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Um bafafá monstro

26 outubro, 2009

casa monstroOntem quase postei sobre um artigo do Voltaire Schilling na Zero Hora, sobre a Bienal, Porto Alegre, arte contemporânea e as coisas que chamam de arte e que estão espalhadas aí pela cidade. Exemplos são a cuia gigante no Gasômetro, a casa monstro da Rua da Praia, um monumento em homenagem ao marechal Castello Branco (!) no Parcão (!!) e mais uns quantos monumentos que ele chama de monstruosidades. Acabei deixando pra hoje e, quando peguei a Zero Hora, vi que deu o maior bafafá. Agora tem uns quantos representantes do cenário artístico que ficaram indignados.

Emonumento castelo branco reclamaram porque ele não sabia do que estava falando, não tinha conhecimento de onde tinham vindo as obras. Voltaire disse que era pra prefeitura não aceitar mais “obras de arte” como essas. A crítica que fizeram a ele foi de que ele não sabia que por algumas a prefeitura tinha pago e que outras foram escolhidas por concurso. Pior ainda, oras. E ainda por cima não era nada disso o objetivo do historiador. Ele só queria reclamar que a cidade estava feia. Ponto.

Também ontem vi um trechinho de uma entrevista na TV Brasil com o Ferreira Gullar. Infelizmente, vi muito pouquinho, porque estava ótimo. Uma das coisas que ele falou, nada a ver com Bienal, nem tinha se tocado no assunto, é que arte é o que fica. Que é o que marca, que tem um significado. Um dia ele viu uma das frases dele em um copo sem indicação de autoria. Ele disse que ficou muito feliz, porque, “se não tem meu nome, é de todo mundo”.

A arte de verdade, segundo ele, é aquilo do que as pessoas se apropriam, porque gostam e, portanto, perdura.

Para o Voltaire Schilling, os monumentos de Porto Alegre não são arte porque são feios.

cuia giganteAs obras da Bienal não perduram. Não são bonitas. O conceito de arte é muito pessoal. Não ouso dizer que a Bienal não é arte, porque não quero me meter em um campo que não é o meu. Se bem que, ao mesmo tempo, o campo artístico tem um quê do jornalístico. Não é específico de quem o domina. Assim como o jornalismo deve ser discutido pela sociedade de um modo geral, acho que a arte também se presta a isso.

E nesse sentido, insisto: na medida em que tudo é arte, nada é arte. Se a qualquer coisa é atribuído valor, o que efetivamente tem valor o perde.

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4 Comentários leave one →
  1. maria josé permalink
    30 outubro, 2009 17:52

    Oscar Niemeyer diz que a ‘estética também é uma função’. Na arte atualmente a estética não é um ponto central a todos os artistas. Alguns utilizam-na, outros não. Não gostar, não ver valor num trabalho em arte contemporânea porque não é belo, é não gostar pelos motivos errados, como bem lembrou o David Coimbra.

    Agora, que não existe arte contemporânea ruim, a julgar pela eterna defensiva da comunidade artística, isso eu não sabia.

    Se um trabalho não tem como proposta ser belo, mas fazer pensar, trazer uma questão sobre a vida, sobre o mundo, ou sobre a própria arte, então é sobre a questão apresentada que recai a responsabilidade da obra ser interessante ou insignificante.

    Muito se culpa o Duchamp, mas suas questões sempre foram geniais. Não gostar da ponte para o nada lá no Gasômetro porque é feia é não gostar pelo motivo errado, mas não gostar porque não quer dizer nada, porque é um mirante que não mira nada e porque não trás nenhuma questão interessante nem faz pensar em nada que não seja a constatação de , além de tudo, está muito mal situada, é não gostar pelos motivos certos.

  2. D. H. permalink
    9 dezembro, 2009 15:56

    Marcel duchamp libertou a arte das mãos, abrindo o leque de possibilidades para em exercício mais crítico, intelectualizado.

    O movimento histórico conhecido como “conceitualismo” teve seu apogeu nos anos 60-70.

    Nos anos 80, talvez um pouco cansados de tantos conceitos, os artistas retomaram os procedimentos manuais e retomaram a produção de obras.

    Dos anos 90 em diante, em todo o mundo, a arte é um campo de grande diversidade, onde diferentes correntes convivem e tem seu espaço e seu público.

    No Brasil de maneira geral ocultasse os anos 80, e acreditasse que as correntes conceituais são as únicas aceitáveis, realmente, em sintonia com a idéia de uma evolução interna da arte.

    O fazer é desprezado por essa elite “intelectualizada” brasileira, por ser considerada “coisa do passado”, enquanto nas nações onde o conceitualismo surgiu tanto o fazer quanto o pensar são valores correntes.

  3. seu jorge permalink
    9 dezembro, 2009 20:21

    Esse episódio descortinou também um truque muito usado pela Arte Contemporânea, a defesa corporativa. É um truque político que mantém a distância contestações ao mérito. Pode-se achar fraco ou até mesmo ruim um filme, um livro, uma peça de teatro, mas ai de quem não gostar de uma obra de arte. Puramente corporativismo institucional, do tipo “sou artista por que fiz faculdade, sou mais artista por que fiz mestrado”. Uma coisa é o Oiticica, que nem universidade tinha, e trabalhava com conceitos e vivências, outra são os filhotinhos do Instituto de Arte que só trabalham com conceitos teóricos…

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