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A gênese das bicicletas

30 julho, 2008

“Quando o homem conseguiu colocar pedais em seu próprio equipamento, inventou a bicicleta. Não fez nada mais que isso, pois nem sequer as rodas eram indispensáveis. As rodas já existiam, em alguma parte do mundo, à espera de que os homens aprendessem a mover os pés no ar, enquanto descansavam comodamente sentados em seu centro de gravidade. O selim? Não. Tampouco era indispensável o selim. Foi inventado mais tarde, quando se descobriu que era necessário proteger o centro da gravidade da fricção contínua. Logo surgiu o guidom. O homem poderia existir indefinidamente sem ele, porque a terra era redonda e teria podido dirigir-se a qualquer lugar apenas mantendo a direção inicial. Mas quando surgiu um homem que quebrou a cabeça para inventar a bicicleta, houve outro que quebrou a sua para inventar as esquinas. E então o guidom se tornou necessário, indispensável.

Uma vez que o homem descobriu o profundo senso locomotor de seu equilíbrio, tinha ganhado já a primeira batalha contra o tempo e o espaço e havia descoberto um novo sistema para driblar a morte. Mas não se contentou com isso. E o grave começou precisamente quando essa inconformidade sofreu sua crise e o que a princípio foi uma simples diversão converteu-se em válvula de escape para sua vaidade. Foi então quando Adão atravessou o paraíso sentado sobre uma idéia, movendo os pés para fazer girar um pedal metafísico, e Eva não pôde compreender racionalmente o princípio físico de que se serviu seu companheiro para se deslocar no espaço sem tocar o chão. Várias vezes esforçou-se Adão para conseguir que Eva desse um salto no ar, já com uma noção precisa de seu centro de gravidade, e passear pela grama dos caminhos do paraíso terrestre, sentada a meio metro de altura. O trágico episódio da maçã pôs fim à experiência, mas a idéia sobreviveu e foi sendo transmitida de geração a geração, até o instante em que alguma mulher conseguiu convencer seu marido de que toda idéia prática que aceitasse o clima do cérebro humano era suscetível de ser montada sobre um parafuso. E o marido obedeceu. E subiu ao ar e marcou no espaço um ponto em torno do qual poderiam girar seus pés sem grande esforço. E ali colocou o primeiro parafuso.

Desde logo o que se seguiu foi uma conseqüência lógica, visto que já existia um ponto de referência para continuar dando à idéia primitiva uma qualidade ponderável. No entanto, quando aquela laboriosa atividade foi concluída, a mulher ainda não era capaz de desfrutar as vantagens do novo invento, pela razão elementar de que, não tendo concebido a sua noção, para ela o instrumento era inútil. A engrenagem metálica, as rodas e o selim continuariam sendo tão inoperantes como o eram antes de existir enquanto a mulher não compreendesse que aquilo não era realmente um veículo, mas simplesmente uma idéia projetada no espaço para facilitar sua compreensão. E como o tempo passou e com o tempo a paciência do homem para conseguir que sua mulher aprendesse a aproveitar as inumeráveis vantagens do centro de gravidade, o diligente inventor tomou uma nova iniciativa. Se a mulher não conseguia sentar-se sobre seu próprio equilíbrio, só restava um recurso; sentar simultaneamente a mulher e o equilíbrio. E assim nasceu o triciclo.

Mais tarde o novo objeto tornou-se tão elementar que se converteu numa diversão para as crianças. A mulher sentiu-se envergonhada e fez novos esforços para aprender a manobrar a bicicleta. Mas outra vez, e quem sabe para sempre, foram inúteis todos os seus esforços. Ao homem só restava uma esperança; saber se seu equilíbrio era indivisível, pessoal e intransferível. E quando descobriu que não o era, seu problema ficou momentaneamente resolvido, porque havia conseguido que a mulher não se sentasse sobre seu próprio centro de gravidade, mas no centro de gravidade do homem. E estava inventada a bicicleta de dois lugares.

E assim, de descobrimento em descobrimento, a mentalidade humana foi evoluindo, projetando-se até novas formas de vida, até quando os mortais, cansados de pedalar pelo mundo, conseguiram desvincular a bicicleta do movimento. E inventaram a cadeira.”

Gabriel García Marquez, junho de 1950, tirado de Textos Caribenhos, o primeiro livro da sua obra jornalística

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One Comment leave one →
  1. Isma permalink
    5 agosto, 2008 06:32

    Isso me fez lembrar que eu ainda tenho um dos livros da obra jornalística dele esquecido no meu armário.

    Tirá-lo-ei de lá.

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