, envergonhado de si próprio, até chegar à situação do governo Médici. Trinta dias depois da minha prisão em 69, já não tinha mais movimento no braço direito: não podia nem assinar os meus depoimentos, pois o choque elétrico o imobilizara. Sentia na boca um gosto de fio de cobre, estava com as gengivas inchadas e falava com dificuldade.”
Estou lendo uma “enciclopédia de Ipanema”, Ela é Carioca, do Ruy Castro. São muitos perfis que compõem a alma do bairro. Sabe o que me chama a atenção? Primeiro que nos perfis de homens os filhos nem são citados e nos de mulheres são parte importante da história. E depois que, com exceções, claro, os que são felizes, se divertem, vivem a vida, curtem, morrem cedo. Muitos até nem de drogas ou álcool, como se pode pensar, mas em um desastre de avião, por exemplo, como a Leila Diniz, que tinha acabado de realizar o sonho de ser mãe. E os que vivem mais tempo terminam a vida infelizes. Todos que estão ali se destacaram por algum motivo. Ou pela política, ou pelas artes, ou até pelo estilo de vida. Será que tem que morrer cedo ou triste pra ser feliz ou pra fazer alguma coisa que valha a pena?
Quer prova maior de que ainda falta muito pra ser de fato respeitada no seu todo a Declaração Universal dos Direitos Humanos do que o que aconteceu essa semana?
O policial mal treinado, mal orientado, imbuído daquele espírito comum à maioria das pessoas de que bandido tem que morrer, policial tem que atirar etc. que matou uma criança foi absolvido. Ele atirou em um carro parado, depois de a mãe ter jogado pra fora uma bolsa de criança pra mostrar que tinha um menino pequeno ali. O policial confundiu o veículo com um carro de bandido, estava cego, enxergando apenas o que queria. O policial foi absolvido da acusação de homicídio. Pegou sete meses de regime aberto por submeter a família aos estilhaços dos vidros que se quebraram com os tiros.
Não quero aqui julgar ninguém só pelo que assisti pela televisão. Talvez o problema nem esteja no policial em si, vai saber. Mas não dá pra não ver que as coisas estão muito erradas.
Cês tão sabendo da história do coronel Mendes, que pediu ajuda a um investigado da Operação Rodin pra conseguir o cargo de comando da Brigada Militar, né? Bom, se não estão, leiam aqui.
Fiquem já sabendo que o relatório da Polícia Federal diz que foi pedido ao jornalista Políbio Braga que fizesse uma nota falando mal do MST pra mostrar que o negócio – na verdade o estado – estava uma zona sem a presença do coronel Mendes. Era época da ocupação da Fazenda Southall – que agora foi vendida pra União (tinha umas dívidas e tal) e vai assentar diversas famílias – e a idéia era que se falasse bem mal da “invasão”, pra mostrar que o Rio Grande do Sul era praticamente um estado sem lei. Tudo isso por causa da ausência do coronel Mendes, repita-se.
Pois bem. A Zero Hora foi entrevistar o Políbio – o mesmo aquele que tirou A Nova Corja do ar por uns tempos e depois perdeu o processo – e eis sua resposta (grifos meus):
“Recordo dessa nota, mas não lembro da circunstância em que botei, porque eu gosto de tocar o pau no MST. Essa nota não tem fonte, sou eu mesmo. No blog (ele tem um blog, mas não vale a pena conhecer) tenho certeza de que saiu. Se saiu no impresso não recordo. Com certeza não houve interferência absoluta de ninguém, pois costumo atacar o MST e defender o coronel.”
Bom, realmente não dá pra dizer que ele não mostra seu lado. É uma pena só que esse tipo de lado seja o mais influente.
Sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. Só falta tirar do papel…
De novo, venho meio atrasada, mas não dá pra evitar de postar aqui uma citação da Zero Hora do dia 30 de novembro. A fala é da nossa governadora que foi entrevistada muito gentilmente pelo nosso jornal. Cada pergunta dizia mais ou menos assim “Qual das suas maravilhosas ações de governo a senhora gosta mais?”. Tipo brincadeira de criança, sabe? E ainda assim, com tanta colher de chá, ela conseguiu soltar a seguinte frase, que pra mim demonstra muito do seu novo jeito-super-democrático de governar:
“Às vezes, as pessoas não querem muita abertura. Preferem que alguém decida por elas por ser uma coisa muito impopular.”
Em seguida, tem uma matéria meio confusa, que é pra ser sobre a Yeda, mas é, na verdade, sobre um monte de coisas. Lá no meio, está a declaração de dom Dadeus Grings, arcebispo de Porto Alegre, sobre o que se comentava em Roma sobre o golpe de Estado brasileiro naquele início de abril de 1964.
“Quando as forças de Minas Gerais e do Rio se encontraram, cortaram-se as comunicações. Os italianos calculavam quantos teriam morrido. Não morreu ninguém. E eu tive de explicar a eles o jeitinho brasileiro.”
É isso aí, o golpe militar nada mais foi do que um “jeitinho brasileiro”, nas palavras de dom Dadeus. Ah, esse cara, que defende o papa Joseph Ratzinger, é fonte de inspiração da governadora, seu conselheiro político. Está lá na matéria.
Tentativa 1: Ontem passei por várias (várias mesmo) bancas do Centro tentando comprar um dvd do Che que anunciava atrás da capa de uma revista de história especial sobre Cuba. Ali dizia “Já nas bancas”, donde que fui a elas. Nenhuma tinha. A explicação que alguns me deram foi de que os impostos do estado do Rio Grande do Sul sobre os dvd’s são muito altos. Me disseram que eu não acharia em banca nenhuma. Mas em Santa Catarina, em São Paulo devia ter.
Tentativa 2: Hoje mandei um e-mail para o setor de Comunicação da prefeitura pedindo uma entrevista com o prefeito pra uma matéria. Imaginei que não ia levar, mas não custa tentar, né. Realmente não consegui. O e-mail que tem no site da prefeitura não existe, voltou. Deu pra entender? O e-mail do setor de Comunicação da prefeitura não funciona!
E aí, qual dos dois está melhor? Esses mini-perfis foram escritos para uma revista da faculdade, a Sextante, mas, por uma série de problemas, eles não entraram. Nem os meus nem os de ninguém que escreveu. É uma pena, porque eu gostei da maioria. Mas então, os dois aí embaixo são sobre a mesma pessoa. Escrevi um, não gostei e, tempos depois, escrevi outro, sem nem ler o primeiro de novo. Resolvi postar o que iria pra revista aqui, mas no meio do caminho achei o antigo. Não sei mais qual eu prefiro, então os dois vieram parar aqui. Não vou contar qual eu escrevi primeiro e qual eu escrevi depois. Os títulos foram feitos agora, e sou péssima nisso, não reparem. Espero que gostem:
Aquela voz alta e grave faz parar no chão uma meia dúzia de pares de pés. Os olhos que pertencem àqueles corpos estacados observam a cena inertes. As bocas estão entreabertas e um sorriso de leve marca o canto de cada uma delas. É como se pensassem “O que esse louco está dizendo?”. Poderia jurar que pensam isso, sim. O “louco” em questão solta aquela voz que grita “Jesus disse: ‘Eu sou, e além de mim não há outro’”. Grita mesmo, a ponto de chamar a atenção no meio da Rua da Praia, na muvuca de vozes e passos.
Paulo Roberto Flores tem um sorriso alegre, um corpo forte e negro de não mais que um e setenta e uns 60 anos, talvez. Desses, 22 foram dedicados à igreja bordada no alto do lado direito do jaleco branco que ele veste: “Igreja Pentecostal Deus é Amor”. Está ali distribuindo panfletos que pregam a salvação através de Deus e buscando novos fiéis para sua fé evangélica. Em um discurso decorado, explica bem rápido que entrou para a igreja para se livrar “das drogas, do vício, das más companhias, da mentira, do cinema e dos carnavais”.
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Motivos
“Jesus disse: ‘Eu sou, e além de mim não há outro’.” Ele gritava essa frase e tantas outras do mesmo gênero. As pessoas andavam apressadas pela Rua da Praia, mas muitas paravam e viravam para olhar, como se pensassem “o que este louco está fazendo?”. Alguns até esboçavam um sorrisinho irônico, daqueles de quem vê um outro alguém de linhagem inferior, que só merece pena. Mas ele não estava nem aí. Mandava sua mensagem com a boca aberta, os poucos dentes à mostra em um sorriso franco, com a felicidade de quem acredita piamente no que diz. A vida é fácil, é simples.
Ele é Paulo Roberto Flores, negro, não mais que um e setenta, rechonchudo mas não gordo. Usa uma espécie de jaleco, parecido com aqueles de médico. Mas no seu está escrito “Igreja Pentecostal Deus é Amor”. É evangélico há 22 anos. O porquê está na ponta da língua: “para me livrar das drogas, do vício, das más companhias, do cinema, da mentira e dos carnavais”. Os motivos saem como que decorados há muito tempo. Talvez sejam mesmo.



