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Falta de ética

15 novembro, 2008

Imagina que tu tens uma casa há muitos e muitos anos. Ela já é quase parte da família. Aí um dia tu decides vendê-la, porque tiveste quadrigêmeos e precisas de mais quartos, mas não podes construir mais um andar, ali é proibido. Tu fazes uma pesquisa de mercado e descobre que ela vale 10 mil reais. Pões à venda e, depois de um tempinho, ela é comprada por esse preço. Alguns meses depois, um amigo do novo dono da tua casa propõe uma lei que permita construir mais ali. A lei é aprovada e o cara constrói uma casa de três andares e aluga os quartos. Ganha uma grana. E agora, por causa da nova lei, o terreno vale 100 mil. Agora imagina essa situação em proporções bem maiores.

Pois é, teu dinheiro está sendo desviado, caro contribuinte, mas de uma forma legal. A notícia já é meio velha, mas, dois dias atrás, foi aprovado na Câmara de Vereadores um projeto de lei pra lá de sacana. Em 2005, a área do antigo Estaleiro Só, na orla do Guaíba, foi vendida por 7 milhões de reais para o grupo SVB Participações, uma ninharia para o tamanho do lugar e pela sua localização. Inicialmente, não havia interessados em comprar a área porque ali não se podia construir nada muito grande, era proibido por lei. Era espaço público, tinha que construir para todos. Afinal, construir ali para poucos é como vender o pôr-do-sol.

Depois de adiar várias vezes por causa das eleições (podia pegar mal, né), essa semana, pois, foi aprovado o tal projeto. Ele permite que se construa. E não só, já tem até projeto pra construir ali, há muito tempo. São cinco prédios de 12 andares, com garagem e o escambau. Até marina tem, com espaço para estacionar o barco de cada morador do novo empreendimento. A região está sendo valorizada por conta do shopping Barra Sul ainda por cima. Toda a Zona Sul está valorizando. Foi construído o Museu Iberê Camargo, tem vários fatores melhorando o preço dos imóveis por ali. Os prédios vão ser de alto luxo, com uma vista panorâmica para o cartão postal de Porto Alegre. Imagina quanto não vai custar cada apartamento e qual não vai ser o lucro dessa construtora. Eu ouvi alguma coisa em torno de 20 milhões, mas aí acho um pouco de exagero. Mas pelo menos um milhão de reais eles tiram em cada apartamento. Se venderem sete, pagam o terreno. Está prevista a construção de 220, mais um hotel com 200 quartos, um píer e uma extensa área comercial.

Esqueçamos por um momento a questão ambiental, o direito de exclusividade que alguns poucos ricos terão sobre o pôr-do-sol, a questão urbana (todos importantíssimos, evidentemente, mas já tratados em outro post). Nos detenhamos a uma questão: é ético? Sinceramente, não consigo enxergar onde está a ética dos vereadores que votaram a favor disso. É uma forma de corrupção legal, pois põe no lixo dinheiro público.

Quem votou a favor:

Alceu Brasinha (PTB)
Almerindo Filho (PTB)
Bernardino Vendruscolo (PMDB)
Dr. Goulart (PTB)
Elias Vidal (PPS)
Ervino Besson (PDT)
Haroldo de Souza (PMDB)
João Carlos Nedel (PP)
João Antônio Dib (PP)
João Bosco Vaz (PDT)
José Ismael Heinen (DEM)
Luiz Braz (PSDB)
Maria Luiza (PTB)
Maristela Meneghetti (DEM)
Maurício Dziedricki (PTB)
Mauro Zacher (PDT)
Nereu D´Avila (PDT)
Nilo Santos (PTB)
Sebastião Melo (PMDB)
Valdir Caetano (PR)

Declarações de alguns deles, retiradas do blog RS Urgente (comentários meus):

Luiz Braz (PSDB)

“Para mim, tanto fez como tanto faz.”

Elias Vidal (PPS)

“Futuras gerações? Eu quero é para mim e agora”.
“Ecologia o caramba”.
“Essa empresa vem com responsabilidade para Porto Alegre devolver a orla para nós”.
[nós quem, cara pálida?]

Brasinha (PTB)

“Eu queria que tivesse mais três, quatro pontal do estaleiro.” [ganhava mais dinheiro, né?]
“Eu votava duas vezes esse projeto”. [duas vezes mais dinheiro]
“Eles ali (os empresários) querem o crescimento. Vocês não querem?” [dos empresários? não, obrigada.]

Haroldo de Souza (PMDB)

“Machuca o meu coração quando levanta alguma suspeita de que pode estar correndo dinheiro por este projeto”. [o coração e o bolso]
“Esse é o momento mais sublime da vida do vereador”.
“Vai mostrar esse dinheiro para o teu pai”.

José Ismael Heinen (DEM)

“A iniciativa privada, auto-sustentável, vai trazer riqueza para nós”. [nós quem, cara pálida?]

“Chega do Império do Público.” [claro, ganhando dinheiro, é melhor o privado mesmo]
“De repente, nossos filhos universitários tenham que continuar indo aos Estados Unidos encontrar oportunidades”.

Nereu D’Avila (PDT)

“Presidente, os mal educados têm que se retirar”. [tenha a bondade, vereador]
“Essa casa aqui não é circo”. [até onde eu sei, é a casa do povo, certo? não é ali que tem que se defender os interesses do povo? ah tá.]
“Nós somos vereadores e temos o direito de usar a tribuna em silêncio”. [nesse caso, seria bem mais produtivo mesmo]

Nilo Santos (PTB)

“Reclamam que não se poderá ver o Guaíba, mas há uma via de 20 metros para o carro passar”. [aaaah, bom, agora sim.]

João Antônio Dib (PP)

“Não vai acontecer outra construção na orla do Guaíba”. [pra quê? essa já vai acabar com a vista mesmo.]
”Eu não quero ver aquilo virar outra vila do Chocolatão.” [melhor ficar bonito, bem rico, brilhando, mas pra bem poucos, né?]

Dr. Goulart (PTB)

“Aqui tá o Iberê no meio da selva.” (mostrando foto do museu)
“Quem manda aqui é o vereador, não é a Justiça.”
[obrigada por avisar]
“A Justiça é para trabalhar com criminoso, não com vereador.” [ué, achei que fosse a mesma coisa]
“Quem decide altura de prédio é vereador.”

Quem votou contra:

Adeli Sell (PT)
Aldacir Oliboni (PT)
Beto Moesch (PP)
Carlos Todeschini (PT)
Cláudio Sebenelo (PSDB)
Dr. Raul (PMDB)
Guilherme Barbosa (PT)
José Valdir (PT)
Marcelo Danéris (PT)
Margarete Moraes (PT)
Maria Celeste (PT)
Mauro Pinheiro (PT)
Neuza Canabarro (PDT)
Professor Garcia (PMDB)

Abstenções:

Elói Guimarães (PTB)
Maristela Maffei (PCdoB)

Do site do Jornal Já, um resumo do projeto, pronto há muito tempo:

“O empreendimento, estimado em R$ 130 milhões, prevê a construção de cinco edifícios residenciais de 12 andares (220 apartamentos e uma área de 32.160 mil metros quadrados), um hotel com 200 apartamentos e centro de convenções, estacionamento com 1.449 vagas, prédios para escritórios e consultórios, uma marina, um píer para embarcações turísticas, uma esplanada pública de lazer e espaço para bares, restaurantes, lancherias e danceteria.”

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2 Comentários leave one →
  1. Angelo Tedeschi permalink
    18 novembro, 2008 16:18

    1.Quem comprou sabia que a legislação não permitia imóveis residencias naquela faixa.
    2.Quando o PT retirou a vila Cai-cai daquela área, ninguém achou ruim – mas eram residências.
    3.Aquela vila estava instalada em área particular – mas, daí ninguém chama de Petralhas os que tiraram a vila dali.
    4.Pagaram uma bagatela (R$7 milhões) por aquela área porque ninguém quis entrar no leilão porque ali não pode construir residências (nem casas e nem torres com mais de 200 apartamentos).
    5.O impacto ambiental de uma casa é muito superior a um conjunto comercial.
    6.Quem cmprou, por certo, contava com uma alteração na lei.
    7.Alteração na lei somente passando pela Câmara de Vereadores.
    8.Revitalizar a orla não se pode fazer colocando concreto, aço e tijolo.
    9.A área estava virando lixão porque a massa falida não mantinha limpa como é de sua responsabilidade.
    10.Porque a Prefeitura não exigia a limpeza do local como faz com quem tem um terreno baldio.
    11.Uma hipótese: depois de fazer o urbanismo na área, quem me garante que o acesso público será permanente?
    12.O Parque Germânia (próximo ao Iguatemi) era para ter acesso público permanente, mas não tem.
    13.A Prefeitura do PT não desapropriou a área por que em Porto Alegre tem muita coisa mais importante para se colocar o dinheiro. Ex. arrumar o Araújo Viana.
    14.Depois de construir os 6 blocos naquele ponto (a jóia da coroa), abre-se a brecha legal para que o mesmo se faça no resto da orla.
    15.A Câmara de Vereadores e a população já rechaçou a privatização da orla junto ao Parque Marinha do Brasil durante o governo municipal de Alceu Collares.
    16.quando o PT “limpou” aquela área era para que a população, um dia pudesse ter acesso àquele local.
    17.Depois de construir as 6 torres, quem me garante que a população terá acesso irrestrito.
    18.Quem garantirá que os marajás-moradores não poderão, por pressão, fazer com que a Prefeitura libere o cercamento da área?
    19.Se era para autorizar a construção na orla, porque então a Justiça autorizou a Prefeitura a retirar os bares da orla de Ipanema?
    20.Estão, sim, privatizando a orla do Guaíba e, consequentemente, o pôr-do-Sol que, em breve, será apenas para alguns poucos usufruírem.
    21.Alguns vereadores – principalmente os mais ferrenhos defensores do projeto – estão demais irritados com a proposta de se abrir o sigilo bancário, telefônico e fiscal de si e de seus familiares (para evitar corrupção mascarada). Porquê?
    22.O esgoto das torres será tratado onde? Em Ipanema?
    23.Fala-se muito que em outros países existem projetos “arrojaods, dinâmicos e modernos como este na beira-mar, rio, lago”…ora, chega de tupiniquismo… chega de querer imitar o que há no exterior…
    24.Outros países não tem a consciência ecológica que devemos ter.
    25.Outros países adorariam ter a quantidade de área verde que temos.
    26.Outros países destruíram suas “vidas” colocando concreto onde deveria ter um parque, uma praça, um jardim.
    27.Qualquer um faz um prédio de concreto – qualquer engenheirinho coloca um tijolo onde deveria ter uma árvore – mas, são estes “qualquer” que estão acabando com o planeta.
    28.Dinheiro é bom, progresso, também, mas, para gozá-los, precisamos estar vivos.
    29.Tenho 49 anos de idade e lembro bem como era o centro de Porto Alegre com seus prédios históricos.
    30.Estive em Paris, Madri e Lisboa – lá, seus moradores cultuam suas histórias e seus passados.
    31.Fico imaginando alguém propor a demolição do Forte de Belém, em Lisboa, para colocar ali um shopping?
    32.Fico imaginando alguém propor a demolição das Termas de Caracala ou o Círculo Máximo, em Roma, para colocar no lugar um supermercado ou estacionamento.
    33.Fico imaginando alguém propro a demolição da Catedral de Sacre Coeur para contruir no lugar um hotel moderníssimo.
    34.Devemos copiar o quê os estrangeiros fazem de certo.
    35.Aqui, pelo visto, tudo pode.
    36.Gostaria de ver o Costão do Santinho com praias mais acessíveis a todos.
    37.Praia Mole em Florianópolis ônibus não entra.
    38.O patrimônio público tem de continuar público.
    39.A área onde se instalou o Estaleiro Só era pública e foi DOADA pelo poder público na época – uma benesse que somente trouxe benefícios para seus proprietários e para seus trabalhadores… já que o Estaleiro estava instalado em uma área que antes era pública, porque não devolvê-la ao poder público na medida em quê o Estaleiro não mais existe?!?!? O Estaleiro não existe mais, então, a família que dele se beneficiava, poderia devolvê-la…. eis uma questão ética.
    40.A área é privada mas o destino deverá ser público, já que público já fora anteriormente. Proponho um plebiscito para resolver tal problema.

  2. poavive permalink
    19 novembro, 2008 01:56

    Assinem e espalhem o abaixo-assinado em DEFESA da Orla do Guaíba:
    http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/1571

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