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Experiência pessoal de um jornalista perseguido pela repressão na América Latina

13 dezembro, 2008

Hoje, três dias depois do aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, tem um outro acontecimento fazendo anos. Dessa vez um que contradiz a Declaração. Hoje faz 40 anos que o presidente Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5. A partir de 13 de dezembro de 1968, muito mais gente foi torturada, muito mais gente morreu, outras tantas pessoas tiveram que sair do país, os jornais foram mais duramente censurados. Enquanto isso, a classe média curtia o “milagre econômico”. A que custo! O jornalista Flávio Tavares estava lá. Tinha pouco mais de 30 anos e foi censurado, preso, torturado, exilado. No livro “Direitos Humanos: um desafio à comunicação”, organizado pela União Cristão Brasileira de Comunicação Social, ele descreve o período da ditadura, a vida dele nessa época, tudo por que ele passou. O texto é grande, fala da censura sofrida pelos jornalistas, do exílio, a impressão sobre o que estava acontecendo nos outros países, tudo. Eu selecionei apenas os trechos ligados mais diretamente ao AI-5. Vale a pena dar uma lida pra enxergar, pelos olhos de quem viveu o período, como foi a repressão.

“Acho que ao jornalista cabe, mais do que tudo, dar testemunho. O jornalista não faz esforço, não faz palestra, não dá preleção. A missão jornalística é evangélica: ela só pode nascer e desembocar no testemunho, pois, fora dele, nós acabamos neste sistema em que vivemos, sendo unicamente ponte e massa de manobra do sistema dominante. E é isso que venho fazer: dar-lhes meu testemunho de jornalista militante, perseguido, preso, procurado, exilado e anistiado.

(…)

Para muitos outros [os jornalistas que não se acomodaram depois do golpe], no entanto, 64 foi uma bofetada. Eu tinha, em 64, menos de 30 anos, ou melhor, estava fazendo 30 anos quando houve o golpe. (…) Comecei a sentir o que era o golpe de 64 quando me proibiram de dar uma notícia na minha coluna, da ‘Última Hora’, no Rio de Janeiro. (…) Lembro-me, em seguida, de que veio um outro telefonema do Ministro da Guerra. Eu estava impedido de escrever a expressão ‘Movimento de 1º de abril’, com a qual eu caracterizava a quartelada de 1º de abril de 1964. E me sugeriam, ingenuamente, mas com muita lucidez do ponto de vista deles, que eu deveria escrever ‘Revolução de 31 de março’. Minha ingenuidade começou a se romper e a se quebrar aí.

(…)

O sistema fez uma escalada. Foi o oposto do que aconteceu no Chile, como disse o companheiro Richard. No Chile, aquela bofetada foi imensa: campo de concentração, estádio nacional cheio, assassinatos. Aqui, não! O sistema começou envergonhado em 64, tinha muita vergonha em reprimir. Minha primeira detenção (tive três no Brasil) foi no dia 3 ou 4 de maio de 1964, ou seja, um mês depois do golpe militar. Fiquei detido 72 horas e houve, depois, até um pedido de desculpa oficial, pela Voz do Brasil, pelo lamentável equívoco que havia sido minha prisão. Em 1967 fui preso novamente. Fiquei os primeiros três dias e três noites sendo interrogado continuamente, sem dormir, por equipes diferentes em Brasília. Depois, fiquei preso mais sete meses e meio. E o Supremo Tribunal Federal, ao final, deu-me o habeas corpus e mandou libertar-me. Em 1969, depois da avalanche do Ato nº 5, fui preso de forma muito diferente. Em 1967,  eu pensei que tinha sido torturado, mas não! Fui conhecer a tortura em 1969. Comecei a ser torturado dentro do automóvel, dentro do táxi em que fui preso. O meu peito se transformou em conzeiro e aí apagaram, pela primeira vez, o cigarro no meu peito.

(…)

[Depois da prisão em 1967] fui para o Rio de Janeiro e voltei ao jornalismo, até que veio aquela avalanche brutal e definitiva do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968. Aí sim, companheiros, foi a ruptura total. Deixou de haver qualquer razão para continuarmos no jornalismo. O Ato Institucional dava poderes tais que censurava, inclusive, a previsão do tempo.

(…)

Mas na luta armada, feita em 1969 novamente, com todos aqueles erros que havíamos cometido em 1967, todos nós acabamos na prisão. Aí é que fui conhecer o que era tortura neste País. Comecei (…) a apanhar dentro do táxi. Levaram-me de minha casa ao quartel da Polícia do Exército no Rio de Janeiro. Já no corredor do pátio da Polícia do Exército comecei a levar pontapés do soldado, que era obrigado a dá-los. Entrei no pelotão de investigações criminais e fui direto para o choque elétrico. Havia, até então, ouvido falar no assunto. Até escrevi sobre isso para nossas publicações clandestinas mas, com toda sinceridade, não acreditava muito na brutalidade do choque. Só quando caí na primeira descarga é que fui ver quanto eu e todos nós havíamos sido ingênuos e, sob certos aspectos, até desinformados. Tudo aquilo que havíamos escrito – com uma cor pura – era, na realidade, muito pior do que qualquer descrição.

Eu me lembro de que em 1969, todos nós, no Rio de Janeiro, e todos nossos companheiros em Porto Alegre, em São Paulo e no Nordeste, estávamos em disponibilidade de sermos presos. Achávamos que ser preso era até uma boa ação, um gesto romântico. Nenhum de nós sabia realmente o que era a repressão, mesmo os que, como eu, tinham tido duas prisões anteriores. Mas o golpe militar havia feito a sua escalada. Começou tênue, envergonhado de si próprio, até chegar à situação do governo Médici. Trinta dias depois da minha prisão em 69, já não tinha mais movimento no braço direito: não podia nem assinar os meus depoimentos, pois o choque elétrico o imobilizara. Sentia na boca um gosto de fio de cobre, estava com as gengivas inchadas e falava com dificuldade.”

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