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marcador feira do livroA parte midiática da Feira do Livro está de doer. Tanto a publicitária quanto a jornalística, oficial ou semi-oficial.

A parte publicitária e oficial é meio macabra, com aquela mão saindo de dentro dos livros. Os marcadores de páginas são feios e mais afastam da leitura do que aproximam. Emoção? Bah, será que a prefeitura realmente acha que passa a ideia de que o livro transmite emoção porque tem uma mão a la filme de terror saindo dele? Não só não passa a ideia pretendida como é feia a campanha publicitária.

Já a parte semi-oficial (de tanto que elogia a prefeitura do Fogaça, já é quase quase parte dela) e jornalística também decepciona. O Caderno da Feira que a Zero Hora produziu é bem fraquinho. É em ocasiões como essa que se pode aprofundar um pouco mais o conteúdo, explorar o aspecto cultural da coisa, ir além do óbvio, ser criativo. Mas a criatividade do jornal é bem duvidosa. Admito, eles até se esforçam. Estão vinculando bastante ao twitter, integrando mídias e tal. Mas a cobertura está superficial demais. Fica naquela de “qual teu livro preferido?” que não dá mais. Aliás, que nunca deu.

feira do livroA Feira do Livro é um engodo. Quer dizer, não exatamente, mas em parte.

Não critico só por criticar, porque eu adoro a Feira. Adoro as mudanças que ela promove em Porto Alegre e nas pessoas de Porto Alegre. Adoro andar pelo Centro em tempos de Feira, circular pelos corredores. E as atividades culturais que ela promove são realmente louváveis. Não sei se há outro evento semelhante em termos de movimentação cultural na nossa capital. A programação – ainda não vi a desse ano – tem sido bastante extensa, com coisas ruinzinhas, outras passáveis e algumas realmente boas.

O problema da Feira são os livros. Tá, ela não existiria sem eles e, mesmo que fossem promovidas as atividades todas, não seria nem de longe a mesma coisa. Mas 20% de desconto é de fato um engodo. Compro com descontos maiores ao longo do ano inteiro em lojas virtuais, que frequentemente me oferecem fretes grátis, ou até em algumas lojas bem reais, que têm dias do mês destinados a um desconto desse porte.

Não bastassem os livros no Brasil já serem absurdamente caros… Basta comparar com nossa vizinha Argentina. Deveria, sim, haver um incentivo maior. Como querer que as pessoas leiam mais se a maioria de nossas bibliotecas são pobres – e as pessoas nem sabem que podem retirar livros de graça nelas – e se os nossos livros são muito muito caros?

Ah, a Feira vale pelos saldos também. Tem que ser nos primeiros dias, mas se acha coisas muito boas garimpando bem.

José Saramago está lançando novo livro (manhê, eu quero!), Caim, e foi capa do segundo caderno de hoje. Não dá vontadezinha de ler só porque é um Saramago, o que já seria bastante. O negócio é que o livro parece sensacional. A ideia é ótima, e adoro a falta de papas da língua do autor de um dos melhores livros que eu já li (o saco de fazerem filmes de livros bons é que parece que a gente gosta do livro porque ele virou modinha – é de antes, viu).

Tem uma matéria e uma pequena entrevista. As perguntas, da Agência Estado, não são grande coisa. Mas o Saramago é tão sensacional que as respostas são ótimas. Adoro quando ele fala mal de Deus e da Bíblia, concordo com tudo. Se Deus existe e é como as religiões pintam, ele é injusto e perverso. A Bíblia é o livro das maldades e dos preconceitos. Só que são poucos os que têm coragem de dizer isso. Ainda mais com tanto a perder, como o Saramago, que tem uma relação de dependência com a opinião pública. Afinal, se não gostarem dele, ele não vende e seu trabalho não faz sentido.

Saramago pouco se importa com o que a Igreja católica ou outras religiões vão dizer. As críticas que fazem a ele, aliás, são por falta de respeito. Balela, ele está só dando uma opinião. Ele acha que Deus não existe e ponto. Quero ver provarem que ele está mentindo…

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Ah, e vale muito a leitura do blog O Caderno de Saramago. Me sinto próxima do Saramago, posso ler um blog dele da mesma forma que leio o de um colega de faculdade. Não tem uma periodicidade certa, mas os posts em geral são curtos. É o caso de entrar de vez em quando e ler todos os que não tiverem sido lidos ainda. Uma vez por semana dá conta. É por esse tipo de coisa que a internet vale mais a pena.

Não sei se o Obama vai ler o presente que ganhou de Chávez (deveria), mas um mérito o presidente venezuelano já tem: As veias abertas da América Latina está entre os mais vendidos na Amazon.com. Será que os americanos passaram a se interessar um pouquinho pelo resto do mundo?

* Informação obtida no blog O Caderno de Saramago.

“Dizem que a burguesia é uma classe já condenada pela História, e que breve sumirá no sorvedouro social, visto que a posse por um grupo limitado de pessoas (ainda que sejam pessoas de bem) da terra e das máquinas e meios de produção em geral conduz forçosamente a Más Conseqüências. Dizem que isso é verdadeiro a um tal ponto que os países mais prósperos do mundo burguês só gozam por exemplo dessa felicidade primária e aliás bastante medíocre que é estar todo o povo a trabalhar granjeando com honradez o seu pão quando esse trabalho se destina à Morte, e não à Vida. Assim dizem. Em nações soberbas, como a Alemanha, a França, a Inglaterra e os Estados Unidos, há em tempos normais milhões de desempregados, homens que não têm o que fazer, se me perdoam a expressão, bestando por ali como se o trabalho dos outros bastasse para a fartura geral, o que não se dá. Só em tempo de guerra ou de preparação para a guerra todos acham o que fazer. Em outros países as eras de Prosperidade redundam em fatos reprováveis, como é a destruição em grande escala de mercadorias. Quando queimamos ou jogamos ao mar sacas de café produzidos com desagradável esforço, não o fazemos porque o Mundo esteja abarrotado de café, a tal ponto que todas as famílias decentes tenham na despensa mais quilos de café do que o estimável em vista do problema do espaço no lar.

Não, não é assim. O café, que é pouco para as pessoas que querem tomar café, é demasiado para as pessoas que querem vender café. O que acontece é uma coisa profundamente trágica e estranha, eis que o café não é produzido para ser bebido, e sim para dar lucros. O mesmo sucede com outros produtos, de maneira que já temos visto a maior parte dos povos do mundo (inclusive povos do Oriente que, bem ou mal, também pertencem à Humanidade, embora sejam de alma atravessada ou enviesada, segundo julgam muitos cristãos do Ocidente), a maior parte dos povos do mundo íamos dizendo, passar necessidades de roupa e de boca quando os jornais mais sérios e as estações de rádio cujos conselhos são ouvidos com mais atenção afirmam que há Superprodução. Proibimos a instalação de usinas de açúcar não porque a vida para a humanidade esteja demasiado doce, mas, sim, porque é preciso proteger os lucros dos donos de usinas de açúcar existentes. Fazemos isso para evitar que o açúcar fique muito barato, como se fosse um grande pecado ficar o açúcar muito barato. Além disso, se o país A produz colchetes e o país B também produz colchetes, e ambos desejam vender colchetes ao país J, isso resulta em uma disputa entre nações, sendo convidados escritores, declamadores, militares, eclesiásticos e escroques do país J a visitar ora o país A, ora o país B, na esperança de que se esforcem para colocar o país J a favor do país A em sua guerra contra o país B, ou a favor do país B em sua guerra contra o país A, visto que no Sistema do Imperialismo o único meio de saber quem tem direito de vender colchetes é transformar as fábricas de colchetes em fábricas de espoletas e travar batalhas terrestres, aéreas e navais que enriquecem as Páginas da História.”

Trecho da crônica História de São Silvestre, de Rubem Braga, escrita em janeiro de 1942. Retirada do livro 200 crônicas escolhidas.

rica-linda-e-peruaE o pior: saindo da Saraiva peguei o catálogo da loja e vi a propaganda do próximo livro que eu tenho que comprar. Não posso perder, preciso descobrir Como se tornar linda, rica e perua. É ou não é maravilhoso? Mas a melhor parte é o subtítulo: Instruções sobre como usar os homens. Como é que ninguém nunca tinha pensado em escrever um livro assim, tão fundamental? Como o mundo viveu sem essas informações até hoje? Responde aí, como tu conseguiu (que fica bem mais enfático do que “Como tu conseguiste?”)?

Tenho me controlado pra não postar aqui diariamente citações do livro que eu estava lendo. Já nos primeiros anos como jornalista, Gabriel García Márquez já tinha textos fantásticos. O livro Textos Caribenhos é o primeiro da obra jornalística do autor, e vai de 1948 a 1952. Nas suas 864 páginas tem de tudo, desde crítica de autores ou músicos da época até comentários sobre a vida, passando por personagens criados ou observados pelo autor e pelo já presente realismo fantástico, que depois atinge seu auge em Cem Anos de Solidão. Não sou exatamente uma crítica literária, muito pelo contrário, mas gosto de avaliar os livros que leio. Esse tem crônicas espetaculares, que a cada pouco eu tinha vontade de sair correndo e anotar um trecho, ou marcar a página para ler muitas e muitas vezes e admirar a capacidade de escrita de um grande autor. Mas tem também umas partes bem chatinhas, como as críticas de muitos escritores e músicos colombianos, os quais eu não conheço nem de ouvir falar, e que me deixavam um tanto perdida nos comentários. É claro que é interessante ver o lado leitor de um grande escritor e estudar a sua forma de pensar através das suas leituras e dos seus gostos, mas não é uma parte exatamente gostosa de degustar. Minhas crônicas preferidas são as mais ingênuas, e ao mesmo tempo muito profundas, em determinados casos, sobre detalhes da vida. É de uma perspicácia surpreendente, e são engolidas sem um piscar de olhos, devoradas. No final, percebe-se um sorriso no canto da boca, pela idéia simples de um texto fantástico. No fim das contas, se houvesse uma seleção mais criteriosa dos textos e fosse elaborado um volume menor apenas com os melhores, a leitura fluiria mais e o livro seria dos melhores.