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Getúlio Vargas, Porto Alegre, avenida estreita. O táxi vai ultrapassando todos os carros, ora pela direita, ora pela esquerda, como convier (deve ter tomado umas aulas com o PMDB). Um Siena prata anda pela esquerda. O taxista nem pensa, vai pegando a direita, o mais rápido possível, mas o Siena também vai pra direita. Tentando ser simpática, a passageira – no caso, eu – comenta, em tom de brincadeira:
- Acho que o negócio dele é não te deixar passar.
No que ouve a resposta:
- Ah, mas não tem pra ele. Se ele não me deixa passar, eu chego do lado, encosto nele, que ele pula pro cordão da calçada.
Medo.
——
E uma raivinha contida: é esse fdp que eu quero matar (no sentido figurado, viu, que fique bem claro) quando eu estou dirigindo.
Reunião num canto da Câmara de Vereadores de Palomas. João da Garupa cochicha com seus coleguinhas:
- Agora vai. Palomas precisa de espigões. Vamos autorizar a construção de um conjunto residencial de luxo na Ponta do Denílson. Coisa de país desenvolvido. Mas primeiro temos de expulsar o pobrerio dali das proximidades.
- Bueno, com qual argumento? – inquieta-se Tinão.
- Ora, com a lei: a beira do rio não é para moradia.
- Entendi, muito boa essa, depois a gente muda a lei.
- Calma, Tinão. Só depois que a área for vendida.
- Genial, João – entusiasma-se Carvãozinho. – Assim quem comprar poderá pagar mais barato e depois ganhar muito. O progresso exige investimentos arriscados e visionários.
- Hummm… Aquela área não foi doada pelo poder público? Tendo perdido a função, não deveria voltar a ser pública?
- Bobagem, Aniceto, um dos nossos interventores, gente boa da redentora, eliminou essa exigência, alegando questão de segurança nacional. Não tem pra ninguém.
- E se tiver muita pressão da opinião pública, João?
- A gente recua e pede ao prefeito para vetar.
- Nossa, tu pensas em tudo, João.
- Mas se o prefeito veta, não acaba tudo?
- A gente sugere que ele recomende um referendo.
- E se ele topa?
- A gente derruba o veto.
- E se, de novo, a opinião pública pressionar?
- A gente confirma o veto, aprova antes outros projetos de clubes de futebol, mistura tudo, confunde um pouco e transforma o referendo em consulta popular.
- Qual a diferença, João? Já não me lembro.
- O voto na consulta popular não é obrigatório.
- Mas que argumento usar para cancelar o referendo?
- O preço. Vamos dizer que sai muito caro.
- Nossa, João, tu pensas em tudo mesmo.
- Eu me inspiro em Carlos Lacerda. Uma vez, quando Getúlio se candidatou à Presidência, em 1950, Lacerda saiu-se com esta: ‘Vargas não deve ser candidato. Se for candidato, não deve ser eleito. Se for eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar. Se governar, deve ser pressionado até ser deposto.
- É… Mas ele foi eleito, tomou posse e governou…
- Deu no que deu, não é, Aniceto?
- Que cultura! Que preparação!
- É que eu me preocupo com o futuro de Palomas.
- E o resto da orla, vai continuar igual?
- Não sejas bobo, Aniceto. Onde passa um boi, passa uma boiada. Depois de passar uma cabecinha, vai o resto.
- Hummm… Os ecologistas vão berrar até o fim.
- Deixa que berrem, Carvãozinho, teremos a mídia a nosso favor. A Rede Baita Sol vai fechar com a gente, não é?
- Essa é quente mesmo. Sempre do lado do progresso.
- E se mesmo assim o berreiro for grande demais?
- Ora, Aniceto, nossos visionários vão pressionar o restante da mídia. Todo empresário já foi patrocinador ou será patrocinador um dia. É gente com poder de fogo.
- É, não tem erro, João, é tiro certo.
- Certeiro, Aniceto. Rumo ao futuro grandioso.
- Mas pode demorar. Sabe como é, tudo é lento.
- A gente aprova regime de urgência.
- Agora vai! Precisa mesmo essa consulta popular?
- Vamos ver…
Por Juremir Machado da Silva, no Correio do Povo de hoje
“Por que todo mundo que gosta de literatura odeia auto-ajuda?”, me perguntou um rapaz que lia na Saraiva alguma coisa como Como fazer amigos e influenciar pessoas. Eu ainda acho que ele estava botando em prática o que o livro mandava, porque antes disso ele me perguntou as horas, me pediu uma caneta emprestada e me perguntou o que eu estava lendo, se eu gostava de literatura e se gostava de auto-ajuda (aliás, ainda tem hífen porque o prefixo termina com vogal e a palavra seguinte começa com a mesma vogal). Tudo bem que ele só tinha lido o índice (durante uns 10 minutos), mas deve ter aprendido alguma coisa. E demorou um tempão pra entender que eu estava lendo um livro sobre Rubem Braga e não do Rubem Braga. E que o Rubem Braga era cronista, mas acho que ele não sabia direito o que era uma crônica. Ah, e ele falava tudo bem direitinho, me chamando de você e tentando pronunciar todos os erres e eles. E usava uma camisa social. E me elogiou muito porque eu estava sofrendo agora estudando pra aproveitar depois. Não adiantou eu tentar explicar que agora é que era a parte boa e que depois é que eu ia sofrer. Ele não se convenceu muito mesmo eu dizendo que fazia jornalismo.
Essa semana estávamos eu e três amigos tomando nossos cafés tranqüilamente na frente da Fabico, naqueles banquinhos de pedra perto da árvore, quando chega um tiozão todo malhado, de camisa meio justa, começa a distribuir santinho. Era dele mesmo, candidato a vereador pelo PPS. Não adiantou meus colegas explicarem que não votam em Porto Alegre, ele acha que a política dele é “to the world”. A conversa foi mais ou menos assim:
- Meu nome é Magadan, eu sou triatleta, sou candidato a vereador…
- Eu não voto aqui.
- Não, mas pode pegar, vocês podem conhecer o meu projeto mesmo não votando aqui, meu projeto é to the world. Eu quero fazer mais pela saúde, proibir as redes de pesca em Tramandaí, porque eu sou triatleta, e resolvi me candidatar porque eu tenho projetos pra saúde e pra proibir as redes de pesca e se vocês quiserem me ajudar no meu projeto, taí o número [por que diabos ele não se candidata em Tramandaí a gente não conseguiu descobrir].
- Por que tu escolheu o PPS?
- Ah, eu não acredito nesse negócio de partido, é tudo a mesma coisa, não tem mais isso de ideologia, todos querem a mesma coisa, eu sou triatleta, hoje vou nadar dez mil metros. E não tem nada a ver com o pessoal que tá aí, porque o Fogaça saiu do PPS, foi pro PMDB, foi uma traição.
- Sim, mas o problema não é quem saiu do PPS, mas quem continuou nele, como o Britto, o Berfran.
- Olha, se tu não quer votar em mim tu não vota. Eu não quero discutir política contigo. Eu não vou ficar aqui insistindo pra tu votar em mim. Eu vou nadar dez mil metros hoje, porque eu sou triatleta. Tu pode votar em quem tu quiser, eu só acho que a saúde está muito ruim e eu sou triatleta.
- Tu é candidato a vereador e não quer discutir política comigo?
- Tu não precisa votar em mim, pode votar em quem tu quiser, eu sou triatleta, meu pai foi vereador, construiu a Restinga.
- Como é o nome do teu pai?
- Antonio Magadan.
- Ah.
Ele vai se retirando. Depois de andar alguns passos, ele volta e aparece ali do lado do nada.
- Olha, se tu não quer votar em mim não vota. Eu sou triatleta e quero fazer mais pela saúde, que a coisa tá muito ruim. E isso de política não me interessa, porque é tudo igual, eu não escolhi o partido por ideologia, que isso não existe mais, eu não quero discutir política. Obrigado.
Ok, então.
- Será que a autora do Harry Potter tinha noção de que ela podia escrever qualquer merda no último que todo mundo ia ler?
- Huahuahuahauhauha.
- Será que ela já escreveu mais algum livro?
- Acho que não.
- Ela não precisa, né…
- Pois é. Ela já escreveu Harry Potter, já construiu Brasília…
- Construiu Brasília? Essa eu não entendi.
- JK.
- Ah é.
- E já foi assassinada. Que currículo, hein. E o mais incrível é que ela foi assassinada antes de construir Brasília e de escrever o Harry Potter. É, né?
- Antes de escrever o Harry Potter com certeza.
- Sim, com certeza, mas e de construir Brasília?
- Ah, não sei.
- Foi ali pela mesma época. Será que ela foi assassinada porque construiu Brasília?
- Mas quem ia querer assassinar a pessoa que construiu Brasília?
- Os defensores do Fusca!
Sigo no ônibus em direção ao único banco vago, na janela. Olhei para a mulher sentada ao lado, no corredor, putz, conheço. Mas de onde?
- Oi, tudo bem? Com licença.
- Oi, tudo bom. Cristina, né?
Como é que uma mulher já com seus quarenta e tantos anos lembra meu nome e eu não sei nem de onde conheço ela? Do Sévigné? Mãe de algum colega do colégio?
- E então, o que tu tá fazendo?
- Jornalismo.
E assim vai. Ela pergunta e eu respondo. Eu nem posso perguntar “como andam as coisas lá?” porque eu não sei se o que nos liga é um lá ou um quem.
- Como vai a tua mãe?
- Bem.
- Como é mesmo o nome dela?
Tá, é agora, eu digo “Arlete, e o teu?”.
- Arlete.
- Manda um abraço pra ela.
Acho que não vou dar o recado.


