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Os mini

1 dezembro, 2008

E aí, qual dos dois está melhor? Esses mini-perfis foram escritos para uma revista da faculdade, a Sextante, mas, por uma série de problemas, eles não entraram. Nem os meus nem os de ninguém que escreveu. É uma pena, porque eu gostei da maioria. Mas então, os dois aí embaixo são sobre a mesma pessoa. Escrevi um, não gostei e, tempos depois, escrevi outro, sem nem ler o primeiro de novo. Resolvi postar o que iria pra revista aqui, mas no meio do caminho achei o antigo. Não sei mais qual eu prefiro, então os dois vieram parar aqui. Não vou contar qual eu escrevi primeiro e qual eu escrevi depois. Os títulos foram feitos agora, e sou péssima nisso, não reparem. Espero que gostem:

O “louco”20081001-mini-perfil-0032

Aquela voz alta e grave faz parar no chão uma meia dúzia de pares de pés. Os olhos que pertencem àqueles corpos estacados observam a cena inertes. As bocas estão entreabertas e um sorriso de leve marca o canto de cada uma delas. É como se pensassem “O que esse louco está dizendo?”. Poderia jurar que pensam isso, sim. O “louco” em questão solta aquela voz que grita “Jesus disse: ‘Eu sou, e além de mim não há outro’”. Grita mesmo, a ponto de chamar a atenção no meio da Rua da Praia, na muvuca de vozes e passos.

Paulo Roberto Flores tem um sorriso alegre, um corpo forte e negro de não mais que um e setenta e uns 60 anos, talvez. Desses, 22 foram dedicados à igreja bordada no alto do lado direito do jaleco branco que ele veste: “Igreja Pentecostal Deus é Amor”. Está ali distribuindo panfletos que pregam a salvação através de Deus e buscando novos fiéis para sua fé evangélica. Em um discurso decorado, explica bem rápido que entrou para a igreja para se livrar “das drogas, do vício, das más companhias, da mentira, do cinema e dos carnavais”.

——

Motivos

“Jesus disse: ‘Eu sou, e além de mim não há outro’.” Ele gritava essa frase e tantas outras do mesmo gênero. As pessoas andavam apressadas pela Rua da Praia, mas muitas paravam e viravam para olhar, como se pensassem “o que este louco está fazendo?”. Alguns até esboçavam um sorrisinho irônico, daqueles de quem vê um outro alguém de linhagem inferior, que só merece pena. Mas ele não estava nem aí. Mandava sua mensagem com a boca aberta, os poucos dentes à mostra em um sorriso franco, com a felicidade de quem acredita piamente no que diz. A vida é fácil, é simples.

Ele é Paulo Roberto Flores, negro, não mais que um e setenta, rechonchudo mas não gordo. Usa uma espécie de jaleco, parecido com aqueles de médico. Mas no seu está escrito “Igreja Pentecostal Deus é Amor”. É evangélico há 22 anos. O porquê está na ponta da língua: “para me livrar das drogas, do vício, das más companhias, do cinema, da mentira e dos carnavais”. Os motivos saem como que decorados há muito tempo. Talvez sejam mesmo.

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2 Comentários leave one →
  1. Alexandre Haubrich permalink
    1 dezembro, 2008 18:05

    Ah, sem dúvida o primeiro. Belíssimo texto. Essa é a minha namorada, minha orgulhona!
    😀

  2. 1 dezembro, 2008 20:47

    O segundo, de longe.

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