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A Igreja é foda, viu. Agora estão reclamando até de uma metáfora do Lula que diz que “No Brasil, Jesus teria de fazer aliança com Judas”. Tchê, ele não disse que Jesus fez aliança com Judas. Metáfora, saca?

José Saramago está lançando novo livro (manhê, eu quero!), Caim, e foi capa do segundo caderno de hoje. Não dá vontadezinha de ler só porque é um Saramago, o que já seria bastante. O negócio é que o livro parece sensacional. A ideia é ótima, e adoro a falta de papas da língua do autor de um dos melhores livros que eu já li (o saco de fazerem filmes de livros bons é que parece que a gente gosta do livro porque ele virou modinha – é de antes, viu).

Tem uma matéria e uma pequena entrevista. As perguntas, da Agência Estado, não são grande coisa. Mas o Saramago é tão sensacional que as respostas são ótimas. Adoro quando ele fala mal de Deus e da Bíblia, concordo com tudo. Se Deus existe e é como as religiões pintam, ele é injusto e perverso. A Bíblia é o livro das maldades e dos preconceitos. Só que são poucos os que têm coragem de dizer isso. Ainda mais com tanto a perder, como o Saramago, que tem uma relação de dependência com a opinião pública. Afinal, se não gostarem dele, ele não vende e seu trabalho não faz sentido.

Saramago pouco se importa com o que a Igreja católica ou outras religiões vão dizer. As críticas que fazem a ele, aliás, são por falta de respeito. Balela, ele está só dando uma opinião. Ele acha que Deus não existe e ponto. Quero ver provarem que ele está mentindo…

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Ah, e vale muito a leitura do blog O Caderno de Saramago. Me sinto próxima do Saramago, posso ler um blog dele da mesma forma que leio o de um colega de faculdade. Não tem uma periodicidade certa, mas os posts em geral são curtos. É o caso de entrar de vez em quando e ler todos os que não tiverem sido lidos ainda. Uma vez por semana dá conta. É por esse tipo de coisa que a internet vale mais a pena.

Zelaya0A matéria é sobre impressões dos gaúchos que convivem de perto com a crise hondurenha. Aparentemente inocente, ela é muito mais. O repórter Rodrigo Lopes, de Zero Hora, utiliza essas impressões para dar a sua opinião. Coloca na boca dos outros o que ele mesmo quer dizer. Tanto que todos os gaúchos entrevistados dizem a mesma coisa. O título e a linha de apoio são confusos, mas de caráter nitidamente golpista.

Mais uma vez, uma matéria golpista, que não só justifica o golpe de Roberto Micheletti contra Manuel Zelaya como faz crer que a população concorda com o golpe. E, de quebra, ainda critica o governo Lula e o governo Chávez. A estratégia é simples: Honduras está um caos (não há nenhuma menção ao fato de estar um caos por ter sofrido um golpe e estar com as liberdades cerceadas por um governo ilegítimo)  e a culpa, segundo Rodrigo Lopes, é de Lula e Chávez.

Como se não bastasse, termina colocando nas mãos de Deus, falando em igreja, em religião. Desse detalhe, a primeira conclusão é mais evidente: a solução não será dada por Deus, as coisas têm que ser resolvidas politicamente. Há uma situação de golpe, ela tem solução e essa solução deve ser buscada pelos agentes envolvidos. Colocar nas mãos de Deus é dizer que não há solução.

Mas há uma outra conclusão a se tirar dessa alusão à religião: ela reforça valores burgueses, elitistas. É por causa desse tipo de coisa que os ateus são a categoria que mais sofre preconceito. O jornal reforça um preconceito e uma visão conservadora, de manutenção do status quo. Porque, nada contra quem acredita em Deus, mas os valores católicos são completamente conservadores.

Não sei como ele conseguiu dizer tanta besteira em tão pouco espaço.

Quem me falou da tal matéria foi o Isma Cardoso, que, teimoso, desativou o blog que tinha.

ateuTenho pensado um pouco sobre esse negócio da ateísmo. Bom, o assunto não surgiu do nada assim, por iniciativa dos meus próprios pensamentos. Na verdade já faz muito tempo que ele aparece de vez em quando, mas agora resolvi escrever por conta desse texto que eu li semana passada. Não concordo com tudo que está ali, mas algumas ideias dá pra aproveitar. O que me motivou a atualizar esse blog, na verdade, foi a coisa da moralidade. Ou melhor, a forma com que as pessoas veem a moralidade dos ateus.

Não sei exatamente o termo mais correto pra se utilizar nesse momento. Me parece que os ateus, assim como os comunistas – que muitas vezes são a mesma pessoa, já que são ideias que me parecem complementares -, são vistos como amorais. Nesse texto que me despertou mais uma vez para o assunto, é citada uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo que eu não achei no site deles, mas ela parece fazer sentido. Diz lá que os ateus são o grupo mais discriminado socialmente. Os ateus, ainda segundo o texto, são os menos votados em eleições. Na verdade, os mais rejeitados. “Se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar”, diz o autor do texto, Rafael Galvão.

Sempre me intrigou aquelas pessoas que acreditam que a outra é pelo menos um pouco boa, afinal, é tão religiosa. Ou que alguém que não tem fé em um deus qualquer não é capaz de atos de humanidade porque, bem, porque não acredita em um deus qualquer. Respeito as crenças, quase todas – menos aquelas que humilham, enganam com fins mais escusos, como conseguir dinheiro de gente pobre -, respeito mesmo. Acho que muitas vezes a religião pode servir como um apoio, uma forma mais fácil de enxergar a vida, e não acho errado buscar um jeito mais fácil de fazer as coisas. Só não consigo acreditar nesses deuses que são tantos por aí, cada qual com sua legião de apóstolos, seguidores, santos e o escambau, simplesmente porque não faz sentido, não tem lógica. (Se bem que às vezes quase desisto da coisa pra não ter que dizer que sou atéia – eita palavra mais feia!) Mas acredito profundamente na humanidade. Acredito que os homens são em essência bons e que pode sair muita coisa boa ainda, que a gente pode melhorar, pode arrumar as coisas erradas. Não é tão difícil assim. Basta ter um pouco de solidariedade.

Essa palavra… solidariedade. Ela me marcou hoje. E aí vai mais uma motivação pra eu vir escrever esse post. Li hoje à tarde uma matéria na edição desse mês da Brasileiros. Era sobre um jornalista comunista inglês, Peter Godfrey, que veio ao Brasil e queria muito entrevistar o grande Oscar Niemeyer. Dizia lá na matéria que é de Hugo Chávez a afirmação de que Fidel Castro e Niemeyer são os dois últimos comunistas do mundo. No auge dos seus 102 anos, ele continua comunista. Pois bem, o jornalista inglês também se diz um, e há tantos outros por aí – alguns de meia tigela -, mas isso não vem ao caso agora.

Não quero criar uma falsa relação entre comunismo e ateísmo. Mas não dá pra negar que essas duas… hmm… ideologias (?) estão interligadas. A maioria dos comunistas que se vê por aí – não só hoje, mas na história, é atéia. Não digo todos porque há exceções, mas elas chegam a ser estranhas, como se uma coisa não combinasse com a outra. E o comunista também recebe esse olhar crítico, o mesmo destinado ao ateu, e possivelmente pelo mesmo motivo. É a mesma visão de amoralidade (ou imoralidade, nesse caso?). Comunista não é aquele que come criancinha?

Niemeyer construiu umas quantas igrejas, capelas, catedrais, até mesquita ele já projetou. Mas não acredita em nenhuma dessas crenças, simplesmente porque não faz sentido. Ainda assim, constrói as igrejas com um certo carinho, pensando na sua família tão católica, respeitando. Ele conta, em uma das perguntas da entrevista que o repórter de Brasileiros, Eduardo Rascov, e o repórter inglês conseguiram fazer, que uma vez um jornalista do Pasquim lhe perguntou qual palavra ele prefere e ele respondeu “solidariedade”. O texto da Brasileiros termina assim: “Ainda em São Paulo, quando perguntei a Peter Godfrey qual a razão dele permanecer comunista, ele me respondeu com uma palavra: “Solidariedade”. Agora sei o que via desde o início fora de lugar nele. É a solidariedade, algo raro hoje em dia”. Realmente.

soldados israelHoje em dia é feio defender Israel. Especialmente quem é de esquerda não pode achar nada de positivo na Terra Santa. É o país apoiado pelos Estados Unidos, militarizado, especialista em guerra, que oprime os palestinos e blá blá blá. Ok, é tudo isso, sim. Mas convivi durante dez dias com uma realidade um pouco diferente. Na verdade, com um ponto de vista diferente.

Israel é o Estado judeu defendido por um povo oprimido inúmeras vezes ao longo da história. A mais famosa é recente ainda. Seis milhões de judeus foram mortos no Holocausto. Seis milhões é muita gente, ainda mais pra um povo fechado, que não cresce muito. Ok, atrocidade não justifica atrocidade, mas esses repressões de que o povo judeu foi vítima explicam muita coisa.

Falo com relação ao povo. Sobre o governo, não me sinto apta a falar, pelo menos por enquanto. Convivi diretamente com soldados israelenses. Meu guia israelense, não o que organizava as atividades, mas o que explicava o que estávamos vendo, na verdade era gaúcho. Ele merece um post só pra ele, então não vou falar muito. É suficiente dizer que ele decidiu ir para Israel para lutar no exército e defender esse Estado judeu. Virou paraquedista, da elite do exército. Agora não está mais lá, mas é reservista até os 40 anos e pode ser chamado em caso de guerra, como qualquer soldado. Além dele, cinco soldados israelenses se juntaram ao nosso grupo durante cinco dias. Nenhum deles era terrorista, eles não gostavam de matar pessoas. Eram gente boa, jovens como todos nós, alguns muito bonitos, fizeram festa com a gente. Normais, o que é óbvio, mas nem tanto. Três deles eram mulheres. Conversamos também com mais alguns soldados que passaram pela gente em alguns momentos.

O que se vê lá é um amor por aquela terra que é muito diferente do amor imenso que o brasileiro sente pelo Brasil. Lá o que é muito forte é a necessidade de defender Israel para que ele não deixe de existir. É um Estado muito recente, mas os israelenses têm um sentimento de pertencimento àquela terra de séculos, milênios. Aquela, para eles, é a terra do povo judeu. Apenas um dos soldados me deu a impressão de que odeia os muçulmanos. Os outros parecem acreditar de verdade que fazem o que podem, que não matam porque são maus, mas só quando há necessidade extrema. Que o fato de morrer menos israelenses do que palestinos deve-se apenas à qualidade do exército, que se defende bem, e isso é um ponto positivo. Um deles me disse que o exército de Israel é um exército de defesa, não de ataque. E falou sinceramente, pude notar.

Israel é a terra para onde todos os judeus do mundo podem ir. É onde eles querem que se una o povo judeu e onde ele se fortaleça. É um porto seguro pra quem teve que fugir tantas vezes de suas casas, de suas terras. Para os judeus sionistas, ali é sua casa, a casa de todos os judeus. A terra de Israel é uma proteção para esse povo, e isso não é errado.

Sionismo, só pra esclarecer, é a defesa da existência de um Estado judeu. Em suma, a defesa da existência de Israel, a terra do povo judeu. O programa de que eu participei, como não poderia deixar de ser, é sionista. Senão não nos levariam pra lá, certo? E essa ideologia nos foi passada durante todos os dias do programa. Nos foi passada, não nos enfiada goela abaixo. Foi de forma muito intensa, mas muito sincera. Nos falavam do Estado de Israel com muita sinceridade e muito amor. Por conta disso, era muito forte a forma com que essa ideologia chegava até nós.

Só pra ficar claro, não estou defendendo guerra, evidentemente, muito menos a postura de Israel. Só estou tentando entender a motivação dos soldados comuns, daqueles que não têm poder de decisão e ainda assim sentem orgulho de lutar em nome de um Estado judeu. Eles não são criminosos por conta disso. Eles defendem uma causa, não querem matar pessoas (de um modo geral). E eles querem paz, sonham com isso. Mas, se perguntares a um soldado se há solução para os confrontos, ele vai dizer que não enxerga nenhuma. E vai ficar triste com isso.

bandeira IsraelAcabo de voltar de viagem e achei que era uma boa hora de dar as caras por aqui. Pra quem não sabe, passei dez dias no Rio de Janeiro e emendei com outros dez dias em Israel. Ganhei a viagem para a Terra Santa porque judeus ricos decidiram que todo jovem judeu entre 18 e 26 anos tem direito de conhecê-la. É uma forma de incentivar o judaísmo, para que não morra. Comprovei que meus avós eram judeus e me fui.

Mais adiante eu falo sobre o Rio, que também merece várias linhas, mas agora Israel está mais recente e mais forte na minha cabeça. A viagem começa no aeroporto. Vou direto para o de Guarulhos, que sobre Porto Alegre não tem muito o que dizer (fora que, apesar de pequeno, nosso aeroporto é o melhor que eu conheço). Fiquei horas passeando pelos corredores sem-graça do aeroporto de Guarulhos. Encontrei umas pessoas que foram de POA para o Taglit (o nome do programa), assim como eu, e ficamos arranjando o que fazer até chegar a hora de fazer o check in.

A El Al, companhia israelense, tem apenas três voos por semana para o Brasil, então não tem guichê fixo, ele foi montado na hora. Formou-se uma fila imensa, em que conhecemos o resto do pessoal (tinha gente de São Paulo, Rio, Floripa, Curitiba). O check in não acontece antes de uma entrevista com o pessoal da El Al. Apesar de eu estar no Brasil, fui entrevistada em inglês. Não adiantava eu dizer que não entendia alguma palavra ou frase, a mulher não falava mais devagar. E me encarava com olhos inquisidores, procurando me fazer cair em contradição. Isso era muito claro pra mim. Ela queria saber se eu era judia, o que eu fazia para preservar meu judaísmo, que datas eu comemorava, de que forma. Tive que enrolar. A sorte foi que eu não entendia tudo, o que abreviou um pouco a entrevista, mas foi um momento bastante tenso. A minha entrevista foi leve, comparando com a de alguns colegas de Taglit. Um guri com cara de árabe teve mais dificuldade e uma menina de Porto Alegre, convertida ao judaísmo para casar, há cerca de um ano, foi a que mais sofreu. Ela é pequena, quietinha, tem uma cara absurdamente inocente. Mas ficou séculos falando em inglês com um israelense careca com cara de mau (muitos israelenses são carecas por causa do exército). Fizeram ela recitar um negócio do judaísmo que eu nem sabia que existia. Em hebraico. A guria sabia porque os judeus são super exigentes na conversão. Ela estudou bastante e fez uma prova difícil, segundo ela. Era a mais judia de todos. Dizem que escolhem as pessoas com mais cara de inocente porque são os que aceitam mais facilmente levar encomendas que podem ser perigosas.

Depois, nossos guias brasileiros, que vou chamar de madrichim (no plural), madrich (o guia homem) e madrichá (a guia mulher), porque foi assim que me acostumei, nos explicaram que aquele era o esquema de segurança da empresa, que os israelenses são grossos mesmo e que a El Al é a companhia aérea mais segura do mundo por causa disso. Aí vem uma reflexão que me ocorreu um pouco depois. Poxa, não é à toa que ela precisa fazer tudo isso para tirar um avião do chão. Esse ódio desmedido entre judeus e muçulmanos (sobre o qual vou falar mais adiante) faz com que ambos os lados tenham medo de tudo, sempre. Um ódio que eles alimentam me faz ser humilhada para poder visitar Israel, uma terra que deveria ser patrimônio da humanidade, que tem importância fundamental para as três principais religiões monoteístas do mundo, que é história por todos os poros. Uma terra linda. Até consigo entender, mas me é impossível justificar. Fora que nos fizeram quase provar nosso judaísmo sendo que não é preciso ser judeu para visitar Israel. Como me tratariam se eu me dissesse católica, por exemplo? Ou atéia?

Nos disseram que na volta seria pior, que lá eles eram mais estúpidos e tal. Foi bem tranquilo, na verdade. Um cara simpático, falando espanhol, me perguntou se era eu que tinha feito minha mala, se eu levava alguma coisa pra alguém, se a mala tinha ficado comigo o tempo todo e tal.

Ah, e só para encerrar. A parte de os israelenses serem grossos foi comprovada já no avião. Eita comissários antepáticos. E depois em qualquer mercado, em qualquer boteco (por justiça devo dizer que me refiro à maioria, porque tem alguns muito simpáticos). E nos justificam que eles são assim por causa da situação de Israel, a convivência com a guerra, que é muito difícil pra eles lidar com isso e patati patatá, mas que por dentro eles são doces e não sei mais o quê. Bom, falta descobrir essa parte.

cruzÉ notícia hoje, todos os jornais falam. Uma menina de onze anos está grávida de sete meses, internada no hospital, a gravidez é de risco. Foi estuprada pelo padastro. Os jornais também lembram outro fato recente e parecido. Dessa vez a menina tinha nove. Crianças. Nesse caso, optou-se por não levar a gravidez adiante, ela era muito nova, não se sabia como seu corpo reagiria, que sequelas aquele absurdo poderia deixar. Nenhum jornal fala em como a criança lida com isso, em como ela sofre com isso, embora esteja implícito. A interrupção da gravidez foi recomendada pelo médico, por motivos clínicos, não psicológicos ou sociais. Pelo menos o médico foi sensato.

No Jornal Hoje, um padre velho, com cara de velho, não só de idade, mas de espírito, aparência feia de pessoa de alma feia, foi justificar a excomunhão do médico e da mãe da menina. Onde já se viu interromper uma gravidez? E a vida? “Os fins não justificam os meios”, ele disse. A menina tinha nove anos. Ela provavelmente não vai se recuperar do que lhe aconteceu nunca. Ela foi estuprada, dá pra imaginar? Ela, que brincava, e que brincaria ainda por muito tempo. Sabe-se lá o que ela pensa agora, como ela vai pensar no futuro. E era essa menina que o padre queria que carregasse outra criança. Isso tudo me é tão absurdo que não consigo nem articular um pensamento que explique esse absurdo. Para mim, está explícito, qualquer um vê. O que a Igreja (Católica, ressalte-se) fez, o que ela faz, o que ela sempre fez e parece que vai continuar fazendo por muito tempo ainda é crueldade. Crueldade.

Esse caso escancara a crueldade. Mas ela é cruel quando não permite o prazer às pessoas, quando defende a elite e pune quem ousa falar pelos pobres. Ela é cruel quando persegue outras religiões, quando mata em nome de deus. Que deus? Quando pune quem pensa diferente, quando joga na fogueira, quando faz velhinhas pensarem que deus é amor. O deus dessa Igreja é ódio. Será tão difícil de ver que tudo o que a Igreja traz para o mundo é maldade? E não é nenhuma obra de caridade feita em alguma paróquia por aí, ou algum pensamento ecumênico mais recente que vai me fazer mudar de ideia. É fachada. A Igreja é cruel em seu cerne. É má, ponto.

“Na verdade eu tô pecando agora, porque eu tô orando de unhas pintadas. É como se não fizesse efeito.” Com apenas seis meses de vida muçulmana, ela já tem certeza da opção que fez. Se apaixonou por um muçulmano paquistanês e decidiu se converter. Agora faz aula todos os sábados à tarde. Pretende aprender também o árabe, não só a religião. Afinal, o idioma quase faz parte da crença, já que o Alcorão só tem valor em árabe, para os muçulmanos.

Ela ainda não casou. Como solteira, é ajudada pelo pessoal da mesquita. É de lá que tira os lenços e afins, coisas que o marido deve prover à esposa. Separa os lenços reserva na prateleira da sessão das mulheres, atrás do biombo, na sala do segundo andar do prédio da Dr. Flores. Ao lado da Losango, de frente pra Colombo. Com diversos traços do nosso mundo ocidental ao redor.

“Agora eu vou jejuar, obedecer o Ramadã. Vai ser meu primeiro ano.” É com um sorriso sincero de expectativa que ela diz isso. Uma certa excitação, talvez pela novidade disso tudo. Não parece ter medo das dificuldades a enfrentar. Talvez uma certa ingenuidade. Sim, com certeza. “O Islamismo parece muito rígido. Antes eu achava que os homens tratavam mal as mulheres. Agora eu sei que eles são muito respeitadores. Nos respeitam muito mesmo.” Aí vem uma certa dose de orgulho de um povo que não era seu, mas que ela vai aprendendo a incorporar na sua vida.

As mulheres não participam do ritual dos homens. Seu espaço é atrás do biombo feito de quatro placas de madeira verde clara. Ela não se sente excluída. Entende sem entender que seu espaço é separado, é de certa submissão. O lenço cobre a cabeça deixando só o rosto de fora. “A mulher tem que se preservar. O cabelo chama a atenção do homem.” Sua amiga chega de cabelos cobertos, mas veste justas calças jeans e All Star preto com ponta branca e listrinha vermelha, aquele tradicional. Tira para sentar no carpete, atrás do biombo.

Elas entendem, mas querem ver. Afinal, as mulheres também são curiosas. O que tem do outro lado? Elas já sabem de cor, mas não se cansam de espiar. Tudo, claro, pra satisfazer a curiosidade das estudantes que “vieram fazer uma pesquisa”. Mas o fato é que tudo que é proibido é mais gostoso. “Eles vão brigar se virem.” Mas já está lá abrindo uma fresta nos biombos. “Tu tem celular com câmera? Tira foto ali pela fresta.” O jeitinho brasileiro dentro da mesquita. A do All Star acha a fresta ainda muito pequena e puxa mais a placa de madeira.

Não podem pintar as unhas, mas pintam. Os olhos são bem maquiados, com delineador e rímel pretos. O rosto é uma das poucas partes do corpo que pode aparecer. O resto deve ficar escondido por preservação da mulher, pra não chamar a atenção do homem. Mas o que está à mostra é valorizado. O que é maquiagem senão uma tentativa de chamar a atenção. É contraditório. Mas afinal de contas, elas são muçulmanas, mas são mulheres. E vaidosas.