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Estou ascendendo socialmente. Até ontem eu tinha a assinatura light da Zero Hora. Hoje eu recebi a versão completa.
Tenho tirinhas da Mônica \o/
“Dilma do presídio ao Planalto”, diz a capa da Piauí que está circulando pela minha casa e que ainda não abri, apesar de o mês já estar acabando. Eu olhava uma outra revista qualquer na Saraiva essa semana quando ouvi uma mulher perguntando pra outra: “a Dilma já foi presa?”. Ela parecia meio assustada com a revelação que tivera. A outra respondeu: “ah, acho que foi naquelas coisas da ditadura”. Acabei me metendo e esclarecendo as duas de uma informação que me parecia de conhecimento geral, daquelas coisas que todo mundo sabe, ninguém questiona. Se elas, que estavam dentro de uma livraria, não sabiam, imagina a grande maioria da população. Chega a dar uma tristeza…
Olhando as estatísticas do blog, fui ver que termos as pessoas estavam utilizando pra chegar até aqui. O que será que quiseram dizer com “o padrasto só quiz as pregas”?
Quinta-feira eu saí de casa, fui até a esquina e decidi que não dava pra continuar caminhando na rua. O ar gelado enchia os olhos de lágrimas e congelava o nariz. Eu sou exagerada, passo um frio anormal mesmo. Mas estava realmente frio. E isso era meio-dia e meia. Cheguei a um termômetro desses de rua - ele estava no sol – e vi que marcava 8ºC. Isso era meio-dia e meia, repito, em Porto Alegre. De noite, dormi com três edredons e acordei várias vezes com os pés gelados – eu disse que era exagerada, mas nada disso é mentira.
Nesse mesmo dia, eu e os guris do Jornalismo B tínhamos marcado um debate sobre Mídia Alternativa. Claro que foi pouca gente, era frio demais, e era de noite. Mas o ponto onde quero chegar é a conversa que tive pouco antes de o debate começar. Um dos nossos convidados era a coordenadora do jornal Boca de Rua, Rosina Duarte. Pra quem não conhece, o Boca é um jornal feito por moradores de rua de Porto Alegre. É um projeto da Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). Rosina e mais uma equipe pequena de jornalistas - confesso que não sei exatamente quantos, conheço apenas a Natália Ledur Alles – orientam diversos moradores de rua. Eles discutem pauta, decidem juntos o que vão fazer, vão às ruas, buscam as informações, montam a matéria e escrevem. Sempre com o acompanhamento da equipe de jornalistas. Depois, se dividem e vendem. Cada um coloca seu nome na capa do jornal para que o leitor saiba de quem comprou aquele exemplar. Custa 1 real. É um trabalho muito bacana, que abre espaço para quem nunca tem voz e, mais importante ainda, leva dignidade a um setor da sociedade altamente discriminado, até porque costuma ser criminalizado pela mídia corporativa tradicional.
Pois bem, o que eu queria falar mesmo é da minha conversa com a Rosina. Ela me dizia que adora o inverno, sempre gostou, mas, desde que começou o trabalho com o Boca, não consegue passar tranquila por esses dias frios, que fica sempre pensando nos guris com quem ela trabalha, que moram na rua.
Ela me contou a história de um rapaz, que chamavam de Bocão. Uma vez ficaram sabendo que o Bocão fora preso. Mas como, por quê? Sabiam que o Bocão não era de roubar, não faria nada de errado assim. Pois o Bocão tinha arrombado um carro. Estranho, ele nem dirige nem nada, o que faria com um carro? O Bocão não aguentou o frio da rua, arrombou o carro para dormir, foi encontrado todo encolhido dormindo lá dentro.
Não me importa se eles estão na rua porque não querem ir para abrigo ou porque não têm para onde ir mesmo, dá pena igual. Alguma situação levou-os a isso, e, sinceramente, isso não é vida. Como pode sobreviver a dignidade de alguém quando sua casa são alguns pertences que ficam dentro de um saco plástico e que a polícia toma assim que vê? Eu estou na minha sala, com paredes por todos os lados, estou no segundo andar de um prédio, tenho um piso de madeira, estou bem isolado do frio que vem do solo. Tem uma estufa ligada quase em cima de mim, estou com meia de lã, calça grossa, três blusas, pantufas. E minhas mãos estão geladas, como sempre no inverno. Só de pensar em pessoas dormindo na rua, com o ar gelado direto nelas, sem qualquer tipo de proteção – talvez uns jornais, alguma coisa assim -, tremo de frio. Eles não pensam nisso, eles vivem isso.
Na mesma quinta-feira, dia 23 de julho de 2009, eu voltava pra casa do debate, lá pelas 21h, e passei por mais de uma esquina em que prostitutas esperavam pelo seu próximo cliente. Uma delas estava com uma blusa fina, uma jaqueta jeans, uma meia-calça e uma míni-saia. Juro, não devia fazer mais de 5ºC. E estou chutando alto.
Por isso e por tantas outras coisas que fico indignada quando chamam essas mulheres de “de vida fácil”, ou quando dizem que os moradores de rua merecem o que passam porque eles não aceitam irem para abrigos, eles estão na rua porque querem.

As pessoas que falam isso têm medo de chegar perto de moradores de rua. O máximo que elas conversam com pobre é sobre qual almoço a cozinheira deve fazer, sobre como a faxineira deve limpar a casa. E esses pobres com quem eles convivem normalmente não são os mais mais pobres. Nunca nenhum desses que pensam que pobre é pobre porque quer conversou com um morador de rua. Nunca foi atrás de saber por que ele está na rua. Constrói seu discurso em cima de preconceito, de como a Zero Hora diz que é – jornal, aliás, que também não conversa com os moradores de rua - e do que é mais fácil. Afinal, não é minha culpa se eles não têm onde dormir e eu tenho. Mais fácil, né?
Mas cada um desses mendigos, dessas prostitutas, tem uma história, tem uma vida. Provavelmente sua família é desestruturada. Às vezes a ponto de ele ficar meio intratável mesmo. Claro, com raiva do mundo. Tudo na sua vida deu errado. Ele mora na rua. Por quê?
E isso é Porto Alegre, que não é a cidade mais fria do mundo, nem sequer a cidade mais fria do Brasil. E nem a única a ter problemas assim. Não sei direito o que fazer para ajudar a resolver o problema. Talvez seja um bom começo deixar de olhar para o cara que vem pedir dinheiro no carro como um criminoso. Pensar se ele tem mãe, pai, se tem mulher, filhos, tentar imaginar qual sua história de vida. Se dar conta que ele é uma pessoa, que ele sente, que ele sofre. E que ele tem raiva desse mundo de merda em que ele vive.
Tenho pensado um pouco sobre esse negócio da ateísmo. Bom, o assunto não surgiu do nada assim, por iniciativa dos meus próprios pensamentos. Na verdade já faz muito tempo que ele aparece de vez em quando, mas agora resolvi escrever por conta desse texto que eu li semana passada. Não concordo com tudo que está ali, mas algumas ideias dá pra aproveitar. O que me motivou a atualizar esse blog, na verdade, foi a coisa da moralidade. Ou melhor, a forma com que as pessoas veem a moralidade dos ateus.
Não sei exatamente o termo mais correto pra se utilizar nesse momento. Me parece que os ateus, assim como os comunistas – que muitas vezes são a mesma pessoa, já que são ideias que me parecem complementares -, são vistos como amorais. Nesse texto que me despertou mais uma vez para o assunto, é citada uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo que eu não achei no site deles, mas ela parece fazer sentido. Diz lá que os ateus são o grupo mais discriminado socialmente. Os ateus, ainda segundo o texto, são os menos votados em eleições. Na verdade, os mais rejeitados. “Se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar”, diz o autor do texto, Rafael Galvão.
Sempre me intrigou aquelas pessoas que acreditam que a outra é pelo menos um pouco boa, afinal, é tão religiosa. Ou que alguém que não tem fé em um deus qualquer não é capaz de atos de humanidade porque, bem, porque não acredita em um deus qualquer. Respeito as crenças, quase todas – menos aquelas que humilham, enganam com fins mais escusos, como conseguir dinheiro de gente pobre -, respeito mesmo. Acho que muitas vezes a religião pode servir como um apoio, uma forma mais fácil de enxergar a vida, e não acho errado buscar um jeito mais fácil de fazer as coisas. Só não consigo acreditar nesses deuses que são tantos por aí, cada qual com sua legião de apóstolos, seguidores, santos e o escambau, simplesmente porque não faz sentido, não tem lógica. (Se bem que às vezes quase desisto da coisa pra não ter que dizer que sou atéia – eita palavra mais feia!) Mas acredito profundamente na humanidade. Acredito que os homens são em essência bons e que pode sair muita coisa boa ainda, que a gente pode melhorar, pode arrumar as coisas erradas. Não é tão difícil assim. Basta ter um pouco de solidariedade.
Essa palavra… solidariedade. Ela me marcou hoje. E aí vai mais uma motivação pra eu vir escrever esse post. Li hoje à tarde uma matéria na edição desse mês da Brasileiros. Era sobre um jornalista comunista inglês, Peter Godfrey, que veio ao Brasil e queria muito entrevistar o grande Oscar Niemeyer. Dizia lá na matéria que é de Hugo Chávez a afirmação de que Fidel Castro e Niemeyer são os dois últimos comunistas do mundo. No auge dos seus 102 anos, ele continua comunista. Pois bem, o jornalista inglês também se diz um, e há tantos outros por aí – alguns de meia tigela -, mas isso não vem ao caso agora.
Não quero criar uma falsa relação entre comunismo e ateísmo. Mas não dá pra negar que essas duas… hmm… ideologias (?) estão interligadas. A maioria dos comunistas que se vê por aí – não só hoje, mas na história, é atéia. Não digo todos porque há exceções, mas elas chegam a ser estranhas, como se uma coisa não combinasse com a outra. E o comunista também recebe esse olhar crítico, o mesmo destinado ao ateu, e possivelmente pelo mesmo motivo. É a mesma visão de amoralidade (ou imoralidade, nesse caso?). Comunista não é aquele que come criancinha?
Niemeyer construiu umas quantas igrejas, capelas, catedrais, até mesquita ele já projetou. Mas não acredita em nenhuma dessas crenças, simplesmente porque não faz sentido. Ainda assim, constrói as igrejas com um certo carinho, pensando na sua família tão católica, respeitando. Ele conta, em uma das perguntas da entrevista que o repórter de Brasileiros, Eduardo Rascov, e o repórter inglês conseguiram fazer, que uma vez um jornalista do Pasquim lhe perguntou qual palavra ele prefere e ele respondeu “solidariedade”. O texto da Brasileiros termina assim: “Ainda em São Paulo, quando perguntei a Peter Godfrey qual a razão dele permanecer comunista, ele me respondeu com uma palavra: “Solidariedade”. Agora sei o que via desde o início fora de lugar nele. É a solidariedade, algo raro hoje em dia”. Realmente.
Olha a cara de pau da nova propaganda pra assinatura da Folha, em amarelo:

Eu morro e não vejo tudo!
Libra: “Pode não estar se manifestando no mundo das formas, mas certamente está bem vivo e pulsante dentro de você… Sua atividade psíquica está movimentada, não? Observe-se, procure não cortar o fluxo cp, racionalizações e julgamentos. Abra o canal para os bips do inconsciente.”
Hein?
Do Donna, na Zero de amanhã. Por Amanda Costa.O que fazer quando a gente está entrando no último semestre da faculdade, só falta a monografia, mas não se tem tema nem orientador? E muito pior, não se tem perspectiva nenhuma? E ainda pior, não se tem vontade de fazer jornalismo?
Não aguento mais ver leis!

