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A manchete da Zero Hora de hoje diz: “Anúncio de greve tumultua fim de ano de pais e alunos”. Refere-se à greve dos professores anunciada ontem pelo Cpers-Sindicato. A matéria, às páginas 6 e 7, leva um título parecido como o principal, e tem duas retrancas grandes. Na maior, destaca a intransigência do governo, ainda que não use essa palavra e faça com que a atitude pareça normal. A menor diz que aliados criticam o Cpers e a oposição pede mais diálogo. Ou seja, nenhuma informação sobre os motivos da greve.
A única notícia importante relativa ao caso, para o jornal, é que os pais e alunos vão ter problemas. Ou seja, esse sindicato só causa confusão. Essa é a imagem que passa. O governo sai ileso. Parece que é vítima também. Os únicos culpados, no entender de Zero Hora, são os professores. Eles, sim, são maus. Alguém aí se lembra que eles são os responsáveis pela educação dos gaúchos e ganham uma miséria pra isso? O jornal não lembra.
A greve vem em resposta a um projeto que o governo mandou para votação na Assembleia em regime de urgência – e que, se não for votado for falta de quórum, estratégia que os deputados poderiam usar, trancariam toda a pauta de votação de projetos. Mas a matéria só fala no conteúdo do projeto em quadro. Nos textos, nada. Parece que esse é só um detalhe, uma curiosidade, e não a motivação principal, o cerne da questão. E ainda assim não explica direito.
Mais uma vez, a RBS condena qualquer tipo de ação que venha de baixo. Sempre que um sindicato, um movimento social ou qualquer setor que não seja da elite se mobiliza, é condenado pelos jornais, a Zero Hora fazendo a frente no RS. Não importa se essas ações estão corretas ou não. Isso nem deveria ser julgado pelos jornais em suas matérias. Mas elas são sempre condenadas. Sem exceções.
Embora a Zero Hora tenha exagerado um pouco os aspectos comuns entre o Grenal e as eleições no Uruguai, ambos acontecendo hoje, a relação entre duas coisas tão díspares existe mesmo. E vou aproveitar o momento para uma pequena provocação.
Ok, não tem nada a ver uma coisa com a outra. As posições de um jogador, de um clube, de um dirigente não têm nada a ver com o amor ao time e tal. Mas me orgulho hoje de não ter como um dos heróis do meu time uma figura como Hugo de León. Mas admito, tenho até pena dos meus amigos gremistas que sofrem desse mal.
Entre um alienado total, como a maioria dos jogadores de futebol, e o candidato a vice-presidente do filho de Juan Bordaberry, o responsável pelo golpe de Estado que fez o Uruguai entrar em uma ditadura militar em 1973, prefiro ainda os que não sabem o nome do presidente do Brasil. Seu mal para o mundo é grande, mas é bem menor do que o de um cara que, segundo a Zero Hora, “condena o passado guerrilheiro do favorito” na disputa à presidência uruguaia.
José Mujica, candidato da Frente Ampla e em primeiro lugar nas pesquisas, integrou a guerrilha dos Tupamaros, que combateu justamente a ditadura de Bordaberry, pai do candidato a presidente pelo Partido Colorado. Ditadura que matou, torturou, perseguiu, censurou, tal qual no Brasil. Os Tupamaros foram um importante movimento no contexto de resistência à repressão na América Latina. Um movimento guerrilheiro que, além da luta armada, à Robin Hood, roubava dos ricos para distribuir aos pobres.
O manifesto transcrito abaixo não é qualquer porcaria. Foi escrito por Plínio de Arruda Sampaio, Osvaldo Russo, Hamilton Pereira, Alípio Freire e Heloisa Fernandes, e reúne assinaturas do porte do crítico literário Antônio Cândido, do filósofo Leandro Konder, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, do jornalista e escritor Fernando Morais, do bispo Dom Pedro Casaldáliga, e dos escritores Frei Beto e Leonardo Boff, além de tantos outros nomes de peso, listados ao final.
Então, se tu também és contrário ao que a mídia faz com os movimentos sociais (uma prova de sua vocação elitista) e do que os partidos de direita estão tentando através da criação de uma CPI, coloca teu nome ao lado desses e assina o manifesto.
Para isso, clica AQUI.

Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais
Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.
Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.
Bloquear a reforma agrária
Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário desloca-se dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.
Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.
O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais como única alternativa para a agropecuária brasileira.
Concentração fundiária
A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.
Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no primeiro semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.
Não violência
A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.
É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.
Contra a criminalização das lutas sociais
Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.
Ana Clara Ribeiro
Ana Esther Ceceña
Boaventura de Sousa Santos
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Claudia Santiago
Claudia Korol
Ciro Correia
Chico Alencar
Chico de Oliveira
Daniel Bensaïd
Demian Bezerra de Melo
Fernando Vieira Velloso
Eduardo Galeano
Eleuterio Prado
Emir Sader
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Heloisa Fernandes
Isabel Monal
István Mészáros
Ivana Jinkings
José Paulo Netto
Lucia Maria Wanderley Neves
Luis Acosta
Marcelo Badaró Mattos
Marcelo Freixo
Maria Orlanda Pinassi
Marilda Iamamoto
Maurício Vieira Martins
Mauro Luis Iasi
Michael Lowy
Otilia Fiori Arantes
Paulo Arantes
Paulo Nakatani
Plínio de Arruda Sampaio
Reinaldo A. Carcanholo
Ricardo Antunes
Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira
Roberto Leher
Sara Granemann
Sergio Romagnolo
Virgínia Fontes
Vito Giannotti
Tenho dois comentários sobre a Zero Hora de hoje, dia 9:
1. Título da nota à página 8: “Legislação sobre tema é ambígua”
Primeiro parágrafo: “Na falta de legislação específica, especialistas divergem sobre o que governantes podem e não podem comprar com dinheiro público para a própria casa. Para alguns, quase tudo é liberado. Para outros, as aquisições são justificáveis apenas quando relacionadas a trabalho”.
Sinceramente, não me importa tanto se foi legal ou não. Gastar 13 mil reais na Tok & Stok comprando puff pros netos foi antiético, imoral, uma pouca vergonha. Se a pessoa usa dinheiro dos outros pra mobiliar a casa, o que mais ela pode fazer, caso tenha certeza da impunidade?
2. As cartas do leitor sobre a manifestação do MST nas terras da multinacional Cutrale publicadas na ZH de hoje fazem crítica a dois dos lados envolvidos na história: o MST e o governo, por, segundo o leitor em questão, apoiar o MST. O título dado pelo jornal? “Justiça agrária”, uma coisa assim… bem neutra. Foram três as cartas sobre o tema publicadas, inclusive a que ganhou o destaque do dia. Detalhe: segundo o próprio jornal, o assunto não está entre os três mais citados pelos leitores.
Enquanto isso, a Carta Capital publicou matéria, assinada por Denise Ribeiro - ok, já faz uma semana que a revista saiu, mas só li hoje -, sobre a concentração de terras no Brasil. Não tem diretamente a ver com a manifestação e
m questão, mas tudo a ver com as reivindicações do MST. A matéria é meio chata, tem números demais, o que trunca a leitura, mas os números ali são realmente importantes. Além do mais, é curtinha, vale o esforço. Destaco alguns dados:
A agricultura familiar ocupa 80,25 milhões de hectares, divididos em 4,4 milhões de propriedades. A área média de cada propriedade é de 18,37 hectares, 84,4% do número total de propriedades. Apesar de aparentar tanta representatividade – vendo esse número de 84,4% se poderia pensar que quase todas as terras do Brasil são de pequenas propriedades familiares -, a agricultura familiar é responsável por apenas 24,3% da área ocupada.
Os outros 75,7% correspondem a estabelecimentos não familiares, que representam 15,6% do número de propriedades. A área média de cada uma delas é de 309,18 hectares, uma diferença aguda na comparação com os 18,37 das propriedades pertencentes a famílias.
São muitos números, mas, resumindo, a realidade é que os grandes são poucos e concentram a maior parte da terra, enquanto os muitos pequenos respondem por menos de um quarto das áreas. Mas nesse espaço muito reduzido, são eles, os pequenos, que produzem os alimentos da cesta básica, como mandioca (87%), feijão (70%), milho (46%) e café (38%). Os grandes produtores, de um modo geral, plantam soja e criam bovinos.
Estudei sobre a concentração da terra, a questão dos latifúndios e tal, quando eu estava no colégio, cerca de dez anos atrás. Parecia uma coisa ultrapassada, tempo dos coronéis, voto de cabresto, República Velha. Pois é…

O Fórum Social Mundial de 2010 vai acontecer na Grande Porto Alegre. Quando eu fiquei sabendo, faz um tempo já, fiquei muito feliz. Era uma oportunidade de ter de volta a vida dos fóruns anteriores que aconteceram aqui. Aquilo movimentou a cidade de um jeito incrível.

