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Pra que (m) serve?

18 outubro, 2009

bienal mercosulÔnibus passando na frente do Cais do Porto. Eu, voltando da abertura da 7ª Bienal do Mercosul. Dois caras de uns 20 e poucos anos, aparência humilde, mas não pobre, conversando. Amigos.

– Bah, vai ter Bienal.

– Mas é Bienal de quê?

– Como assim? Sei lá…

– Não, é que tem de várias coisas, de tecnologia…

– Ah é. Não sei, deve ser dessas de arte moderna mesmo. Uma vez eu vim com o colégio ver uma coisa assim de arte moderna. Esses Van Gogh e tal. Mas tinhas umas coisas pretas… Não sei, eu era muito pequeno.

Agora eu pergunto: pra que (m) serve uma Bienal de Artes? Por mais que haja projetos pedagógicos para levar as escolas para a Bienal ou essas ideias de uma Bienal itinerante, que esse ano já foi a várias escolas públicas do interior do Estado, ela não chega ao público em geral. Quem frequenta esse tipo de coisa? Quem vai a um museu? Qual é o real objetivo de uma Bienal que se propõe aberta para a cidade, que tem como base um projeto de aproximá-la de crianças de escolas públicas?

A ideia é levar a arte a todos. Mas mal se sabe o que é arte. Cildo Meireles? Van Gogh? Waltércio Caldas? O que representa a arte? E o que ela significa? Provavelmente, se o cara do ônibus entrar em um pavilhão do Cais do Porto, vai ter a mesma sensação que eu: nada daquilo me dizia nada. Sem mediação, é impossível entender ou ter qualquer sensação diferente. E isso que eu fui mediadora na edição passada e curti pacas. Faz sentido uma arte assim? Pra mim, em minha visão conservadora, se o que está exposto – ou melhor, se o que está acontecendo lá, porque a Bienal envolve desfiles, apresentações, intervenções – é arte, então tudo é arte. Se tudo é arte, nada é.

Querer que crianças do interior entendam esse conceito de arte é como apresentar Marx a elas. Tudo bem que não existe idade específica para as leituras e para as interpretações do mundo, mas não se pode introduzir Marx a alguém que não tenha lido O Pequeno Príncipe ainda. Não se pode levar uma Bienal a quem não conhece a arte mais convencional, aquela dos quadros que ficam dentro de molduras.

Então, para que (m) serve? Tenho um palpite: serve a um mercado da arte. Um mercado em que o artista que expõe numa Bienal é valorizado, cobra mais caro, é mais visto. Serve às empresas do tipo Gerdau, Banrisul, Petrobras, Santander, RBS e tantas outras que patrocinam com apoio da Lei Rouanet. Uma Bienal de Artes Visuais serve principalmente ao artista. Não ao público.

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