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Ah, a mídia…

6 outubro, 2009

celsoamorim_afpA postura do Brasil em Honduras foi realmente a mais acertada, um golpe de mestre. O país se destaca como líder regional, defensor da soberania e da legalidade, com alta capacidade diplomática e ainda assume uma posição clara de defesa de um governo que, se não é o melhor do mundo, representa uma postura de esquerda. O mundo inteiro reconhece o Brasil como o grande mediador e vê no país a importância estratégica fundamental que assumiu ao asilar Zelaya em sua embaixada. Ali, naquele momento, o Brasil contribuiu de forma decisiva para encurralar o governo golpista de Micheletti. Ao “presidente de facto”, como chama a nossa mídia golpista, não restam muitas alternativas.

A mídia. Ah, essa mereceria um estudo à parte. Como foi dito, o mundo inteiro reconhece e louva o papel do Brasil. Menos os golpistas de Honduras, alguns setores mais direitistas dos Estados Unidos e a mídia brasileira. Para eles, o Brasil está se metendo onde não deve, invadindo a soberania de Honduras, criando tumulto, gerando violência.

Balela, mentira, lorota, aldrabice. 

Salvam-se alguns jornalistas e alguns poucos veículos – talvez só a Carta Capital, dos de periodicidade mais frequente -, mas a imprensa, de um modo geral, está corrompida por uma visão extremamente reacionária. Porque, como disse Cynara Menezes no fim da excelente matéria sobre Honduras na edição dessa semana da Carta – todas dela o são, diga-se, como já comentei aqui -, “não se trata de simpatia ou antipatia pelo neobolivariano, mas de defesa de princípios”.

No caso, princípios democráticos, pois, quando um presidente não-eleito toma o lugar de outro que foi eleito pelo povo e o expulsa do país sem lhe dar direito à defesa, isso caracteriza um golpe. Diz Luiz Gonzaga Belluzzo que “os fatos relatam que Zelaya, alta madrugada, foi retirado da cama, enfiado no avião e despachado para fora do país. Em qualquer região civilizada do globo habitada por cidadãos acostumados ao exercício da democracia e ao respeito às regras do Estado de Direito, tal cometimento dos gorilas de Honduras, fardados ou não, seria chamado de golpe”. Não importam os motivos. E os motivos, em Honduras, não justificam a expulsão, mesmo se a defesa tivesse sido garantida.

zelaya embaixada

Ao contrário do que dizem as vejas e as folhas por aí, Zelaya não pretendia ficar indefinidamente no poder. Ele pretendia apenas propor uma consulta sobre a celebração de um referendo, que definiria uma Constituinte e a possibilidade de reeleição, à qual ele próprio não concorreria. E o fato de ele chamar o povo a resistir e desobedecer o governo também não é ilegal. Descobri na matéria de Cynara Menezes que Honduras tem um artigo na Constituição que nenhum outro país tem e que é muito bacana:

“Ninguém deve obediência a um governo usurpador nem a quem assuma funções ou empregos públicos pela força das armas. (…) O povo tem o direito de recorrer à insurreição em defesa da ordem nacional.”

Mas a mídia brasileira, que hoje parece, pelo grau de certeza das suas declarações, ter estudado profundamente a história e a política hondurenhas, não sabe nada disso.

Ou seja, poupem-me, né.

Os trechos citados são da matéria de Cynara Menezes e do artigo sobre as “teratologias semânticas” da imprensa brasileira, de Luiz Gonzaga Belluzzo. Vale também a leitura da matéria do Luiz Antonio M. C. Costa sobre a postura clara do Brasil contra o golpe versus a postura ambivalente norte-americana e de seu texto curto de desmistificação das lendas urbanas que se criaram em torno do golpe (uma parte já postada aqui). Todos da Carta Capital dessa semana.
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