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Um botijão de gás começou a vazar com muita força no meu apartamento hoje pela manhã. O gás saía como se tivesse sido aberto um buraco no botijão. Tomou conta de todo o ambiente, com um cheiro forte e nauseante. Deu dor de cabeça e tonturas, a boca ficava seca. Ligamos para o Corpo de Bombeiros, que, incrivelmente, avisou que eles não fariam nada, devíamos ligar para a empresa que vendeu o botijão.
Tentamos denunciar o caso na Brigada Militar, no 190, para que a empresa fosse responsabilizada e recebêssemos alguma orientação de como proceder, o que fazer para resolver o problema. Mas a pessoa que atendeu o telefone disse que não tinha “faculdades mentais” pra orientar nesse caso. Nessas palavras, ele falou sobre si mesmo.
A empresa mandou um técnico, que levou o botijão e resolveu o problema. Foi ele quem informou que colocar um pano úmido sobre o vazamento faria com que ele parasse. Os órgãos públicos foram omissos.
As tentativas de entrar em contato novamente com o Corpo de Bombeiros foram várias, enquanto o atendente da empresa não chegava e o gás continuava vazando, mas o telefone simplesmente não atendia mais. Se tivesse pego fogo no prédio, teríamos que apagar com os pequenos extintores que os edificios são obrigados a ter.
Repito insistentemente: os órgãos públicos de defesa do cidadão foram completamente omissos. Irresponsáveis, eu diria.
Getúlio Vargas, Porto Alegre, avenida estreita. O táxi vai ultrapassando todos os carros, ora pela direita, ora pela esquerda, como convier (deve ter tomado umas aulas com o PMDB). Um Siena prata anda pela esquerda. O taxista nem pensa, vai pegando a direita, o mais rápido possível, mas o Siena também vai pra direita. Tentando ser simpática, a passageira – no caso, eu – comenta, em tom de brincadeira:
- Acho que o negócio dele é não te deixar passar.
No que ouve a resposta:
- Ah, mas não tem pra ele. Se ele não me deixa passar, eu chego do lado, encosto nele, que ele pula pro cordão da calçada.
Medo.
——
E uma raivinha contida: é esse fdp que eu quero matar (no sentido figurado, viu, que fique bem claro) quando eu estou dirigindo.
Li na TV do ônibus ontem: “Chuva em Porto Alegre deixa sete sinaleiras sem funcionar”.
Agora não funciona mais nenhuma então. Acabaram com as últimas.
#prefeiturapoa #caos
No vidro do carro da frente, um adesivo que era um aviso. Não, era antes um recado. Queria dizer: “Atenção, eu sou um cara legal”, para que as outras pessoas se comovessem. Mas dizia simplesmente: “Atenção: eu paro na faixa”. Tinha do lado uma mão, com os cinco dedos bem abertos, um sinal.
Opa, a luz amarela ficou vermelha. Um ponto vermelho no céu azul. Mas ele está indo mais rápido. Quando o carro da frente passou pelas tiras largas e brancas deitadas no chão, já fazia tempo que a luz no alto avermelhara.
O que se gabava de parar na faixa, olha só, passou reto no sinal.
Pessoa 1: O que tu fazes?
Pessoa 2: Sou administradora, recém formada.
Pessoa 1: Ah, que bacana. Onde fizeste o curso?
Pessoa 2: Em uma particular.
Pessoa 1: Qual?
Pessoa 2: Uma que está sendo bastante comentada pela imprensa.
Pessoa 1: Deve ser boa então. Qual é?
Pessoa 2: É uma que tem cursos a partir de R$ 199,00. Está ofertado no cabeçalho do site, tipo Casas Bahia.
Pessoa 1: Hmm…
Pessoa 2: Mas é muito boa, tem entre seus valores “Propiciar tratamento justo a todos, valorizando o trabalho em equipe, o alto grau de sinergia e integração, estimulando um excelente ambiente humano de trabalho”.
Pessoa 1: Tá, mas qual é o nome?
Pessoa 2: Na verdade eu preferia não falar o nome. Eu não sei o que significa, porque não diz nem no site. Mas o que importa é que eu paguei direitinho, daí me trataram bem. Ah, e eu nunca fui de saia curta, essa coisa imoral. Minha instituição preserva muito a moralidade.
Pessoa 1: Moral de cueca?
* A quem interessar possa, a situação acima é hipotética.

Mãe e filha caminhavam de mãos dadas. Desviavam do tumulto de um Centro de estudantes e trabalhadores, desempregados e sem-teto, um Centro de Feira do Livro e camelôs, de sujeira e caos. Seus olhos amendoados, os cabelos lisos, o tom da pele denunciavam sua etnia. Infelizmente, suas roupas também. Eram pobres, como a grande maioria dos índios que vemos nas cidades brasileiras. Os dedos da mão da mãe não largavam os dedos da mão da filha. Protegiam e guiavam uma indiazinha de não mais de três anos. Mas os pés… Eram os pés que me doíam ao olhar. Os pés da pequena desviavam dos pés de toda a gente que não a enxergava. Toda a gente que, quando a via, não a reparava. Pés pequenos em um corpo frágil. Pés ligeiros. Pés descalços.
Quando Albert Einstein elaborou sua teoria, relatividade, efeito fotoelétrico e afins, ele não previa que seria o responsável indireto pelo desenvolvimento da bomba atômica. Einstein não queria isso, nunca quis matar pessoas com suas pesquisas.
Muitos anos depois, quando o professor Dieter Seitzer iniciou seus estudos sobre codificação de áudio, em 1970, ele provavelmente imaginava coisas boas com isso. Facilitar a vida das pessoas e blá blá blá. Ele não podia prever que o resultado das suas pesquisas tornariam possível o desenvolvimento do mp3 e que esse trocinho viraria uma bomba nas mãos erradas.
Não, eu não odeio o mp3. Acho ótimo, fantástico, facilita horrores a vida da gente, democratiza o acesso à música e tudo isso. Mas ele devia vir com limite de volume. Ou alguma coisa que ensinasse os donos desses trequinhos a ter educação. Porque o pessoal não se dá conta que o ônibus inteiro não necessariamente tem o mesmo gosto musical. E está cada vez mais difícil pegar um coletivo sem dividir o assento com alguém que queira dividir também a música. De repente é um bem intencionado que vê que eu estou sem mp3 e quer compartilhar comigo o som que ouve, vai saber.
O fato é que não, eu não quero ouvir a música que ELE escolheu. Ou ela, pode ser também. Fora que eu leio no ônibus, geralmente textos acadêmicos, e a música tira totalmente minha concentração. E normalmente a gente ouve só a batida, aquela coisa que nem dá pra identificar direito. A não ser quando o cara é meio surdo e daí dá pra identificar toda a letra da música também, como aconteceu essa semana.
Aliás, uma coisa que essa geração vai ficar é surda. Quero só ver daqui a uns 50 anos. O pessoal que hoje ouve esse negócio nesse volume vai fazer a felicidade – e a fortuna – dos otorrinolaringologistas. Já li em algum lugar que o limite máximo aconselhável para não prejudicar a audição é aquele em que o colega do lado não ouve contigo. Como isso só acontece com a minoria da minoria, teremos que nos acostumar a falar mais alto para sermos compreendidos daqui a alguns anos.
Sobre a apurrinhação de ouvir a música que a outra pessoa escolheu, seria bacana que ela lembrasse aquela velha história de que a liberdade de um termina quando começa a do outro. Ou seja, que baixasse o volume e me deixasse ler em paz.
* Ah, e só pra constar: nenhum parâmetro de comparação entre os efeitos da bomba atômica e a incomodação aos meus ouvidos.
É impressionante como o tempo afeta meu humor. A grande maioria dos meus períodos mais depressivos foram em dias escuros. E no inverno.
Em compensação, a primavera e o Sol abrem, junto com as flores, os meus dias.
“Dilma do presídio ao Planalto”, diz a capa da Piauí que está circulando pela minha casa e que ainda não abri, apesar de o mês já estar acabando. Eu olhava uma outra revista qualquer na Saraiva essa semana quando ouvi uma mulher perguntando pra outra: “a Dilma já foi presa?”. Ela parecia meio assustada com a revelação que tivera. A outra respondeu: “ah, acho que foi naquelas coisas da ditadura”. Acabei me metendo e esclarecendo as duas de uma informação que me parecia de conhecimento geral, daquelas coisas que todo mundo sabe, ninguém questiona. Se elas, que estavam dentro de uma livraria, não sabiam, imagina a grande maioria da população. Chega a dar uma tristeza…
Quinta-feira eu saí de casa, fui até a esquina e decidi que não dava pra continuar caminhando na rua. O ar gelado enchia os olhos de lágrimas e congelava o nariz. Eu sou exagerada, passo um frio anormal mesmo. Mas estava realmente frio. E isso era meio-dia e meia. Cheguei a um termômetro desses de rua - ele estava no sol – e vi que marcava 8ºC. Isso era meio-dia e meia, repito, em Porto Alegre. De noite, dormi com três edredons e acordei várias vezes com os pés gelados – eu disse que era exagerada, mas nada disso é mentira.
Nesse mesmo dia, eu e os guris do Jornalismo B tínhamos marcado um debate sobre Mídia Alternativa. Claro que foi pouca gente, era frio demais, e era de noite. Mas o ponto onde quero chegar é a conversa que tive pouco antes de o debate começar. Um dos nossos convidados era a coordenadora do jornal Boca de Rua, Rosina Duarte. Pra quem não conhece, o Boca é um jornal feito por moradores de rua de Porto Alegre. É um projeto da Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). Rosina e mais uma equipe pequena de jornalistas - confesso que não sei exatamente quantos, conheço apenas a Natália Ledur Alles – orientam diversos moradores de rua. Eles discutem pauta, decidem juntos o que vão fazer, vão às ruas, buscam as informações, montam a matéria e escrevem. Sempre com o acompanhamento da equipe de jornalistas. Depois, se dividem e vendem. Cada um coloca seu nome na capa do jornal para que o leitor saiba de quem comprou aquele exemplar. Custa 1 real. É um trabalho muito bacana, que abre espaço para quem nunca tem voz e, mais importante ainda, leva dignidade a um setor da sociedade altamente discriminado, até porque costuma ser criminalizado pela mídia corporativa tradicional.
Pois bem, o que eu queria falar mesmo é da minha conversa com a Rosina. Ela me dizia que adora o inverno, sempre gostou, mas, desde que começou o trabalho com o Boca, não consegue passar tranquila por esses dias frios, que fica sempre pensando nos guris com quem ela trabalha, que moram na rua.
Ela me contou a história de um rapaz, que chamavam de Bocão. Uma vez ficaram sabendo que o Bocão fora preso. Mas como, por quê? Sabiam que o Bocão não era de roubar, não faria nada de errado assim. Pois o Bocão tinha arrombado um carro. Estranho, ele nem dirige nem nada, o que faria com um carro? O Bocão não aguentou o frio da rua, arrombou o carro para dormir, foi encontrado todo encolhido dormindo lá dentro.
Não me importa se eles estão na rua porque não querem ir para abrigo ou porque não têm para onde ir mesmo, dá pena igual. Alguma situação levou-os a isso, e, sinceramente, isso não é vida. Como pode sobreviver a dignidade de alguém quando sua casa são alguns pertences que ficam dentro de um saco plástico e que a polícia toma assim que vê? Eu estou na minha sala, com paredes por todos os lados, estou no segundo andar de um prédio, tenho um piso de madeira, estou bem isolado do frio que vem do solo. Tem uma estufa ligada quase em cima de mim, estou com meia de lã, calça grossa, três blusas, pantufas. E minhas mãos estão geladas, como sempre no inverno. Só de pensar em pessoas dormindo na rua, com o ar gelado direto nelas, sem qualquer tipo de proteção – talvez uns jornais, alguma coisa assim -, tremo de frio. Eles não pensam nisso, eles vivem isso.
Na mesma quinta-feira, dia 23 de julho de 2009, eu voltava pra casa do debate, lá pelas 21h, e passei por mais de uma esquina em que prostitutas esperavam pelo seu próximo cliente. Uma delas estava com uma blusa fina, uma jaqueta jeans, uma meia-calça e uma míni-saia. Juro, não devia fazer mais de 5ºC. E estou chutando alto.
Por isso e por tantas outras coisas que fico indignada quando chamam essas mulheres de “de vida fácil”, ou quando dizem que os moradores de rua merecem o que passam porque eles não aceitam irem para abrigos, eles estão na rua porque querem.

As pessoas que falam isso têm medo de chegar perto de moradores de rua. O máximo que elas conversam com pobre é sobre qual almoço a cozinheira deve fazer, sobre como a faxineira deve limpar a casa. E esses pobres com quem eles convivem normalmente não são os mais mais pobres. Nunca nenhum desses que pensam que pobre é pobre porque quer conversou com um morador de rua. Nunca foi atrás de saber por que ele está na rua. Constrói seu discurso em cima de preconceito, de como a Zero Hora diz que é – jornal, aliás, que também não conversa com os moradores de rua - e do que é mais fácil. Afinal, não é minha culpa se eles não têm onde dormir e eu tenho. Mais fácil, né?
Mas cada um desses mendigos, dessas prostitutas, tem uma história, tem uma vida. Provavelmente sua família é desestruturada. Às vezes a ponto de ele ficar meio intratável mesmo. Claro, com raiva do mundo. Tudo na sua vida deu errado. Ele mora na rua. Por quê?
E isso é Porto Alegre, que não é a cidade mais fria do mundo, nem sequer a cidade mais fria do Brasil. E nem a única a ter problemas assim. Não sei direito o que fazer para ajudar a resolver o problema. Talvez seja um bom começo deixar de olhar para o cara que vem pedir dinheiro no carro como um criminoso. Pensar se ele tem mãe, pai, se tem mulher, filhos, tentar imaginar qual sua história de vida. Se dar conta que ele é uma pessoa, que ele sente, que ele sofre. E que ele tem raiva desse mundo de merda em que ele vive.
O mundo dá voltas, né? Agora está todo mundo falando no Paulo Feijó e no Rubens Bordini. Um tempo atrás, comecei a trabalhar na assessoria de imprensa do Banrisul e, confesso, nunca tinha ouvido falar do tal Bordini. Quando leio as matérias da Zero Hora falando de todo esse fuzuê do vice-presidente do Banrisul e do vice-governador, fico pensando sempre na trabalheira que seria se eu ainda estivesse trabalhando no banco. O corre-corre, as ligações de jornalistas, minha chefe enlouquecida.
Não preciso de muito mais que dois neurônios pra saber que o tesoureiro da campanha da Yeda santo não é. Mas é engraçado que dentro do Banrisul, por mais que se soubesse disso, ninguém nunca ousava falar, nem aos cochichos com o colega mais próximo. Durante as conversas, mesmo as particulares, todos os diretores do banco eram tratados como super sérios, equilibrados, responsáveis, alguém a se defender com unhas e dentes. Certo, o papel da assessoria de imprensa é essa, e minha chefe não teria sido contratada se não levasse essa responsabilidade a sério. Mas o resto dos profissionais era de estagiários e funcionários públicos. Os estagiários passam por ali, ficam um tempo e não criam esses laços com o lugar. Alguns mais, outros menos, mas é possível manter um distanciamento e um espírito crítico. Mas os funcionários públicos… Não consigo entendê-los direito. Estão lá há anos, décadas. Passaram por diversos governos. PMDB, PT, PMDB de novo, PSDB. Já viram de tudo. Será que foram sempre assim? Fico me perguntando se em todos os governos eles eram a favor, os melhores amigos do presidente atual do banco. Um concurso público anula o espírito crítico das pessoas?
Além disso, tem todo o papel da assessoria de imprensa de um modo geral. Que me desculpem os assessores, mas isso não é Jornalismo. Isso não é sequer Relações Públicas. A menos que essa profissão – não falo dos profissionais, que aí temos muitos, nas mais diversas áreas, mas da profissão mesmo, de seus objetivos – se configure por uma prostituição. Porque para camuflar todo o seu pensamento, sua ideologia, sua forma de ver o mundo, em prol de informações forjadas, releases construídos, notícias manipuladas, o profissional tem que ter um desapego muito grande de si mesmo. Tem que se detestar, entregar o que tem de mais íntimo. É ou não uma prostituição? E o pior é que muitos se entregam dessa forma sem nem terem consciência do que estão fazendo. É tão… triste.
Olha, eu tinha me preparado pra falar de política. O assunto mais importante do momento por aqui é a crise política do governo Yeda. Aliás, estão aparecendo os podres dos podres, ou seja, os motivos pelos quais a crise está aparecendo. A matéria da Folha de hoje me deu o estalo, eu ainda não tinha me dado conta. O objetivo é tirar a Yeda da jogada pro Fogaça ter o caminho livre pro governo do Estado. Ela está atrapalhando até o PSDB. Não que ela esteja limpa na história, óbvio que não, o troço é podre, e é todo o governo, toda a base, incluindo PSDB, PMDB etc. Mas isso não aparece, só ela é culpada, justamente pra não queimar o resto.
Mas não vim falar disso. Como eu comentei antes, até ia falar em política. Mas hoje aconteceu uma coisa muito mais importante, que inverte o sentido de rotação da Terra. Encontrei meu terceiro cabelo branco! Tenho 22 anos e já tive três cabelos brancos. O primeiro foi em dezembro, o segundo em fevereiro e agora o terceiro pra confirmar que é uma tendência, não adianta. Só me resta aprender a conviver com a idade que vai chegando…
Agora me diz, tinha notícia mais importante que essa?
“Por que todo mundo que gosta de literatura odeia auto-ajuda?”, me perguntou um rapaz que lia na Saraiva alguma coisa como Como fazer amigos e influenciar pessoas. Eu ainda acho que ele estava botando em prática o que o livro mandava, porque antes disso ele me perguntou as horas, me pediu uma caneta emprestada e me perguntou o que eu estava lendo, se eu gostava de literatura e se gostava de auto-ajuda (aliás, ainda tem hífen porque o prefixo termina com vogal e a palavra seguinte começa com a mesma vogal). Tudo bem que ele só tinha lido o índice (durante uns 10 minutos), mas deve ter aprendido alguma coisa. E demorou um tempão pra entender que eu estava lendo um livro sobre Rubem Braga e não do Rubem Braga. E que o Rubem Braga era cronista, mas acho que ele não sabia direito o que era uma crônica. Ah, e ele falava tudo bem direitinho, me chamando de você e tentando pronunciar todos os erres e eles. E usava uma camisa social. E me elogiou muito porque eu estava sofrendo agora estudando pra aproveitar depois. Não adiantou eu tentar explicar que agora é que era a parte boa e que depois é que eu ia sofrer. Ele não se convenceu muito mesmo eu dizendo que fazia jornalismo.
É notícia hoje, todos os jornais falam. Uma menina de onze anos está grávida de sete meses, internada no hospital, a gravidez é de risco. Foi estuprada pelo padastro. Os jornais também lembram outro fato recente e parecido. Dessa vez a menina tinha nove. Crianças. Nesse caso, optou-se por não levar a gravidez adiante, ela era muito nova, não se sabia como seu corpo reagiria, que sequelas aquele absurdo poderia deixar. Nenhum jornal fala em como a criança lida com isso, em como ela sofre com isso, embora esteja implícito. A interrupção da gravidez foi recomendada pelo médico, por motivos clínicos, não psicológicos ou sociais. Pelo menos o médico foi sensato.
No Jornal Hoje, um padre velho, com cara de velho, não só de idade, mas de espírito, aparência feia de pessoa de alma feia, foi justificar a excomunhão do médico e da mãe da menina. Onde já se viu interromper uma gravidez? E a vida? “Os fins não justificam os meios”, ele disse. A menina tinha nove anos. Ela provavelmente não vai se recuperar do que lhe aconteceu nunca. Ela foi estuprada, dá pra imaginar? Ela, que brincava, e que brincaria ainda por muito tempo. Sabe-se lá o que ela pensa agora, como ela vai pensar no futuro. E era essa menina que o padre queria que carregasse outra criança. Isso tudo me é tão absurdo que não consigo nem articular um pensamento que explique esse absurdo. Para mim, está explícito, qualquer um vê. O que a Igreja (Católica, ressalte-se) fez, o que ela faz, o que ela sempre fez e parece que vai continuar fazendo por muito tempo ainda é crueldade. Crueldade.
Esse caso escancara a crueldade. Mas ela é cruel quando não permite o prazer às pessoas, quando defende a elite e pune quem ousa falar pelos pobres. Ela é cruel quando persegue outras religiões, quando mata em nome de deus. Que deus? Quando pune quem pensa diferente, quando joga na fogueira, quando faz velhinhas pensarem que deus é amor. O deus dessa Igreja é ódio. Será tão difícil de ver que tudo o que a Igreja traz para o mundo é maldade? E não é nenhuma obra de caridade feita em alguma paróquia por aí, ou algum pensamento ecumênico mais recente que vai me fazer mudar de ideia. É fachada. A Igreja é cruel em seu cerne. É má, ponto.


