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Vaidade

4 julho, 2008

“Na verdade eu tô pecando agora, porque eu tô orando de unhas pintadas. É como se não fizesse efeito.” Com apenas seis meses de vida muçulmana, ela já tem certeza da opção que fez. Se apaixonou por um muçulmano paquistanês e decidiu se converter. Agora faz aula todos os sábados à tarde. Pretende aprender também o árabe, não só a religião. Afinal, o idioma quase faz parte da crença, já que o Alcorão só tem valor em árabe, para os muçulmanos.

Ela ainda não casou. Como solteira, é ajudada pelo pessoal da mesquita. É de lá que tira os lenços e afins, coisas que o marido deve prover à esposa. Separa os lenços reserva na prateleira da sessão das mulheres, atrás do biombo, na sala do segundo andar do prédio da Dr. Flores. Ao lado da Losango, de frente pra Colombo. Com diversos traços do nosso mundo ocidental ao redor.

“Agora eu vou jejuar, obedecer o Ramadã. Vai ser meu primeiro ano.” É com um sorriso sincero de expectativa que ela diz isso. Uma certa excitação, talvez pela novidade disso tudo. Não parece ter medo das dificuldades a enfrentar. Talvez uma certa ingenuidade. Sim, com certeza. “O Islamismo parece muito rígido. Antes eu achava que os homens tratavam mal as mulheres. Agora eu sei que eles são muito respeitadores. Nos respeitam muito mesmo.” Aí vem uma certa dose de orgulho de um povo que não era seu, mas que ela vai aprendendo a incorporar na sua vida.

As mulheres não participam do ritual dos homens. Seu espaço é atrás do biombo feito de quatro placas de madeira verde clara. Ela não se sente excluída. Entende sem entender que seu espaço é separado, é de certa submissão. O lenço cobre a cabeça deixando só o rosto de fora. “A mulher tem que se preservar. O cabelo chama a atenção do homem.” Sua amiga chega de cabelos cobertos, mas veste justas calças jeans e All Star preto com ponta branca e listrinha vermelha, aquele tradicional. Tira para sentar no carpete, atrás do biombo.

Elas entendem, mas querem ver. Afinal, as mulheres também são curiosas. O que tem do outro lado? Elas já sabem de cor, mas não se cansam de espiar. Tudo, claro, pra satisfazer a curiosidade das estudantes que “vieram fazer uma pesquisa”. Mas o fato é que tudo que é proibido é mais gostoso. “Eles vão brigar se virem.” Mas já está lá abrindo uma fresta nos biombos. “Tu tem celular com câmera? Tira foto ali pela fresta.” O jeitinho brasileiro dentro da mesquita. A do All Star acha a fresta ainda muito pequena e puxa mais a placa de madeira.

Não podem pintar as unhas, mas pintam. Os olhos são bem maquiados, com delineador e rímel pretos. O rosto é uma das poucas partes do corpo que pode aparecer. O resto deve ficar escondido por preservação da mulher, pra não chamar a atenção do homem. Mas o que está à mostra é valorizado. O que é maquiagem senão uma tentativa de chamar a atenção. É contraditório. Mas afinal de contas, elas são muçulmanas, mas são mulheres. E vaidosas.

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