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Parece mentira, mas está escrito na Zero Hora (mais especificamente na página 6 da edição de hoje), e até me admiro, porque não é de seu feitio desnudar assim o PMDB. Mas tudo bem, está camuflado. É sobre a sucessão ao governo do Estado, as relações entre o PMDB e o PSDB. E o que é pior, aposto que a maioria de seus leitores não se dá conta do que realmente está escrito ali, acham aquilo ótimo. Pois bem, avalia tu mesmo:

“Peemedebistas de relevo comemoram resultados do ajuste fiscal e querem garantir a governabilidade, mas há quem torça para que as dificuldades políticas, uma das maiores fragilidades do Executivo, persista até a ida às urnas.

O plano, segundo um cacique peemedebista é colher os louros de realizações da governadora sem assumir o fardo de erros políticos e suspeitas de corrupção.

pmdb

A reportagem não diz quem é o tal cacique peemedebista, mas ele resume bem a ideologia do partido. É o PMDB que é sempre governo, independente de quem tenha sido eleito, e sempre oposição, independente do que esteja fazendo quem foi eleito. Cara de pau! Como é que alguém pode votar em um partido que assume abertamente usar (no sentido mais baixo da palavra) feitos de outros para se promover ao mesmo tempo em que se mantém saudavelmente distante das evidências negativas de quem roubou os fatos positivos? Parece confuso? Imagina que tu e alguns amigos fizeram um trabalho em grupo. Todos participaram juntos de todo o processo. No fim das contas, vocês apresentaram o trabalho e o professor achou bem feito, gostou. Quando ele vai ler, descobre erros crassos. Ele vai conversar contigo para saber o que aconteceu. Nessa hora tu te afastas dos teus amigos e falas para o mestre que tua parte era outra, que fizeste só um outro capítulo, não tens responsabilidade sobre os erros. Tu passas de ano, teus colegas não, mesmo tendo todos colaborado, repito, igualmente em todas as fases do projeto. Bonito?

“Dizem que a burguesia é uma classe já condenada pela História, e que breve sumirá no sorvedouro social, visto que a posse por um grupo limitado de pessoas (ainda que sejam pessoas de bem) da terra e das máquinas e meios de produção em geral conduz forçosamente a Más Conseqüências. Dizem que isso é verdadeiro a um tal ponto que os países mais prósperos do mundo burguês só gozam por exemplo dessa felicidade primária e aliás bastante medíocre que é estar todo o povo a trabalhar granjeando com honradez o seu pão quando esse trabalho se destina à Morte, e não à Vida. Assim dizem. Em nações soberbas, como a Alemanha, a França, a Inglaterra e os Estados Unidos, há em tempos normais milhões de desempregados, homens que não têm o que fazer, se me perdoam a expressão, bestando por ali como se o trabalho dos outros bastasse para a fartura geral, o que não se dá. Só em tempo de guerra ou de preparação para a guerra todos acham o que fazer. Em outros países as eras de Prosperidade redundam em fatos reprováveis, como é a destruição em grande escala de mercadorias. Quando queimamos ou jogamos ao mar sacas de café produzidos com desagradável esforço, não o fazemos porque o Mundo esteja abarrotado de café, a tal ponto que todas as famílias decentes tenham na despensa mais quilos de café do que o estimável em vista do problema do espaço no lar.

Não, não é assim. O café, que é pouco para as pessoas que querem tomar café, é demasiado para as pessoas que querem vender café. O que acontece é uma coisa profundamente trágica e estranha, eis que o café não é produzido para ser bebido, e sim para dar lucros. O mesmo sucede com outros produtos, de maneira que já temos visto a maior parte dos povos do mundo (inclusive povos do Oriente que, bem ou mal, também pertencem à Humanidade, embora sejam de alma atravessada ou enviesada, segundo julgam muitos cristãos do Ocidente), a maior parte dos povos do mundo íamos dizendo, passar necessidades de roupa e de boca quando os jornais mais sérios e as estações de rádio cujos conselhos são ouvidos com mais atenção afirmam que há Superprodução. Proibimos a instalação de usinas de açúcar não porque a vida para a humanidade esteja demasiado doce, mas, sim, porque é preciso proteger os lucros dos donos de usinas de açúcar existentes. Fazemos isso para evitar que o açúcar fique muito barato, como se fosse um grande pecado ficar o açúcar muito barato. Além disso, se o país A produz colchetes e o país B também produz colchetes, e ambos desejam vender colchetes ao país J, isso resulta em uma disputa entre nações, sendo convidados escritores, declamadores, militares, eclesiásticos e escroques do país J a visitar ora o país A, ora o país B, na esperança de que se esforcem para colocar o país J a favor do país A em sua guerra contra o país B, ou a favor do país B em sua guerra contra o país A, visto que no Sistema do Imperialismo o único meio de saber quem tem direito de vender colchetes é transformar as fábricas de colchetes em fábricas de espoletas e travar batalhas terrestres, aéreas e navais que enriquecem as Páginas da História.”

Trecho da crônica História de São Silvestre, de Rubem Braga, escrita em janeiro de 1942. Retirada do livro 200 crônicas escolhidas.

Só pra não deixar esquecer: amanhã tem a Hora do Planeta, com a participação da WWF-Brasil. Apaga as luzes da tua casa, desliga a TV, acende uma vela e vai ler um livro.

hora-do-planeta

Aniversário de Porto Alegre. Em vez de louvar a cidade, a RBS louva o prefeito: http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=56831&channel=45 (ver a partir de 4 minutos).

godfathervDepois de Ronaldo Bernardi, da RBS, processar o jornalista Wladymir Ungaretti por denúncias que ele havia feito em seu blog Ponto de Vista, chegou a vez do jornalista Felipe Vieira, do Grupo Bandeirantes, processar o blog A Nova Corja, que já fora processado por Políbio Braga, que escreve para a Rede Pampa.

Ou seja, não é simplesmente uma empresa, a hegemônica, a mais poderosa, que quer se livrar de jornalistas incômodos que pensam e falam coisas diferentes do que as que a empresa pensa e fala (afinal, essa coisa de pluralidade, de democracia, é muito chata!). Isso demonstra que é todo o sistema que pensa assim. Que todos os jornalistas – ou quase todos – que trabalham para qualquer veículo minimamente grande e estabelecido pensa exatamente da mesma forma. Quer dizer, estamos sempre voltados para uma mesma forma de ver o mundo, e é uma forma canalha, baixa e antidemocrática. Não me resta mais dúvidas, é uma máfia!

bla-bla-bla

Na frente da Zero Hora, na avenida Ipiranga.

“… o jornalista americano médio… não é apenas tão ruim quanto o diz Upton Sinclair, e sim dez vezes pior – dez vezes mais ignorante, dez vezes mais desleal e tirânico, dez vezes mais complacente e pusilânime, e dez vezes mais malicioso, hipócrita, insincero, velhaco, farisaico, fraudulento, enganoso, pérfido, impudico e desonesto.”

H. L. Mencken, autor de The American Language

Alguma coisa me diz que não é só o jornalista americano

Essa semana a Justiça determinou que o jornalista Wladymir Ungaretti retire do ar (do blog e do site) todas as críticas e referências ao fotógrafo cascateiro da RBS Ronaldo Bernardi (pra quem não sabe o que é cascata, é quando o fotógrafo “arma” a situação da foto; é mentira, distorção da verdade). Faço meu protesto de silêncio, seguindo a linha do Jornalismo B, mas, como o Ungaretti vai tirar o blog do ar, achei que não era suficiente linká-lo aqui, precisava de uma explicação. O Observatório da Imprensa faz isso melhor que eu. Esse é um post de apoio ao Ungaretti e de protesto ao mau Jornalismo e à má Justiça brasileiros, ambos predominando hoje.

censura

O João do Rio, jornalista flâneur bem do início do século 20, que andava pelas ruas do Rio de Janeiro e escrevia crônicas a partir de suas andanças, defendia que cada ato nosso tem uma repercussão que atinge o mundo inteiro. Não foi o primeiro nem vai ser o último a pensar assim. Edgar Allan Poe já o havia feito: “Movemos nossas mãos e damos vibração à atmosfera que as cerca. A vibração estende-se indefinidamente, de modo que o impulso dado chega a todas as partes da terra e do ar”.

Faz sentido, e o pior é isso. Essa teoria nos enche de uma responsabilidade imensa. Por menor que seja, cada decisão que eu tomar vai atingir tanta gente. Isso me faz um pouquinho responsável por tudo de bom que acontece no mundo, e por tudo de ruim, por tudo tudo. E essa sensação de responsabilidade por influenciar na vida dos outros a cada instante me angustia absurdamente. De repente, sei que não podemos fazer nada sem pensar porque seria meio egoísta, certo? E que, de qualquer forma que fizermos, vamos influenciar, talvez de forma positiva sobre alguns mas de forma negativa sobre outros.

responsabilidadeSó não descobri ainda se o que me angustia mais é a responsabilidade ou enxargar que muito poucos são os que veem a responsabilidade que têm, que muito poucos agem pensando nos outros. Não digo nem que a maioria seja egoísta, acho que não é por aí, mas que a maioria não tem noção mesmo dessa responsabilidade. Isso é incrivelmente angustiante.

Mais alguém acha um absurdo um ingresso pra um jogo de futebol custar 70 reais? Esse é o preço da arquibancada inferior (o mais barato) no jogo das Eliminatórias da Copa de 2010 do Brasil contra o Peru no Beira Rio, como todo mundo já deve saber. Futebol não era um troço popular, a alegria do povo e tal? Não devia ser, digamos, acessível?

Olha aí, Jornalismo B no Observatório da Imprensa:

http://observatoriodaimprensa.com.br/netbanca.asp

Declaro meu apoio total ao impeachment de Yeda. Que venha o quanto antes.

preguica1Um dos meus temas recorrentes de reflexão diz respeito aos pecados capitais. Há muito tempo cheguei à conclusão, depois de muito pensar, que a preguiça é mais forte que a gula no meu caso. Isso porque, quando eu era bebê, acabei ficando magrinha demais porque não acordava para comer, nem chorava pra não acordar. Pois ontem descobri que tenho um orgulho maior que a minha preguiça. E a ira está quase lá.

Só pra constar: o orgulho não é um pecado capital segundo São Tomás de Aquino, que elaborou a lista mais famosa (vaidade, inveja, ira, preguiça, avareza, gula, luxúria), mas existem outras versões, e o orgulho está lá, orgulhoso, nelas. É que na verdade o Tomás esse acabou mudando um pouco a versão de Evagrius, que só Deus sabe quem é. Deus e o papa Gregório, que no século VI meteu o dedo na lista também. A mistura de Evagrius e de Gregório ficou assim: orgulho, inveja, ira, melancolia, avareza, gula e luxúria. O orgulho mais tarde virou vaidade e a melancolia virou preguiça. Da combinação das duas listas, tirei meu post de hoje.

E não é que o projeto foi aprovado? Agora, se o executivo não fizer uma consulta popular em 120 dias (sem espaço para propaganda e sem obrigatoriedade de voto), o projeto é aprovado automaticamente. E a Zero Hora finge que não acontece nada. Chega a embrulhar o estômago, de raiva.