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Mãe e filha caminhavam de mãos dadas. Desviavam do tumulto de um Centro de estudantes e trabalhadores, desempregados e sem-teto, um Centro de Feira do Livro e camelôs, de sujeira e caos. Seus olhos amendoados, os cabelos lisos, o tom da pele denunciavam sua etnia. Infelizmente, suas roupas também. Eram pobres, como a grande maioria dos índios que vemos nas cidades brasileiras. Os dedos da mão da mãe não largavam os dedos da mão da filha. Protegiam e guiavam uma indiazinha de não mais de três anos. Mas os pés… Eram os pés que me doíam ao olhar. Os pés da pequena desviavam dos pés de toda a gente que não a enxergava. Toda a gente que, quando a via, não a reparava. Pés pequenos em um corpo frágil. Pés ligeiros. Pés descalços.

O dia hoje foi de lamentar a morte de duas pessoas de quem eu gostava muito. Não adianta muito agora tentar prestar qualquer tipo de homenagem que não os trará de volta, mas cabe lamentar a banalidade da vida que esses tempos pós-modernos trouxeram.

O caso do Morency e da Vilma muito provavelmente não foi de imprudência. Foi um acidente mesmo, que infelizmente matou os dois e uma pessoa que estava no carro com o qual eles colidiram na Estrada do Mar. Os outros quatro passageiros do outro veículo ainda estão hospitalizados.

A verdade é que todos os feriados temos acesso a estatísticas, números de acidentes, de feridos, de mortos. São números que sempre alarmam, que nos fazem comentar, condenar o excesso de velocidade, as ultrapassagens perigosas, a combinação entre bebida e direção. Mas são números, só. Distantes, frios. Nesse feriado, os números trouxeram com eles a realidade da morte de um casal que, apesar de idosos, eram muito, muito vivos. Eram felizes, queridos, amados, tinham milhões de amigos e um amor pela família muito grande.

Os números têm por trás pessoas. Vidas, que não são só as que se vão, mas as que ficam. Vidas dos filhos, netos, amigos que ficam e sofrem.

O Morency e a Vilma tinham o poder de espalhar uma onda de alegria ao seu redor. Tinham sempre um sorriso estampado no rosto. O Morency me cumprimentava sempre com um beijo na testa. A Vilma reclamava que eu estava muito magra ou elogiava que agora eu estava gordinha, mais corada, e me dizia que nos víamos muito pouco e que gostava muito de mim. Não sei se algum dia eu disse, mas eu gostava muito deles também.

A vida é muito rápida. Não só porque os anos passam ligeiro, mas porque hoje temos muita pressa, tudo tem que ser correndo. Correndo acordamos, nos vestimos, comemos, vemos TV. Correndo dirigimos. Correndo, a vida passa, a vida acaba. A vida se banaliza.

Que a morte do Morency e da Vilma nos dê um instante de reflexão sobre a vida. Eles que viveram com calma. Outros tempos. Tempos pré-pós-modernos. Tempos mais felizes, talvez. Talvez?

José Saramago está lançando novo livro (manhê, eu quero!), Caim, e foi capa do segundo caderno de hoje. Não dá vontadezinha de ler só porque é um Saramago, o que já seria bastante. O negócio é que o livro parece sensacional. A ideia é ótima, e adoro a falta de papas da língua do autor de um dos melhores livros que eu já li (o saco de fazerem filmes de livros bons é que parece que a gente gosta do livro porque ele virou modinha – é de antes, viu).

Tem uma matéria e uma pequena entrevista. As perguntas, da Agência Estado, não são grande coisa. Mas o Saramago é tão sensacional que as respostas são ótimas. Adoro quando ele fala mal de Deus e da Bíblia, concordo com tudo. Se Deus existe e é como as religiões pintam, ele é injusto e perverso. A Bíblia é o livro das maldades e dos preconceitos. Só que são poucos os que têm coragem de dizer isso. Ainda mais com tanto a perder, como o Saramago, que tem uma relação de dependência com a opinião pública. Afinal, se não gostarem dele, ele não vende e seu trabalho não faz sentido.

Saramago pouco se importa com o que a Igreja católica ou outras religiões vão dizer. As críticas que fazem a ele, aliás, são por falta de respeito. Balela, ele está só dando uma opinião. Ele acha que Deus não existe e ponto. Quero ver provarem que ele está mentindo…

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Ah, e vale muito a leitura do blog O Caderno de Saramago. Me sinto próxima do Saramago, posso ler um blog dele da mesma forma que leio o de um colega de faculdade. Não tem uma periodicidade certa, mas os posts em geral são curtos. É o caso de entrar de vez em quando e ler todos os que não tiverem sido lidos ainda. Uma vez por semana dá conta. É por esse tipo de coisa que a internet vale mais a pena.

Sábado ao meio-dia, supermercado Nacional da José de Alencar, em Porto Alegre. A atendente do caixa, muito simpática, conversa sobre comida. Conta da infecção intestinal que teve por conta da comida que a empresa serve de almoço para os funcionários. Que o frango tem que ser partido ao meio antes de ser provado porque geralmente está cru. Risco de salmonela.

O almoço é sempre tarde, ela não consegue se liberar cedo para ingerir a gororoba disponibilizada. Ela não come, empurra. Afinal de contas, comer é prazer, que essa comida não dá.

Ela trabalha todos os fins de semana, sem exceção. Sábado e domingo. Oito horas por dia. Geralmente não consegue sair do supermercado na hora que consta no contrato. O salário é menor do que o número de horas de trabalho. Se trabalha no domingo, tem uma folga na semana. Senão, tem que emendar.

Legislação trabalhista? Se fosse um minimercado, poderia fechar por conta da indenização a pagar aos funcionários nesses casos. Em um estabelecimento multinacional, as leis de mercado fazem com que o lucro seja maior explorando mão-de-obra, mesmo que depois ele tenha que bancar a conta dos processos que alguns funcionários devem abrir. Por que a norte-americana Wal Mart, dona da bandeira Nacional, se preocuparia com uma funcionária? São 70 mil os explorados da rede só no Brasil, em 355 lojas. Faturamento de R$ 17 bilhões em 2008. Realmente, um processo trabalhista de R$ 10 mil, R$ 20 mil, não faz nem cócegas.

As informações sobre a Wal Mart não foram recolhidas de nenhum site de denúncia. Foram tiradas da página da própria Wal Mart. Eles acham que é motivo de orgulho, não de vergonha.

O salário da funcionária eu não tive cara de perguntar. Mas com certeza está abaixo do nível de dignidade que essa exploração toda exigiria – se é que algum valor cobriria essa exploração.

Aumenta-se a tecnologia e, em vez de aumentar o tempo de lazer das pessoas e melhorar as condições de vida – afinal, diminui o trabalho, dá pra explorar menos -, aumenta o desemprego, porque a exploração continua. Faz sentido?

marca_boca_de_rua1Quinta-feira eu saí de casa, fui até a esquina e decidi que não dava pra continuar caminhando na rua. O ar gelado enchia os olhos de lágrimas e congelava o nariz. Eu sou exagerada, passo um frio anormal mesmo. Mas estava realmente frio. E isso era meio-dia e meia. Cheguei a um termômetro desses de rua - ele estava no sol – e vi que marcava 8ºC. Isso era meio-dia e meia, repito, em Porto Alegre. De noite, dormi com três edredons e acordei várias vezes com os pés gelados – eu disse que era exagerada, mas nada disso é mentira.

Nesse mesmo dia, eu e os guris do Jornalismo B tínhamos marcado um debate sobre Mídia Alternativa. Claro que foi pouca gente, era frio demais, e era de noite. Mas o ponto onde quero chegar é a conversa que tive pouco antes de o debate começar. Um dos nossos convidados era a coordenadora do jornal Boca de Rua, Rosina Duarte. Pra quem não conhece, o Boca é um jornal feito por moradores de rua de Porto Alegre. É um projeto da Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). Rosina e mais uma equipe pequena de jornalistas - confesso que não sei exatamente quantos, conheço apenas a Natália Ledur Alles – orientam diversos moradores de rua. Eles discutem pauta, decidem juntos o que vão fazer, vão às ruas, buscam as informações, montam a matéria e escrevem. Sempre com o acompanhamento da equipe de jornalistas. Depois, se dividem e vendem. Cada um coloca seu nome na capa do jornal para que o leitor saiba de quem comprou aquele exemplar. Custa 1 real. É um trabalho muito bacana, que abre espaço para quem nunca tem voz e, mais importante ainda, leva dignidade a um setor da sociedade altamente discriminado, até porque costuma ser criminalizado pela mídia corporativa tradicional.

bocaderuaPois bem, o que eu queria falar mesmo é da minha conversa com a Rosina. Ela me dizia que adora o inverno, sempre gostou, mas, desde que começou o trabalho com o Boca, não consegue passar tranquila por esses dias frios, que fica sempre pensando nos guris com quem ela trabalha, que moram na rua.

Ela me contou a história de um rapaz, que chamavam de Bocão. Uma vez ficaram sabendo que o Bocão fora preso. Mas como, por quê? Sabiam que o Bocão não era de roubar, não faria nada de errado assim. Pois o Bocão tinha arrombado um carro. Estranho, ele nem dirige nem nada, o que faria com um carro? O Bocão não aguentou o frio da rua, arrombou o carro para dormir, foi encontrado todo encolhido dormindo lá dentro.

Não me importa se eles estão na rua porque não querem ir para abrigo ou porque não têm para onde ir mesmo, dá pena igual. Alguma situação levou-os a isso, e, sinceramente, isso não é vida. Como pode sobreviver a dignidade de alguém quando sua casa são alguns pertences que ficam dentro de um saco plástico e que a polícia toma assim que vê? Eu estou na minha sala, com paredes por todos os lados, estou no segundo andar de um prédio, tenho um piso de madeira, estou bem isolado do frio que vem do solo. Tem uma estufa ligada quase em cima de mim, estou com meia de lã, calça grossa, três blusas, pantufas. E minhas mãos estão geladas, como sempre no inverno. Só de pensar em pessoas dormindo na rua, com o ar gelado direto nelas, sem qualquer tipo de proteção – talvez uns jornais, alguma coisa assim -, tremo de frio. Eles não pensam nisso, eles vivem isso.

Na mesma quinta-feira, dia 23 de julho de 2009, eu voltava pra casa do debate, lá pelas 21h, e passei por mais de uma esquina em que prostitutas esperavam pelo seu próximo cliente. Uma delas estava com uma blusa fina, uma jaqueta jeans, uma meia-calça e uma míni-saia. Juro, não devia fazer mais de 5ºC. E estou chutando alto.

Por isso e por tantas outras coisas que fico indignada quando chamam essas mulheres de “de vida fácil”, ou quando dizem que os moradores de rua merecem o que passam porque eles não aceitam irem para abrigos, eles estão na rua porque querem.

morador de rua

As pessoas que falam isso têm medo de chegar perto de moradores de rua. O máximo que elas conversam com pobre é sobre qual almoço a cozinheira deve fazer, sobre como a faxineira deve limpar a casa. E esses pobres com quem eles convivem normalmente não são os mais mais pobres. Nunca nenhum desses que pensam que pobre é pobre porque quer conversou com um morador de rua. Nunca foi atrás de saber por que ele está na rua. Constrói seu discurso em cima de preconceito, de como a Zero Hora diz que é – jornal, aliás, que também não conversa com os moradores de rua - e do que é mais fácil. Afinal, não é minha culpa se eles não têm onde dormir e eu tenho. Mais fácil, né?

Mas cada um desses mendigos, dessas prostitutas, tem uma história, tem uma vida. Provavelmente sua família é desestruturada. Às vezes a ponto de ele ficar meio intratável mesmo. Claro, com raiva do mundo. Tudo na sua vida deu errado. Ele mora na rua. Por quê?

E isso é Porto Alegre, que não é a cidade mais fria do mundo, nem sequer a cidade mais fria do Brasil. E nem a única a ter problemas assim. Não sei direito o que fazer para ajudar a resolver o problema. Talvez seja um bom começo deixar de olhar para o cara que vem pedir dinheiro no carro como um criminoso. Pensar se ele tem mãe, pai, se tem mulher, filhos, tentar imaginar qual sua história de vida. Se dar conta que ele é uma pessoa, que ele sente, que ele sofre. E que ele tem raiva desse mundo de merda em que ele vive.

bandeira IsraelAcabo de voltar de viagem e achei que era uma boa hora de dar as caras por aqui. Pra quem não sabe, passei dez dias no Rio de Janeiro e emendei com outros dez dias em Israel. Ganhei a viagem para a Terra Santa porque judeus ricos decidiram que todo jovem judeu entre 18 e 26 anos tem direito de conhecê-la. É uma forma de incentivar o judaísmo, para que não morra. Comprovei que meus avós eram judeus e me fui.

Mais adiante eu falo sobre o Rio, que também merece várias linhas, mas agora Israel está mais recente e mais forte na minha cabeça. A viagem começa no aeroporto. Vou direto para o de Guarulhos, que sobre Porto Alegre não tem muito o que dizer (fora que, apesar de pequeno, nosso aeroporto é o melhor que eu conheço). Fiquei horas passeando pelos corredores sem-graça do aeroporto de Guarulhos. Encontrei umas pessoas que foram de POA para o Taglit (o nome do programa), assim como eu, e ficamos arranjando o que fazer até chegar a hora de fazer o check in.

A El Al, companhia israelense, tem apenas três voos por semana para o Brasil, então não tem guichê fixo, ele foi montado na hora. Formou-se uma fila imensa, em que conhecemos o resto do pessoal (tinha gente de São Paulo, Rio, Floripa, Curitiba). O check in não acontece antes de uma entrevista com o pessoal da El Al. Apesar de eu estar no Brasil, fui entrevistada em inglês. Não adiantava eu dizer que não entendia alguma palavra ou frase, a mulher não falava mais devagar. E me encarava com olhos inquisidores, procurando me fazer cair em contradição. Isso era muito claro pra mim. Ela queria saber se eu era judia, o que eu fazia para preservar meu judaísmo, que datas eu comemorava, de que forma. Tive que enrolar. A sorte foi que eu não entendia tudo, o que abreviou um pouco a entrevista, mas foi um momento bastante tenso. A minha entrevista foi leve, comparando com a de alguns colegas de Taglit. Um guri com cara de árabe teve mais dificuldade e uma menina de Porto Alegre, convertida ao judaísmo para casar, há cerca de um ano, foi a que mais sofreu. Ela é pequena, quietinha, tem uma cara absurdamente inocente. Mas ficou séculos falando em inglês com um israelense careca com cara de mau (muitos israelenses são carecas por causa do exército). Fizeram ela recitar um negócio do judaísmo que eu nem sabia que existia. Em hebraico. A guria sabia porque os judeus são super exigentes na conversão. Ela estudou bastante e fez uma prova difícil, segundo ela. Era a mais judia de todos. Dizem que escolhem as pessoas com mais cara de inocente porque são os que aceitam mais facilmente levar encomendas que podem ser perigosas.

Depois, nossos guias brasileiros, que vou chamar de madrichim (no plural), madrich (o guia homem) e madrichá (a guia mulher), porque foi assim que me acostumei, nos explicaram que aquele era o esquema de segurança da empresa, que os israelenses são grossos mesmo e que a El Al é a companhia aérea mais segura do mundo por causa disso. Aí vem uma reflexão que me ocorreu um pouco depois. Poxa, não é à toa que ela precisa fazer tudo isso para tirar um avião do chão. Esse ódio desmedido entre judeus e muçulmanos (sobre o qual vou falar mais adiante) faz com que ambos os lados tenham medo de tudo, sempre. Um ódio que eles alimentam me faz ser humilhada para poder visitar Israel, uma terra que deveria ser patrimônio da humanidade, que tem importância fundamental para as três principais religiões monoteístas do mundo, que é história por todos os poros. Uma terra linda. Até consigo entender, mas me é impossível justificar. Fora que nos fizeram quase provar nosso judaísmo sendo que não é preciso ser judeu para visitar Israel. Como me tratariam se eu me dissesse católica, por exemplo? Ou atéia?

Nos disseram que na volta seria pior, que lá eles eram mais estúpidos e tal. Foi bem tranquilo, na verdade. Um cara simpático, falando espanhol, me perguntou se era eu que tinha feito minha mala, se eu levava alguma coisa pra alguém, se a mala tinha ficado comigo o tempo todo e tal.

Ah, e só para encerrar. A parte de os israelenses serem grossos foi comprovada já no avião. Eita comissários antepáticos. E depois em qualquer mercado, em qualquer boteco (por justiça devo dizer que me refiro à maioria, porque tem alguns muito simpáticos). E nos justificam que eles são assim por causa da situação de Israel, a convivência com a guerra, que é muito difícil pra eles lidar com isso e patati patatá, mas que por dentro eles são doces e não sei mais o quê. Bom, falta descobrir essa parte.

O mundo dá voltas, né? Agora está todo mundo falando no Paulo Feijó e no Rubens Bordini. Um tempo atrás, comecei a trabalhar na assessoria de imprensa do Banrisul e, confesso, nunca tinha ouvido falar do tal Bordini. Quando leio as matérias da Zero Hora falando de todo esse fuzuê do vice-presidente do Banrisul e do vice-governador, fico pensando sempre na trabalheira que seria se eu ainda estivesse trabalhando no banco. O corre-corre, as ligações de jornalistas, minha chefe enlouquecida.

Não preciso de muito mais que dois neurônios pra saber que o tesoureiro da campanha da Yeda santo não é. Mas é engraçado que dentro do Banrisul, por mais que se soubesse disso, ninguém nunca ousava falar, nem aos cochichos com o colega mais próximo. Durante as conversas, mesmo as particulares, todos os diretores do banco eram tratados como super sérios, equilibrados, responsáveis, alguém a se defender com unhas e dentes. Certo, o papel da assessoria de imprensa é essa, e minha chefe não teria sido contratada se não levasse essa responsabilidade a sério. Mas o resto dos profissionais era de estagiários e funcionários públicos. Os estagiários passam por ali, ficam um tempo e não criam esses laços com o lugar. Alguns mais, outros menos, mas é possível manter um distanciamento e um espírito crítico. Mas os funcionários públicos… Não consigo entendê-los direito. Estão lá há anos, décadas. Passaram por diversos governos. PMDB, PT, PMDB de novo, PSDB. Já viram de tudo. Será que foram sempre assim? Fico me perguntando se em todos os governos eles eram a favor, os melhores amigos do presidente atual do banco. Um concurso público anula o espírito crítico das pessoas?

Além disso, tem todo o papel da assessoria de imprensa de um modo geral. Que me desculpem os assessores, mas isso não é Jornalismo. Isso não é sequer Relações Públicas. A menos que essa profissão – não falo dos profissionais, que aí temos muitos, nas mais diversas áreas, mas da profissão mesmo, de seus objetivos – se configure por uma prostituição. Porque para camuflar todo o seu pensamento, sua ideologia, sua forma de ver o mundo, em prol de informações forjadas, releases construídos, notícias manipuladas, o profissional tem que ter um desapego muito grande de si mesmo. Tem que se detestar, entregar o que tem de mais íntimo. É ou não uma prostituição? E o pior é que muitos se entregam dessa forma sem nem terem consciência do que estão fazendo. É tão… triste.

O mestre está de volta à carga. Wladymir Ungaretti, embora censurado pela Justiça, recomeça a fazer postagens diárias em seu blog. Recomendo a leitura.

unga

“Por que todo mundo que gosta de literatura odeia auto-ajuda?”, me perguntou um rapaz que lia na Saraiva alguma coisa como Como fazer amigos e influenciar pessoas. Eu ainda acho que ele estava botando em prática o que o livro mandava, porque antes disso ele me perguntou as horas, me pediu uma caneta emprestada e me perguntou o que eu estava lendo, se eu gostava de literatura e se gostava de auto-ajuda (aliás, ainda tem hífen porque o prefixo termina com vogal e a palavra seguinte começa com a mesma vogal). Tudo bem que ele só tinha lido o índice (durante uns 10 minutos), mas deve ter aprendido alguma coisa. E demorou um tempão pra entender que eu estava lendo um livro sobre Rubem Braga e não do Rubem Braga. E que o Rubem Braga era cronista, mas acho que ele não sabia direito o que era uma crônica. Ah, e ele falava tudo bem direitinho, me chamando de você e tentando pronunciar todos os erres e eles. E usava uma camisa social. E me elogiou muito porque eu estava sofrendo agora estudando pra aproveitar depois. Não adiantou eu tentar explicar que agora é que era a parte boa e que depois é que eu ia sofrer. Ele não se convenceu muito mesmo eu dizendo que fazia jornalismo.

portoalegre-tingaParecia uma baita duma indiada. Até foi um pouco. Chegamos lá e estava tudo vazio, tri pouca gente. Uma coisa meio melancólica até, não parecia Carnaval. Já era Porto Alegre, onde as arquibancadas não ficam totalmente cheias nem no desfile das escolas do Grupo Especial. Elas estão melhorando até. No primeiro dia, tinha uns carros grandes, daqueles que se mexem, cheios de efeitos. Não como no Rio, mas já nem parecia mais Porto Alegre. Vi esses pela televisão.

O domingo era o primeiro dia das escolas do Grupo Especial do Rio. Era também o dia do desfile do Grupo de Acesso de Porto Alegre. Me fui para o Porto Seco. Eu, meu pai e minha mãe. Deveríamos chegar lá pelas 18h, segundo as informações do meu pai. Chegamos meia hora antes, pra garantir. Vazio. Ninguém da “nossa” escola. Na verdade escola de uns amigos, com quem meu pai trabalha e que nos convidaram para estar lá. Uma escola que existe desde 1989 e já esteve no Grupo Especial.

Por telefone, descobrimos que eles chegariam umas 18:30. Teríamos uma hora para, sei lá, conhecer o Porto Seco. O bar ainda estava fechado, não tinha nem brigadiano ainda. Estávamos lá, de calças brancas, sapatos brancos. A calça que antes eu fui buscar na casa de uma prima, não tenho calças brancas. Ainda isso, cuidar para não sujar as tais calças. Lá pelas 18:30 que eles nos falaram foi quando conseguimos comprar uma água. Eram 19h e nada. Pelo menos chegaram os garis, sinal de que não faltava muito pra coisa toda começar.

Mais uns 20 minutos e lá estavam eles, vindos da Restinga, um bairro bem no sul de Porto Alegre. O Porto Seco fica no extremo norte. De ônibus, levaram acho que uma hora e meia pra chegar. Se não tiver sido mais, coitados. Recebemos a túnica e o chapéu. O desfile era sobre o movimento negro, o enredo era bonito. Depois de trocar de roupa, já estava quase na hora de começar, às 20h. Antes das duas tribos, que desfilavam antes do Grupo de Acesso. Atrasou um pouquinho, mas tudo bem. Foi meia hora na avenida. Meia hora tentando sambar para mais ou menos umas 20 pessoas que nos assistiam. Eu estava na ala que fechava o desfile. A última ala de uma escola sem carros, quase sem fantasias, quase sem pessoas. Contei os que estavam comigo, com a mesma túnica, o mesmo chapéu, calças e sapatos brancos. Eu e mais treze.

Quando o desfile terminou, passada aquela meia hora em que praticamente nos arrastamos na avenida para não passar muito rápido, seu Nelson, que não é o presidente, mas talvez seja o vice, estava contente, radiante. Nos agradeceu e tinha plena convicção de que a escola estivera magnífica. “Só quando passarem as outras escolas eles vão ter uma noção da nossa. Vão ver como estava bonita e vão se perguntar o que estamos fazendo fora do desfile.” É triste, mas é bonito. É uma dedicação total, irrestrita, para desfilar para uma arquibancada vazia e nem ser julgada. Ano que vem é a mesma coisa, a escola só volta para o Grupo de Acesso em 2011. E, ainda assim, eles dedicam um ano inteiro para preparar aquele desfile.

E aí, qual dos dois está melhor? Esses mini-perfis foram escritos para uma revista da faculdade, a Sextante, mas, por uma série de problemas, eles não entraram. Nem os meus nem os de ninguém que escreveu. É uma pena, porque eu gostei da maioria. Mas então, os dois aí embaixo são sobre a mesma pessoa. Escrevi um, não gostei e, tempos depois, escrevi outro, sem nem ler o primeiro de novo. Resolvi postar o que iria pra revista aqui, mas no meio do caminho achei o antigo. Não sei mais qual eu prefiro, então os dois vieram parar aqui. Não vou contar qual eu escrevi primeiro e qual eu escrevi depois. Os títulos foram feitos agora, e sou péssima nisso, não reparem. Espero que gostem:

O “louco”20081001-mini-perfil-0032

Aquela voz alta e grave faz parar no chão uma meia dúzia de pares de pés. Os olhos que pertencem àqueles corpos estacados observam a cena inertes. As bocas estão entreabertas e um sorriso de leve marca o canto de cada uma delas. É como se pensassem “O que esse louco está dizendo?”. Poderia jurar que pensam isso, sim. O “louco” em questão solta aquela voz que grita “Jesus disse: ‘Eu sou, e além de mim não há outro’”. Grita mesmo, a ponto de chamar a atenção no meio da Rua da Praia, na muvuca de vozes e passos.

Paulo Roberto Flores tem um sorriso alegre, um corpo forte e negro de não mais que um e setenta e uns 60 anos, talvez. Desses, 22 foram dedicados à igreja bordada no alto do lado direito do jaleco branco que ele veste: “Igreja Pentecostal Deus é Amor”. Está ali distribuindo panfletos que pregam a salvação através de Deus e buscando novos fiéis para sua fé evangélica. Em um discurso decorado, explica bem rápido que entrou para a igreja para se livrar “das drogas, do vício, das más companhias, da mentira, do cinema e dos carnavais”.

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Motivos

“Jesus disse: ‘Eu sou, e além de mim não há outro’.” Ele gritava essa frase e tantas outras do mesmo gênero. As pessoas andavam apressadas pela Rua da Praia, mas muitas paravam e viravam para olhar, como se pensassem “o que este louco está fazendo?”. Alguns até esboçavam um sorrisinho irônico, daqueles de quem vê um outro alguém de linhagem inferior, que só merece pena. Mas ele não estava nem aí. Mandava sua mensagem com a boca aberta, os poucos dentes à mostra em um sorriso franco, com a felicidade de quem acredita piamente no que diz. A vida é fácil, é simples.

Ele é Paulo Roberto Flores, negro, não mais que um e setenta, rechonchudo mas não gordo. Usa uma espécie de jaleco, parecido com aqueles de médico. Mas no seu está escrito “Igreja Pentecostal Deus é Amor”. É evangélico há 22 anos. O porquê está na ponta da língua: “para me livrar das drogas, do vício, das más companhias, do cinema, da mentira e dos carnavais”. Os motivos saem como que decorados há muito tempo. Talvez sejam mesmo.

É sempre assim, parece que elas vêm sempre acompanhadas. Às vezes, muito de vez em quando, vêm sozinhas, geralmente a má. Mas o fato é que agora vieram juntas, ambas fortes e importantes. Qual das duas notícias que todo o mundo já sabe eu dou primeiro?

Bom, a má notícia é que morreu o jornalista Luiz Pilla Vares. Ele era amigo do meu pai, militaram juntos não só no PT, mas no POC (Partido Operário Comunista), ainda nos tempos da ditadura. Ele trabalhava na Assembléia agora, lá onde eu encontrei ele semestre passado para entrevistá-lo. Além de tudo que andam dizendo por aí de importante a respeito do Pilla Vares, ele era um grande entendido de Rosa Luxemburgo. E o que mais me impressionou na conversa que tivemos foi a admiração com que ele falava nela. Pilla Vares tinha 68 anos.

A notícia boa é que o coronal Carlos Alberto Brilhante Ustra foi considerado pela Justiça responsável pela tortura de Maria Amélia de Almeida Teles, César Augusto Teles e Criméia Schmidt de Almeida, irmã de Maria. Um dos responsáveis pelas maiores atrocidades na época ditadura continua andando solto por aí, mas agora carrega a pecha de torturador. Pode não parecer muito, mas já é um avanço e tanto. Tem um monte de gente que relata as torturas bárbaras cometidas por ele, e a anistia continua igual para torturadores e torturados. o Diário Gauche conta um caso emblemático. É um primeiro passo, espera-se que não seja o último.

Passei hoje por um menino andando de bicicleta. Ele dava voltas sempre no mesmo lugar em uma rua tranqüila em que quase não passam carros. Devia ter uns oito anos. Eu passei por ele bem de canto, às vezes as crianças perdem o equilíbrio e não conseguem desviar da gente. E elas se machucam mais, mesmo se são elas as que ocupam o assento em cima das rodas, são menores, ainda não aprenderam a cair, embora suas feridas curem mais depressa.

Passei ao longe – não tão ao longe, já que a rua era estreita -, mas fiquei cuidando seus movimentos. Era alegre, como a maioria das crianças. De repente largou a bicicleta e saiu andando com uma agilidade que me impressionou. Encontrava uma menina de uns seis anos, talvez irmã, talvez amiga ou vizinha. Bonita a cena de duas crianças se encontrando, brincando juntas.

Foi aí que o menino denunciou qual seria a brincadeira. Agarrou a menina pelo pescoço e a outra mão deixou fechada, apenas com dois dedos esticados voltados para a cabeça da amiga. Era uma arma. Não atirava, não matava, mas assustava. Talvez não a menina, já acostumada às brincadeiras do colega. Mas os adultos desavisados, desacostumados de seu tempo de criança, quando brincavam de casinha ou carrinho, não sabiam direito como reagir àquilo. Ele se divertia dizendo “Passa tudo senão eu atiro”. Será que ele vê isso na televisão ou na rua? É nos jornais ou nos vizinhos? É na vida.

“Na verdade eu tô pecando agora, porque eu tô orando de unhas pintadas. É como se não fizesse efeito.” Com apenas seis meses de vida muçulmana, ela já tem certeza da opção que fez. Se apaixonou por um muçulmano paquistanês e decidiu se converter. Agora faz aula todos os sábados à tarde. Pretende aprender também o árabe, não só a religião. Afinal, o idioma quase faz parte da crença, já que o Alcorão só tem valor em árabe, para os muçulmanos.

Ela ainda não casou. Como solteira, é ajudada pelo pessoal da mesquita. É de lá que tira os lenços e afins, coisas que o marido deve prover à esposa. Separa os lenços reserva na prateleira da sessão das mulheres, atrás do biombo, na sala do segundo andar do prédio da Dr. Flores. Ao lado da Losango, de frente pra Colombo. Com diversos traços do nosso mundo ocidental ao redor.

“Agora eu vou jejuar, obedecer o Ramadã. Vai ser meu primeiro ano.” É com um sorriso sincero de expectativa que ela diz isso. Uma certa excitação, talvez pela novidade disso tudo. Não parece ter medo das dificuldades a enfrentar. Talvez uma certa ingenuidade. Sim, com certeza. “O Islamismo parece muito rígido. Antes eu achava que os homens tratavam mal as mulheres. Agora eu sei que eles são muito respeitadores. Nos respeitam muito mesmo.” Aí vem uma certa dose de orgulho de um povo que não era seu, mas que ela vai aprendendo a incorporar na sua vida.

As mulheres não participam do ritual dos homens. Seu espaço é atrás do biombo feito de quatro placas de madeira verde clara. Ela não se sente excluída. Entende sem entender que seu espaço é separado, é de certa submissão. O lenço cobre a cabeça deixando só o rosto de fora. “A mulher tem que se preservar. O cabelo chama a atenção do homem.” Sua amiga chega de cabelos cobertos, mas veste justas calças jeans e All Star preto com ponta branca e listrinha vermelha, aquele tradicional. Tira para sentar no carpete, atrás do biombo.

Elas entendem, mas querem ver. Afinal, as mulheres também são curiosas. O que tem do outro lado? Elas já sabem de cor, mas não se cansam de espiar. Tudo, claro, pra satisfazer a curiosidade das estudantes que “vieram fazer uma pesquisa”. Mas o fato é que tudo que é proibido é mais gostoso. “Eles vão brigar se virem.” Mas já está lá abrindo uma fresta nos biombos. “Tu tem celular com câmera? Tira foto ali pela fresta.” O jeitinho brasileiro dentro da mesquita. A do All Star acha a fresta ainda muito pequena e puxa mais a placa de madeira.

Não podem pintar as unhas, mas pintam. Os olhos são bem maquiados, com delineador e rímel pretos. O rosto é uma das poucas partes do corpo que pode aparecer. O resto deve ficar escondido por preservação da mulher, pra não chamar a atenção do homem. Mas o que está à mostra é valorizado. O que é maquiagem senão uma tentativa de chamar a atenção. É contraditório. Mas afinal de contas, elas são muçulmanas, mas são mulheres. E vaidosas.

Quatro dias antes do aniversário, aparece o cartaz atrás do banco do motorista convidando o pessoal pra festa. Festerê, pra todos os passageiros do C2 tabela 4. Salão grande, buffet, decoração, ônibus para levar os convidados. Não, nada disso. Na verdade, só a última parte. Salgadinhos e torta são distribuídos a quem estiver no ônibus, no horário de trabalho de Porquinho e Melancia mesmo.

Melancia trabalha com Porquinho há 18 anos. Ele é cobrador do ônibus que Porquinho dirige. Vários aniversários já foram comemorados ali, com os passageiros conhecidos, de todo dia, ou com os que aparecem sem querer no meio da festa. Os serviços dos dois já estão até sendo contratados. Não ganham nada, mas já fazem festa de criança. Pelo menos uma, que a mãe dela já ligou pedindo pra fazer a festinha do filho no C2, com os mesmos salgadinhos e a mesma torta.

Por enquanto a especialidade são os aniversários, mas até casamento já teve. Bom, não casamento casamento, mas o cupido já passou por aquele ônibus. Uma passageira reclamava muito que era sozinha, sempre rezava pra Santo Antônio (santo que marca, aliás, outra das comemorações do C2 de Porquinho e Melancia) e nunca achava um marido. Um dia sua história veio a público por interferência dos dois. Foi parar no jornal. Um cara do interior viu e veio atrás. Melancia garante que ela era muito bonita, apesar de ter que recorrer a esses meios pra achar um marido. Mas casaram, e hoje a criança já tem três anos.

A velhinha chata de todos os dias à tarde sempre reclama de alguma coisa. Melancia tem dias que não agüenta olhar pra mulher. Mas atende, sempre simpático, como são os dois. Um dia ele não agüentou. A velhinha estava chata demais e dizia até palavrão. Sabedor dos pontos fracos da mulher, indicou. Naquele dia, segundo Melancia, a Linha Turismo era de graça. Não estava cobrando os cinco ou sete pila que cobra sempre. A velha se alvoroçou. Anda de ônibus porque é de graça. Mas naquele nunca tinha andado, não. E hoje era de graça. Desceu do C2 bem contente. Em outra viagem, perguntou a Melancia se tinha sido ele que lhe indicara o ônibus panorâmico no outro dia. Bem rápido, respondeu: “Eu não!”.

Porquinho trabalha no C2 há 18 anos. Melancia, há 22. Sorriem muito. O tempo todo. Se são felizes? Não sei, parece.