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Sujeira? Ou arte?

25 julho, 2008

“Na ansiedade promocional da Operação Cidade Limpa, em ano de eleição, a prefeitura de São Paulo higienizou um painel colorido pelo qual cidades cosmopolitas e democráticas estariam dispostas a pagar milhares de dólares.

Na confluência da avenida 23 de Maio com a malfadada Ligação Leste-Oeste, sumiu do mapa, quer dizer, do muro, o painel de quase 500 metros quadrados criado por um time de grafiteiros. Entre eles, aqueles Os Gêmeos que neste momento enfeitam, num mural de 20 metros de altura, a fachada da Tate Modern de Londres. Lá na Inglaterra, o mural da dupla brasileira é cultura; aqui, é sujeira.

Os Gêmeos – Otávio e Gustavo Pandolfo, de 34 anos, paulistanos do Cambuci – são cartão-postal na folclórica Coney Island, vizinha a Nova York, vestiram de cores o mais antigo castelo da Escócia, o de Kelburn, e foram badaladíssimos na última Art Basel de Miami. Uma tela deles, vendida em galeria, não sai por menos de 30 mil dólares. Aqui são confundidos com vândalos da periferia.

Cidade Limpa é a bandeira eleitoral do prefeito Gilberto Kassab, daquele PFL que, envergonhado, mudou de nome. Trata-se de intervenção de forte apelo publicitário. Ocupa o espaço cênico de um vazio de ações e idéias. O atentado não teria acontecido sem o aval do übersecretário Andrea Matarazzo, incansável em sua faina saneadora. Na Itália da pré-Renascença, teria mandado limpar os painéis de Giotto.

A tão elogiada Cidade Limpa é, portanto, mais do que mera maquiagem para a metrópole maltrapilha – é política cultural. Ninguém discorda da idéia de disciplinar a poluição visual de fachadas caóticas, mas, quando você começa a perseguir essa expressão tão contemporânea que é a street art, o que você está apagando é tudo o que for diferente do medíocre padrão da elite à qual você serve. Mesmo quando concebida por meninos brancos da classe média, como Os Gêmeos, street art ressoa a hip-hop, a linguagem de pobre, a protesto de excluído (de mais a mais, quem cedeu o espaço foi Marta Suplicy).

Show off para a turma do pedigree, promove-se uma faxina estética que, no fundo, é profilaxia social, homogeneizando muros e fachadas mesmo que tenha de passar uma demão por cima do talento de artistas como Os Gêmeos, Kobra, Nunca, Herbert. A graça das metrópoles é a sua diversidade pulsante. Nova York, Times Square, por exemplo. Com sua frenética efusão de néons, não tem nenhum pudor em parecer – como escreveu o filósofo Marshall Berman (em On the Town) – “a luminosa encruzilhada do mundo”. Se Times Square estivesse em São Paulo, a Cidade Limpa iria apagar todas as suas luzes e toda a sua alegria. Os Gêmeos são apenas involuntárias testemunhas das trevas.”

Por Niralndo Beirão, Carta Capital, 23 de julho de 2008

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