You are currently browsing the tag archive for the 'Carta Capital' tag.

A Carta Capital dessa semana traz dois exemplos de Jornalismo, um relativo à pluralidade e outro à democratização, embora uma coisa pressuponha a outra (ou seja, os dois casos tratam da mesma coisa: democracia, acesso aos meios de comunicação, benefícios para o cidadão).

Caso 1. EUA: “Das páginas de opinião do Chicago Tribune, Eric Zorn aponta para a importância de se dar cor ao noticiário. E reforça que ‘o jornalismo mais partidário, no caso dos EUA, em que você tem meios dos dois lados, é fundamental para que as pessoas apreendam de fato a substância dos debates nos temas de grande interesse público. Por mais irritante e superficial que o jornalismo ideológico pareça ser, ele é vital para a saúde da sociedade.’”

Caso 2. Argentina: “A Lei de Serviços Audiovisuais, proposta pelo governo Cristina Kirchner, mexeu no vespeiro de regimes de concessão de rádios e tevês e, por extensão, nos interesses dos principais grupos de comunicação da Argentina. [...] Entre os pontos mais criticados pelos empresários está o limite ao número de concessões por grupo econômico e área de abrangência – uma norma corriqueira em países desenvolvidos.”

A reportagem sobre os EUA é de Eduardo Graça. A nota sobre a Argentina é de Luiz Antonio Cintra. Íntegra só na edição impressa.

Tenho dois comentários sobre a Zero Hora de hoje, dia 9:

1. Título da nota à página 8: “Legislação sobre tema é ambígua”

Primeiro parágrafo: “Na falta de legislação específica, especialistas divergem sobre o que governantes podem e não podem comprar com dinheiro público para a própria casa. Para alguns, quase tudo é liberado. Para outros, as aquisições são justificáveis apenas quando relacionadas a trabalho”.

Sinceramente, não me importa tanto se foi legal ou não. Gastar 13 mil reais na Tok & Stok comprando puff pros netos foi antiético, imoral, uma pouca vergonha. Se a pessoa usa dinheiro dos outros pra mobiliar a casa, o que mais ela pode fazer, caso tenha certeza da impunidade?

cartas2. As cartas do leitor sobre a manifestação do MST nas terras da multinacional Cutrale publicadas na ZH de hoje fazem crítica a dois dos lados envolvidos na história: o MST e o governo, por, segundo o leitor em questão, apoiar o MST. O título dado pelo jornal? “Justiça agrária”, uma coisa assim… bem neutra. Foram três as cartas sobre o tema publicadas, inclusive a que ganhou o destaque do dia. Detalhe: segundo o próprio jornal, o assunto não está entre os três mais citados pelos leitores.

Enquanto isso, a Carta Capital publicou matéria, assinada por Denise Ribeiro - ok, já faz uma semana que a revista saiu, mas só li hoje -, sobre a concentração de terras no Brasil. Não tem diretamente a ver com a manifestação ecartas destaquem questão, mas tudo a ver com as reivindicações do MST. A matéria é meio chata, tem números demais, o que trunca a leitura, mas os números ali são realmente importantes. Além do mais, é curtinha, vale o esforço. Destaco alguns dados:

A agricultura familiar ocupa 80,25 milhões de hectares, divididos em 4,4 milhões de propriedades. A área média de cada propriedade é de 18,37 hectares, 84,4% do número total de propriedades. Apesar de aparentar tanta representatividade – vendo esse número de 84,4% se poderia pensar que quase todas as terras do Brasil são de pequenas propriedades familiares -, a agricultura familiar é responsável por apenas 24,3% da área ocupada.

Os outros 75,7% correspondem a estabelecimentos não familiares, que representam 15,6% do número de propriedades. A área média de cada uma delas é de 309,18 hectares, uma diferença aguda na comparação com os 18,37 das propriedades pertencentes a famílias.

São muitos números, mas, resumindo, a realidade é que os grandes são poucos e concentram a maior parte da terra, enquanto os muitos pequenos respondem por menos de um quarto das áreas. Mas nesse espaço muito reduzido, são eles, os pequenos, que produzem os alimentos da cesta básica, como mandioca (87%), feijão (70%), milho (46%) e café (38%). Os grandes produtores, de um modo geral, plantam soja e criam bovinos.

Estudei sobre a concentração da terra, a questão dos latifúndios e tal, quando eu estava no colégio, cerca de dez anos atrás. Parecia uma coisa ultrapassada, tempo dos coronéis, voto de cabresto, República Velha. Pois é…

celsoamorim_afpA postura do Brasil em Honduras foi realmente a mais acertada, um golpe de mestre. O país se destaca como líder regional, defensor da soberania e da legalidade, com alta capacidade diplomática e ainda assume uma posição clara de defesa de um governo que, se não é o melhor do mundo, representa uma postura de esquerda. O mundo inteiro reconhece o Brasil como o grande mediador e vê no país a importância estratégica fundamental que assumiu ao asilar Zelaya em sua embaixada. Ali, naquele momento, o Brasil contribuiu de forma decisiva para encurralar o governo golpista de Micheletti. Ao “presidente de facto”, como chama a nossa mídia golpista, não restam muitas alternativas.

A mídia. Ah, essa mereceria um estudo à parte. Como foi dito, o mundo inteiro reconhece e louva o papel do Brasil. Menos os golpistas de Honduras, alguns setores mais direitistas dos Estados Unidos e a mídia brasileira. Para eles, o Brasil está se metendo onde não deve, invadindo a soberania de Honduras, criando tumulto, gerando violência.

Balela, mentira, lorota, aldrabice. 

Salvam-se alguns jornalistas e alguns poucos veículos – talvez só a Carta Capital, dos de periodicidade mais frequente -, mas a imprensa, de um modo geral, está corrompida por uma visão extremamente reacionária. Porque, como disse Cynara Menezes no fim da excelente matéria sobre Honduras na edição dessa semana da Carta – todas dela o são, diga-se, como já comentei aqui -, “não se trata de simpatia ou antipatia pelo neobolivariano, mas de defesa de princípios”.

No caso, princípios democráticos, pois, quando um presidente não-eleito toma o lugar de outro que foi eleito pelo povo e o expulsa do país sem lhe dar direito à defesa, isso caracteriza um golpe. Diz Luiz Gonzaga Belluzzo que “os fatos relatam que Zelaya, alta madrugada, foi retirado da cama, enfiado no avião e despachado para fora do país. Em qualquer região civilizada do globo habitada por cidadãos acostumados ao exercício da democracia e ao respeito às regras do Estado de Direito, tal cometimento dos gorilas de Honduras, fardados ou não, seria chamado de golpe”. Não importam os motivos. E os motivos, em Honduras, não justificam a expulsão, mesmo se a defesa tivesse sido garantida.

zelaya embaixada

Ao contrário do que dizem as vejas e as folhas por aí, Zelaya não pretendia ficar indefinidamente no poder. Ele pretendia apenas propor uma consulta sobre a celebração de um referendo, que definiria uma Constituinte e a possibilidade de reeleição, à qual ele próprio não concorreria. E o fato de ele chamar o povo a resistir e desobedecer o governo também não é ilegal. Descobri na matéria de Cynara Menezes que Honduras tem um artigo na Constituição que nenhum outro país tem e que é muito bacana:

“Ninguém deve obediência a um governo usurpador nem a quem assuma funções ou empregos públicos pela força das armas. (…) O povo tem o direito de recorrer à insurreição em defesa da ordem nacional.”

Mas a mídia brasileira, que hoje parece, pelo grau de certeza das suas declarações, ter estudado profundamente a história e a política hondurenhas, não sabe nada disso.

Ou seja, poupem-me, né.

Os trechos citados são da matéria de Cynara Menezes e do artigo sobre as “teratologias semânticas” da imprensa brasileira, de Luiz Gonzaga Belluzzo. Vale também a leitura da matéria do Luiz Antonio M. C. Costa sobre a postura clara do Brasil contra o golpe versus a postura ambivalente norte-americana e de seu texto curto de desmistificação das lendas urbanas que se criaram em torno do golpe (uma parte já postada aqui). Todos da Carta Capital dessa semana.

“Zelaya queria manter-se indefinidamente no poder.
O presidente planejava uma consulta sobre a celebração de um referendo a respeito de uma Constituinte juntamente com a eleição de seu sucessor. Se o resultado da consulta fosse positivo, serviria apenas como argumento em favor do referendo ante o Legislativo. Se o Congresso cedesse e o resultado do referendo fosse positivo, a Constituinte seria eleita no próximo governo e, mesmo que aprovasse a reeleição, Zelaya só poderia se candidatar em 2014.

Zelaya incorreu no artigo 239 da Constituição de 1982, que cassa o mandato e os direitos políticos, por dez anos, de quem propor reeleição.
O presidente não incorreu no artigo 239. Não propôs reeleição e sim um referendo sobre uma ampla Constituinte. Já Micheletti, deputado em 1985, propôs expressamente uma reforma constitucional para prorrogar o mandato do então presidente Roberto Suazo. Desistiu por pressão dos militares, mas nem ele nem Suazo foram punidos.

A deposição de Zelaya foi legal e regular.
Pelo artigo 313 da Constituição, a Suprema Corte tem jurisdição para processar e julgar o presidente, mas se cabia processo por abuso de autoridade por tentar rea-lizar uma pesquisa de opinião sem autorização legal, teria de ser dentro de procedimentos legais com direito de defesa e contraditório (art. 82). Não foi assim: na madrugada do domingo da consulta, os militares invadiram o palácio e expatriaram o presidente, o que é expressamente proibido pela Constituição (art. 102). A ordem de prisão apareceu depois do fato consumado, embora o procurador-geral e um dos juízes da Corte alegassem tê-la emitido e aprovado em segredo, na sexta-feira. Se fosse regular, deveria ser executa-da pela polícia, depois das 6 da manhã.”

Quer mais? Tem aqui.

“Se há uma coisa que a cidade sabe fazer é construir: um terço dos guindastes do mundo está aqui, a maioria deles diretamente em frente à minha janela no hotel. Tento contá-los, mas desisto no número 70. O mais alto ergue-se 1 quilômetro no ar, sobre o Burj Dubai, que já é o edifício mais alto do mundo, e ainda não está terminado. No mês que vem será inaugurado o maior shopping center do mundo, o Mall of Arabia, e pouco depois você poderá pousar no maior aeroporto do mundo, com seis pistas, e do tamanho da ilha de Hong Kong.”

Pode parecer um pouco de exagero, as condições são diferentes, o governo é diferente, mas isso que acontece em Dubai é o melhor exemplo da tendência que está tomando conta do mundo, incusive de Porto Alegre. Dubai é gigante, tem prédios enormes, é o capitalismo máximo no meio de um mundo muçulmano, com um governo autoritário. Mas o mais incrível é que tudo isso aconteceu de uma hora para outra. Em 30 anos, Dubai deixou de ser um deserto para virar uma metrópole, uma megalópole. Porto Alegre nao vai virar Dubai, mas está assumindo a mesma mentalidade. É isso que a gente quer? Esses prédios enormes anulam as pessoas, afastam, criam uma sociedade impessoal. Dubai atraiu o mundo inteiro para lá. As pessoas quase não falam mais árabe. Só se ouve o inglês. A cidade ganhou dinheiro com o turismo, mas e daí? As condições de vida são péssimas, a liberdade é mínima. Economia rica não é garantia de vida melhor.

O trecho entre aspas é da Carta Capital da semana passada. Não encontrei o texto no site, mas achei ele aqui e tenho a revista para quem quiser emprestado. Vale muito a pena. É a desmistificação de uma cidade emergente, fantástica até, exótica e que tanto chama a atenção. E melhor, a matéria foi feita por alguém que esteve lá (Carole Cadwalladr), que viveu Dubai por um tempo. Foi comprada do The Observer, e vale pela reflexão sobre o mundo. É grande. Na verdade é enorme, mas flui tri bem a leitura. É só tentar começar que vai até o fim.