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Ateísmo

20 julho, 2009

ateuTenho pensado um pouco sobre esse negócio da ateísmo. Bom, o assunto não surgiu do nada assim, por iniciativa dos meus próprios pensamentos. Na verdade já faz muito tempo que ele aparece de vez em quando, mas agora resolvi escrever por conta desse texto que eu li semana passada. Não concordo com tudo que está ali, mas algumas ideias dá pra aproveitar. O que me motivou a atualizar esse blog, na verdade, foi a coisa da moralidade. Ou melhor, a forma com que as pessoas veem a moralidade dos ateus.

Não sei exatamente o termo mais correto pra se utilizar nesse momento. Me parece que os ateus, assim como os comunistas – que muitas vezes são a mesma pessoa, já que são ideias que me parecem complementares -, são vistos como amorais. Nesse texto que me despertou mais uma vez para o assunto, é citada uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo que eu não achei no site deles, mas ela parece fazer sentido. Diz lá que os ateus são o grupo mais discriminado socialmente. Os ateus, ainda segundo o texto, são os menos votados em eleições. Na verdade, os mais rejeitados. “Se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar”, diz o autor do texto, Rafael Galvão.

Sempre me intrigou aquelas pessoas que acreditam que a outra é pelo menos um pouco boa, afinal, é tão religiosa. Ou que alguém que não tem fé em um deus qualquer não é capaz de atos de humanidade porque, bem, porque não acredita em um deus qualquer. Respeito as crenças, quase todas – menos aquelas que humilham, enganam com fins mais escusos, como conseguir dinheiro de gente pobre -, respeito mesmo. Acho que muitas vezes a religião pode servir como um apoio, uma forma mais fácil de enxergar a vida, e não acho errado buscar um jeito mais fácil de fazer as coisas. Só não consigo acreditar nesses deuses que são tantos por aí, cada qual com sua legião de apóstolos, seguidores, santos e o escambau, simplesmente porque não faz sentido, não tem lógica. (Se bem que às vezes quase desisto da coisa pra não ter que dizer que sou atéia – eita palavra mais feia!) Mas acredito profundamente na humanidade. Acredito que os homens são em essência bons e que pode sair muita coisa boa ainda, que a gente pode melhorar, pode arrumar as coisas erradas. Não é tão difícil assim. Basta ter um pouco de solidariedade.

Essa palavra… solidariedade. Ela me marcou hoje. E aí vai mais uma motivação pra eu vir escrever esse post. Li hoje à tarde uma matéria na edição desse mês da Brasileiros. Era sobre um jornalista comunista inglês, Peter Godfrey, que veio ao Brasil e queria muito entrevistar o grande Oscar Niemeyer. Dizia lá na matéria que é de Hugo Chávez a afirmação de que Fidel Castro e Niemeyer são os dois últimos comunistas do mundo. No auge dos seus 102 anos, ele continua comunista. Pois bem, o jornalista inglês também se diz um, e há tantos outros por aí – alguns de meia tigela -, mas isso não vem ao caso agora.

Não quero criar uma falsa relação entre comunismo e ateísmo. Mas não dá pra negar que essas duas… hmm… ideologias (?) estão interligadas. A maioria dos comunistas que se vê por aí – não só hoje, mas na história, é atéia. Não digo todos porque há exceções, mas elas chegam a ser estranhas, como se uma coisa não combinasse com a outra. E o comunista também recebe esse olhar crítico, o mesmo destinado ao ateu, e possivelmente pelo mesmo motivo. É a mesma visão de amoralidade (ou imoralidade, nesse caso?). Comunista não é aquele que come criancinha?

Niemeyer construiu umas quantas igrejas, capelas, catedrais, até mesquita ele já projetou. Mas não acredita em nenhuma dessas crenças, simplesmente porque não faz sentido. Ainda assim, constrói as igrejas com um certo carinho, pensando na sua família tão católica, respeitando. Ele conta, em uma das perguntas da entrevista que o repórter de Brasileiros, Eduardo Rascov, e o repórter inglês conseguiram fazer, que uma vez um jornalista do Pasquim lhe perguntou qual palavra ele prefere e ele respondeu “solidariedade”. O texto da Brasileiros termina assim: “Ainda em São Paulo, quando perguntei a Peter Godfrey qual a razão dele permanecer comunista, ele me respondeu com uma palavra: “Solidariedade”. Agora sei o que via desde o início fora de lugar nele. É a solidariedade, algo raro hoje em dia”. Realmente.

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6 Comentários leave one →
  1. Luciano Viegas permalink
    25 julho, 2009 21:01

    Foi engraçado o dia que eu coloquei na ficha de inscrição da escola, no quesito de orientação religiosa: ateu.
    Depois que minha mãe ficou sabendo ela veio toda apavorada. Depois de 20 minutos voltou rindo. Provavelmente se deu conta de que estava sendo preconceituosa.

    Mas depois de tanta confusão em minha pobre mente juvenil, hoje me denomino Deísta.

  2. Eduardo Rascov permalink
    23 outubro, 2010 09:40

    Queria dizer que seu texto me tocou ali na região dos afetos. Só pelos seus comentários, já valeu a pena ter escrito a matéria. Devo também dizer que concordo com tudo o que você escreveu. Se eu for me perguntar como me vejo nesse assunto, acho que diria que sou um “agnóstico humanista” que entende a necessidade humana de criar e se apegar às religiões. Está longe o tempo em que os homens vão prescindir delas. Talvez para isso precisem, antes, ter uma vida em comum, ter as coisas feitas pelo homem em comum, viver numa grande comunidade global num tempo pós-capitalismo – ou seja, serem comunistas…
    um abraço e obrigado por sua reflexão,
    Eduardo Rascov

  3. Aline permalink
    27 agosto, 2011 22:57

    Gostei do post
    meu pai se diz ateu, na vdd, ele é um cara que duvida, ele filosofa, pensa, pensa no sentido das coisas, e percebe que nada faz sentido, nem com Deus nem sem Deus, e fica assim, ora diz que Deus existe, ora diz que não acredita em nada. Mas nunca vi pessoa mais honesta e correta que ele. Tem seus defeitos, claro, como toda pessoa.
    Quanto ao comunismo, bem, sou cristã e ainda assim concordo com o ideal comunista, não entendo porque acreditar que exista algo depois da morte seja antagônico a esses ideais. Bem, fé cega pode até ser que seja, mas assim como meu pai, eu penso. Não dá pra negar os fatos científicos, sociais e econômicos só porque um cara desdentado escreveu coisas mais de 2mil anos atras em um livro dizendo ser verdadeiro e sagrado.
    Sabe, os ateus e as pessoas que estudam a mesma doutrina que eu vivem muito preconceito no dia a dia, isso me deixa muito indignada. a presença da religiao no Estado também, isso não funciona. A religiosidade com certeza tem função moral na vida das pessoas, mas a moralidade é independente da religião, assim como as leis.

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