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Quando os opostos não se atraem

25 maio, 2008

Minha prima Ester tem um ano e cinco meses e pesa 14 quilos. Ela é uma criança esperta pra idade, alta, mas normal, ainda bem. Já fala praticamente tudo, e não só por repetição, ela aprende mesmo. Caminha e corre sozinha de um lado pro outro. Ri à beça. Brinca. Bizunesh tem três anos e pesa menos de quatro quilos. Ela não fala, tem as pernas e os braços finos, compridos e dobrados, não caminha, pois não suporta o próprio peso. Seu desenvolvimento, segundo especialistas, está seriamente comprometido.

Os membros alongados e todas essas características encontradas em Bizunesh são sintomas de desnutrição. Ela mora na Etiópia, e sua mãe tem que pedir leite aos vizinhos para que a filha ainda consiga sobreviver. Em 1984, o mundo inteiro se comoveu com a fome no país de Bizunesh. Ela ainda não era nascida, seus pais deviam ser crianças. Talvez tenham passado por problema semelhante, não sei. Depois, quase não se falou mais nisso. Agora, em 2008, todos os continentes discutem de novo o aumento dos preços dos alimentos e a conseqüente fome dos mais pobres.

A Carta Capital publicou uma reportagem sobre a Islândia que mostra a receita de sucesso de um país aparentemente inóspito, e, com certeza, muito gelado. O ex-prefeito de Reykjavik, a capital, Dagur Eggertsson, resume a fórmula do sexto maior PIB per capita do mundo: “Minha tese é que, para a saúde de um país, mais importante do que não fumar e comer bem são os fenômenos sociais que enfatizamos aqui: igualdade, paz, democracia, água limpa, educação, energia renovável, direitos das mulheres”. (Aliás, vale dar uma olhada na reportagem, ainda indisponível no site.)

Por que duas situações tão distantes, sendo que a Islândia teria muito menos probabilidade de “dar certo”, em função do frio e da distância, do que países africanos? Falta alguém com uma visão progressista e igualitária para guiar os rumos desses países. Falta uma verdadeira distribuição de riqueza. Falta acabar com o colonialismo, implícito ou explícito. Na Islândia, nunca antes da Segunda Guerra Mundial alguém de fora se meteu. Isso a manteve longe da Igreja e longe de influências falsamente moralistas.

A Zero Hora trouxe essa semana a história de Bizunesh como uma ilustração. Mas serve também como um alerta, uma forma de talvez mudar alguma coisa, pois comove quem lê. Bizunesh talvez não chegue à idade adulta. Provavelmente, aliás. Se chegar, será uma pessoa deficiente. Ao contrário de muitas crianças nessa situação, ela não nasceu assim. Ela virou deficiente por causa da fome. Quem lê esse texto… Já sentiu fome algum dia? Eu não. Mas imagino que deve doer.

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One Comment leave one →
  1. 28 maio, 2008 18:28

    sobre o nazismo, é engraçado que aqui as pessoas dizem bem o contrário, especialmente os mais jovens. Aqui o pessoal mais novo acha que acabou ficando muito distante de tudo. Esses dias mesmo a gente estava discutindo se o livro “Mein Kampf” devia ser proibido ou não, e a maioria achava que não, que é importante poder ler sobre isso. Porque essa geração já não teve mais contato nenhum com a Guerra. Seus pais, se já tinham nascido naquela época, eram ainda crianças. Os avôs que se lembravam nunca falavam a respeito. Eles só cresceram com os restos das conseqüências e um sentimento de culpa – sem nem saber do que.
    Sobre as pessoas que acabaram sendo envolvidas por essa idéia insana, vi um filme muito bom hoje mesmo. Se chama “Die Brücke” (tradução literal – “A ponte”), do Bernhard Wicki. De repente tem no Goethe. Um filme fortíssimo mas que vale muito a pena para refletir sobre a falta completa de sentido daquelas pessoas.

    bejos!

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