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Por que a esquerda perdeu o DCE da UFRGS

23 novembro, 2009

Depois de muito tempo tentando, a direita finalmente levou o DCE da UFRGS. O presidente eleito para a próxima gestão se chama Renan Pretto e pertence ao PP. O mais difícil de engolir nessa história toda é que a direita não ganhou apenas por sua competência. E afirmo que eles são muito competentes nas articulações políticas, e isso não tem nada a ver com ideologia – os que ganharam as eleições dessa semana são conservadores, reacionários, racistas, elitistas. O pior é que não foi simplesmente a direita que ganhou, foi a esquerda que perdeu.

A esquerda não só perdeu, a esquerda entregou. Por absoluta incompetência e dificuldade de diálogo. Parece absurdo, mas em uma universidade com o potencial da UFRGS, com tanta gente de qualidade, que pensa parecido em tantas coisas e tem boas ideias, havia uma chapa da direita e três da esquerda. Duas delas do PSOL. E não me venham com essa história de que DCE não tem que ser vinculado a partido, todas as chapas concorrentes têm seus vínculos partidários. Não apenas com os partidos, mas com suas tendências internas.

Aliás, que a chapa 3, a da direita, a eleita, é vinculada ao PP, embora seu slogan pregue o apartidarismo. Chega a fazer rir a Página 10 da Zero Hora de hoje, quando a Rosane de Oliveira, logo antes de falar na defesa de política apartidárias de Renan Pretto, apresenta a fala do deputado Jerônimo Goergen, do PP, que está “empolgadíssimo com o resultado”, segundo a jornalista: “Conseguimos derrotar o PT, o PCdoB e o PSOL. Este é um momento histórico”. Muito isento de política partidária.

E a esquerda, em vez de se unir por suas semelhanças, se divide por suas diferenças, muito menores do que as semelhanças. É a velha história: quando o debate se dá no campo ideológico, é muito mais complicado sustentar as afinidades. As desavenças gritam. Na direita, o que a une são os interesses classistas. E aí é muito mais fácil permanecer unido. E muito mais inteligente.

Então, o que fez com que a direita ganhasse, por uma diferença ridícula de 35 votos, foi essa fragmentação da esquerda, incapaz de se unir. Até uma tendência interna do PSOL rachou. O Enlace ficou metade na chapa 1 e metade na 2. Chega a dar raiva que gente tão inteligente e com propostas tão boas seja tão idiota nesse aspecto – perdoem as ofensas, mas estou realmente escrevendo com raiva desse resultado. Como a esquerda pode ser tão incapaz de dialogar? É burrice se dividir, não é óbvio?

Fica, no fim das contas, a esperança de que se aprenda alguma coisa com esse resultado.

Quando terminei de escrever o post, entrei no blog Cão Uivador e achei esse texto. As ideias são exatamente as mesmas, então indico a leitura

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11 Comentários leave one →
  1. 23 novembro, 2009 17:15

    Cris, acho que essa divisão pode ter sido, sim, determinante para o resultado, mas não esconde o real motivo desse placar no DCE: a maioria dos estudantes simplesmente não se sente mais representada (tanto em ideologia quanto nas propostas) pelos estudantes ligados ao PSOL e afins.

    Conheço superficialmente as propostas das chapas e as reais motivações de quem quer dirigir o DCE, sejam elas políticas ou não. Mas as da chapa 3 de fato me parecem as mais coerentes. Basta não ter medo de ser rotulado como “direita” para simpatizar com elas. E, por mais surpreendente que isso possa parecer para estudantes da Comunicação e das Sociais, essa preocupação com rótulos já não vigora na UFRGS.

    Foi-se o tempo em que ser “de direita” era apoiar a truculência militar e “de esquerda” a liberdade e representatividade das massas. Pelo contrário. Hoje a esquerda universitária engajada passa a mesma impressao da esquerda em âmbito nacional: um pessoal mais ligado aos seus cargos do que aos seus ideais ou às demandas dos seus eleitores. A divisão em duas chapas no DCE é consequência disso: ninguém quis abdicar da sua parcela de poder e deu no que deu. Ou a ruptura foi por diferenças ideológicas, por acaso?

    Espero que essa eleição sirva para que os universitários de esquerda façam o mais elementar: se voltem para as demandas da maioria dos estudantes. Coisa que os estudantes dessa chapa 3, ao menos em sua propaganda, captaram com perfeição.

    • 23 novembro, 2009 20:50

      Pode ser, Caue. Acho que tuas colocações são pertinentes e que uma coisa não exclui a outra.

      Confesso que não estou tão por dentro do que dividiu a esquerda. E acho que aí também pode ter das duas coisas. Não conheço muito bem o PSOL, mas conheço muita coisa da esquerda, de suas lutas internas, principalmente no PT, e sei que muitas das divisões se dão por disputa de poder e não por ideologia. E acho que pode ser uma mistura dos dois.

      Independente dos motivos que levaram a esquerda a se dividir, o fato é que ela se dividiu e perdeu por 35 votos. Uma diferença muito pequena, que mostra que ela teria ganhado se tivesse unida.

      As propostas da chapa 3 podem até ser coerentes, mas são elitistas e bastante pontuais, típicas de quem não tem uma visão política ampla, de luta social. Baixar o preço da carteira de ônibus é bom, mas é secundário dentro do que o DCE é capaz de fazer. Despartidarizar o DCE, a primeira das propostas, é mentirosa. Só não vê quem não quer que ele vai ser ligado ao PP. Política contrária às cotas é de elite, antisocial. Propõe-se a extinção das cotas e a criação de vagas de estacionamento. Para mim, há aí uma inversão de valores.

      É possível que a chapa 3 tenha sido eleita por suas propostas. Mas não porque elas sejam melhores. Talvez porque essa inversão de valores já esteja se alastrando pelos estudantes da UFRGS, assim como tem acontecido com a sociedade de um modo geral.

      É uma pena.

  2. Movimento estudantil permalink
    23 novembro, 2009 22:56

    A esquerda rachou devido ao oportunismo de uma das partes, só isso. Não acho que valha a pena fazer alianças espúrias a bem de fins meramente eleitoreiros.

  3. 24 novembro, 2009 00:21

    lembrei de uma piadinha infame: um trotskista faz um movimento; dois, um partido; três, uma cisão.

    era meio óbvio que isso iria acontecer. Esse movimento estava se articulando faz tempo, jogando para cima suas idéias amalucadas. O problema todo não é nem a divisão, mas a falta de representatividade do DCE.

    olha a quantidade de votos e olha a quantidade de alunos da UFRGS. Acho que as eleições do Diretório Central não chegam nem a 20% do total de alunos! Se a representatividade aumentasse pelo menos até 40, 50%, as chances desse retrocesso diminuiriam muito.

    • 26 novembro, 2009 12:46

      Discordo,

      A universidade é elitista, isso é uma realidade.

      A chapa de direita, de fato, representa a cabeça da maioria, quanto maior for esse quorum mais vantagens eles teriam.

  4. Tiago permalink
    24 novembro, 2009 01:17

    Sem querer dar pitaco, mas já dando…Isso é recorrente nos DCE’s, na UnB, onde estudo, até hoje não houve uma chapa sequer que conseguiu reeleger-se.
    Além da apatia política inerente a qualquer pessoa não engajada politicamente, existe nesse caso a falta de representatividade dessa instituição. Não seria melhor, nesse caso, um DCE composto de maneira proporcional? Uma vez que o poder efetivo dos representantes discentes é muito menor que o do DCE em si.
    Faltou estratégia por parte das chapas do PSOL em definir se a prioridade eram as divergências ou a vitória na eleição.
    Por fim, discordo em parte do Caue quanto aos rótulos, mas concordo que a demanda dos estudantes é muito mais imediatista do que as propostas retóricas.

  5. Ana Paula Madruga permalink
    24 novembro, 2009 21:08

    Ok, a ideia do texo esta boa, mas tem informações incorretas. O Enlace saiu na chapa 1, os que sairam na chapa 2 foram uma ou duas pessoas que por opção propria e não de sua organização que sairam nela. Certo? E a Chapa 2 tinha direção politica do PSTU.

    E como informe de quem participou dessa ultima gestão, a falta de dialogo foi real. E alem dela se cria o maximo de diferenças para cada vez mais nos afastar, no caso de nossa ultima gestão foi concernente ao REUNI.

    A crise entre a esquerda faz parte, ainda mais em momentos de discenso das lutas sociais. Quanto menos preocupações e lutas para nos unir, mais prestamos a tenção nos pequenos detalhes e fazemos tempestade em copo d’agua. Que aprendamos com os erros!

  6. 24 novembro, 2009 21:48

    Ana Paula,

    Realmente não estou muito por dentro da cisão interna do DCE e das tendências do PSOL, mas recebi esses dados de pessoas que, pelo que eu sei, estão informadas. Deixo então a critério do leitor…

    E o que eu mais quero dessa história é que a esquerda aprenda, de uma vez por todas. Se eu critico a esquerda da forma como fiz é porque não fico nada satisfeita em ver a direita conquistar o DCE. Já vi muitas vezes o PT perder eleições e dizer que agora era a hora de refletir sobre os motivos de ter perdido. Só que nunca se faz isso. Eu espero realmente que se reflita no PSOL, no PSTU, no PCdoB, no PT, em toda a esquerda, e que se avance no sentido de superar esses problemas.

    Se perdeu pela divisão, pela falta de propostas ou pelo motivo que for, tem que parar e olhar pra si pra entender e superar.

    A crise faz parte, mas ela tem que vir em forma de diálogo, não em forma de racha. Ainda acho que o que une a esquerda é muito mais forte do que o que a divide, mas as picuinhas insistem em ganhar dos objetivos reais de transformação.

    Insisto, é uma pena.

  7. 26 novembro, 2009 12:43

    Acho bom que essa chapa tenha ganho agora, no momento em que as cotas estão estabelecidas. Eles irão gerar muitos inimigos e a direita ou o discurso do apartidarismo vão ficar desacreditados.

    Essa alternancia é importante para que as pessoas possam formar uma posição política sólida.

  8. anonimo permalink
    26 novembro, 2009 15:30

    o enlace se rachou ao meio sim.foram dois pra chapa 2 pq o enlace esta em crise na UFRGS

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