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Jornalismo e universidade

2 outubro, 2009

Escrevi uma parte desse texto para o Congresso de Estudantes do DCE da UFRGS, que acontece hoje e amanhã (2 e 3 de outubro). Por isso ele é um pouquinho mais formal. A discussão sobre o assunto é sempre válida.

jornalismo_i3A Universidade pública reflete as distorções da sociedade. Não há espaço para pobres, negros, índios porque eles não têm acesso a uma educação de qualidade. Uma das funções de educação na sociedade é a comunicação, que deveria servir como um instrumento de democratização. A mídia brasileira cumpre com um papel de manutenção de privilégios, que faz com que os pobres continuem pobres e sem acesso à educação de qualidade. Sem educação básica, não chegam ao ensino superior e continuam sem acesso aos veículos de comunicação, sem voz. Cria-se um ciclo.

Cinco famílias dominam os meios de comunicação no Brasil. Nos anos 90 eram nove, o que demonstra que a comunicação está cada vez mais concentrada. As famílias eram Abravanel (SBT), Bloch (Manchete), Civita (Abril), Frias (Folha), Levy (Gazeta), Marinho (Globo), Mesquita (O Estado de S.Paulo), Nascimento Brito (Jornal do Brasil) e Saad (Band). Hoje as famílias Bloch, Levy, Nascimento Brito e Mesquita já não exercem mais o controle sobre seus antigos veículos. Quatro grandes jornais (que pertencem a esses grupos) são os principais definidores da agenda de discussões: O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo. A existência desse oligopólio impede que haja pluralidade de opiniões e faz com que a imprensa se constitua, na sociedade capitalista, como um espaço privilegiado da burguesia.

Assim, a sociedade é duplamente afetada. Primeiro, por não poder dizer o que pensa, já que não tem acesso aos meios de comunicação. Segundo, por receber um conteúdo parcial através dos veículos de imprensa. Afinal, a verdade dos fatos é sempre uma versão, e os veículos que concentram a comunicação transmitem todos a mesma versão. Em função dessa concentração e da dependência das fontes oficiais, o leitor tem acesso a uma ideologia apenas, a burguesa. Assim, o direito à comunicação é violado. E, com ele, a democracia.

As notícias todas iguais criam uma aparência de imparcialidade, que leva a uma despolitização e desideologização. Cria uma ideia de que os conflitos de classe não existem, ao mesmo tempo em que afasta os mais pobres da notícia. Eles não têm representatividade como segmento social dentro da ideologia de mercado que toma conta dos meios de comunicação. E assim, vai-se mantendo tudo como está, reforçando os preconceitos e aumentando a desigualdade.

Por isso, é preciso aproveitar o espaço da universidade para discutir a comunicação que temos e a comunicação que queremos. É possível fazer um jornalismo inclusivo, que cumpra com a sua função social de defesa da democracia e foque o interesse público.

Só que isso é impossível de ser feito quando jornalismo está misturado dentro da universidade com os outros cursos de Comunicação Social. Falei sobre isso em um post no Jornalismo B, no qual defendi que essa mistura esvazia o jornalismo de seu conteúdo social, que é a base da profissão. O interesse público é seu objetivo primeiro. A função social é seu norte. Ou deveria ser. A despolitização do curso provocada por essa junção forma profissionais de acordo com as exigências do mercado, não da sociedade. Forma jornalistas de acordo com o perfil das grandes empresas, o que só incentiva a concentração.

Mas essa situação já está sendo revista, e as perspectivas de mudanças são muito positivas. Foi entregue para o ministro da Educação, Fernando Haddad, uma proposta de mudanças nas diretrizes curriculares do jornalismo elaborada por uma Comissão de Especialistas (cujo presidente é José Marques de Melo), que o desvincula dos outros cursos de Comunicação Social. Para falar sobre isso, colo aqui um trecho do relatório, que sintetiza e explica muito melhor que eu o que venho tentando dizer nessas linhas:

A imposição do Curso de Comunicação Social de modelo único, em substituição ao Curso de Jornalismo, teve conseqüências prejudiciais para a formação universitária da profissão. Ocorre o desaparecimento de conteúdos fundamentais, como Teoria, Ética, Deontologia e História do Jornalismo, ou sua dissolução em conteúdos gerais da Comunicação, que não respondem às questões particulares suscitadas pela prática profissional. Mas o jornalismo não pode ser guiado por objetivos de publicidade, relações públicas ou mero entretenimento. Decorre daí o grave problema da ruptura entre a teoria e a prática nos cursos de comunicação, falha esta que, quarenta anos depois, ainda não foi solucionada de maneira adequada: por se voltarem inicialmente a um outro tipo de profissional, as disciplinas teóricas do currículo mínimo imposto abandonaram as referências fundamentais para a prática do jornalismo, quando não se voltaram contra elas [No contexto latino-americano, esta situação é criticada por um Prêmio Nobel da Literatura preocupado com o futuro do jornalismo no continente: MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. El Mejor Oficio del Mundo. Cartagena: Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, 2003]
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