Do blog do Kayser:

“Na última sexta-feira, fui a uma dermatologista. O consultório ficava em uma outra cidade, localizada próxima ao Parcão, Moinhos de Vento, etc… e tal, como diria o ‘poeta’. Essa outra cidade, que podemos chamar de Parcãozópolis, diferentemente de Porto Alegre, tem ruas limpas e asfaltadas, sem buracos e sem mato crescendo junto ao meio-fio. Uma cidade agradável, com um prefeito zeloso. Coisa de dar inveja a quem mora em Porto Alegre, mesmo em bairros de classe média, como o Menino Deus.”

Depois de muito tempo tentando, a direita finalmente levou o DCE da UFRGS. O presidente eleito para a próxima gestão se chama Renan Pretto e pertence ao PP. O mais difícil de engolir nessa história toda é que a direita não ganhou apenas por sua competência. E afirmo que eles são muito competentes nas articulações políticas, e isso não tem nada a ver com ideologia – os que ganharam as eleições dessa semana são conservadores, reacionários, racistas, elitistas. O pior é que não foi simplesmente a direita que ganhou, foi a esquerda que perdeu.

A esquerda não só perdeu, a esquerda entregou. Por absoluta incompetência e dificuldade de diálogo. Parece absurdo, mas em uma universidade com o potencial da UFRGS, com tanta gente de qualidade, que pensa parecido em tantas coisas e tem boas ideias, havia uma chapa da direita e três da esquerda. Duas delas do PSOL. E não me venham com essa história de que DCE não tem que ser vinculado a partido, todas as chapas concorrentes têm seus vínculos partidários. Não apenas com os partidos, mas com suas tendências internas.

Aliás, que a chapa 3, a da direita, a eleita, é vinculada ao PP, embora seu slogan pregue o apartidarismo. Chega a fazer rir a Página 10 da Zero Hora de hoje, quando a Rosane de Oliveira, logo antes de falar na defesa de política apartidárias de Renan Pretto, apresenta a fala do deputado Jerônimo Goergen, do PP, que está “empolgadíssimo com o resultado”, segundo a jornalista: “Conseguimos derrotar o PT, o PCdoB e o PSOL. Este é um momento histórico”. Muito isento de política partidária.

E a esquerda, em vez de se unir por suas semelhanças, se divide por suas diferenças, muito menores do que as semelhanças. É a velha história: quando o debate se dá no campo ideológico, é muito mais complicado sustentar as afinidades. As desavenças gritam. Na direita, o que a une são os interesses classistas. E aí é muito mais fácil permanecer unido. E muito mais inteligente.

Então, o que fez com que a direita ganhasse, por uma diferença ridícula de 35 votos, foi essa fragmentação da esquerda, incapaz de se unir. Até uma tendência interna do PSOL rachou. O Enlace ficou metade na chapa 1 e metade na 2. Chega a dar raiva que gente tão inteligente e com propostas tão boas seja tão idiota nesse aspecto – perdoem as ofensas, mas estou realmente escrevendo com raiva desse resultado. Como a esquerda pode ser tão incapaz de dialogar? É burrice se dividir, não é óbvio?

Fica, no fim das contas, a esperança de que se aprenda alguma coisa com esse resultado.

Quando terminei de escrever o post, entrei no blog Cão Uivador e achei esse texto. As ideias são exatamente as mesmas, então indico a leitura

A classe média é medíocre. É também mesquinha. Falo naquela classe média que acha que é grande coisa, metida a novo rico. Não me refiro aos trabalhadores que lutam para permanecer nessa classe, mas daqueles que fazem o estereótipo médio-classista. Li na Carta Capital da semana passada uma matéria que me fez rir pela verdade que trazia através da ironia. Era sobre o estilo classe média, baseada em um blog, o The classe média way of life. Ainda vou postar uns trechos de uns textos deles aqui, mas quero agora apenas lembrar de uma matéria da Piauí que eu comentei uns tempos atrás, sobre a burguesia brasileira, sobre o ridículo.

Bom, aquela matéria era sobre gente que tem muito mais grana que a classe média descrita no blog, mas que compartilha do mesmo pensamento fechado, egoísta. Essa classe média é a que gosta de ostentar, de parecer que tem o que não pode comprar, de achar que é melhor do que os outros. Na verdade, essa classe média não é nada, é pequena e míope. Não pensa, não lê, não evolui. Pode até ganhar dinheiro, crescer na empresa, comprar apartamento novo em bairro bacana e ir na academia mais cara. Mas fica estagnada na vida, não cresce como indivíduo, não aprende nada, não enxerga as outras pessoas. Preocupa-se apenas em parecer.

Que vida é essa que vive de aparências?

Getúlio Vargas, Porto Alegre, avenida estreita. O táxi vai ultrapassando todos os carros, ora pela direita, ora pela esquerda, como convier (deve ter tomado umas aulas com o PMDB). Um Siena prata anda pela esquerda. O taxista nem pensa, vai pegando a direita, o mais rápido possível, mas o Siena também vai pra direita. Tentando ser simpática, a passageira – no caso, eu – comenta, em tom de brincadeira:

- Acho que o negócio dele é não te deixar passar.

No que ouve a resposta:

- Ah, mas não tem pra ele. Se ele não me deixa passar, eu chego do lado, encosto nele, que ele pula pro cordão da calçada.

Medo.

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E uma raivinha contida: é esse fdp que eu quero matar (no sentido figurado, viu, que fique bem claro) quando eu estou dirigindo.

Muito se pode falar – e se tem falado – sobre a importância da Conferência Nacional de Comunicação. Que ela é só uma parte da luta, que pede um marco regulatório, que quer regularizar rádios e TV’s comunitárias, que deve-se rever concessões e talicoisa. Tudo muito importante, mas não vou repetir tudo isso que já está sendo dito por tantos veículos comprometidos por aí. O ponto principal da Confecom é a batalha pela democratização da comunicação. Justíssima, é o que deve de fato ser feito, e as coisas citadas acima, junto com várias outras, são meio para chegar a essa democratização. Mas esse é um conceito que às vezes soa meio abstrato e, de tão repetido, fica como aquelas palavras que a gente diz várias vezes e esquece o que elas querem dizer, elas esvaziam de sentido. Isso não pode acontecer nesse caso.

O fundamental para reverter a falta de democracia que temos no acesso à produção e à distribuição da comunicação é entendê-la como um direito. Quando se fala em licitação, escolha do melhor projeto, sempre se considera o de melhor custo. Inclusive na comunicação. No caso de estatais, o exemplo da licitação é válido. No caso das concessões, parece óbvio que, se uma empresa investe em publicidade no teu veículo, tu deves fazer o melhor para aquela empresa. É a lei de mercado, certo? Troca de favores, dinheiro mandando.

Pois com a comunicação não pode ser assim. A comunicação não é uma mercadoria. A comunicação é um direito. Como bem lembrou a Ana Lúcia Mohr, baseada nas ideias de Armand Mattelart, temos tanto direito à comunicação como temos à saúde, à educação. Ela deve ser tratada como tal. Se não é bom para o cidadão que se tenha publicidade de brinquedos em demasia, não é porque várias empresas querem pagar por anúncios de Barbie que eles devem ser feitos. O que não é bom para a sociedade deve ser coibido. Não como censura, que fique claro. É importante diferenciar. Censura é um instrumento ditatorial. O que precisamo é de regulação, que se oponha a outra ditadura, a de mercado. Vivemos essa ditadura que é muito grave, porque se move em silêncio e atinge as pessoas pela ideologia, não pela força.

A Ana disse em um e-mail, sobre a democratização da comunicação, que temos que lutar “não pela democratização nos marcos burgueses”, mas como um direito. Nós não temos que consumir comunicação. Todos temos o direito de nos expressar e de receber conteúdo feito para que nossos interesses sejam atingidos. Não para que se lucre mais. É preciso inverter a lógica, mudar o olhar. Assim, quem sabe, será possível mudar alguma coisa, algum dia. A luta está posta. A discussão está acontecendo. Ainda falta participação, mas isso há de mudar.

Ok, o filme sobre Lula ser lançado em 2010, se não é uma estratégia eleitoreira, parece. Mas convenhamos, capa do jornal para isso é não ter notícia ou muita sanha de denegrir a imagem do presidente. O pior é que eles sabem que não funciona, mas insistem. Se mensalão não deu certo, financiamento de filme é que não vai impressionar.

Li na TV do ônibus ontem: “Chuva em Porto Alegre deixa sete sinaleiras sem funcionar”.

Agora não funciona mais nenhuma então. Acabaram com as últimas.

#prefeiturapoa #caos

Luiza Erundina está hoje no PSB e foi prefeita de São Paulo pelo PT. Tem uma dívida com a prefeitura a pagar, de 353 mil reais. O crime? Quando era prefeita, publicou um anúncio em apoio à greve geral dos transportes de março de 1989. Diante disso, ela faz umas perguntas pertinentes. Mas um tanto incômodas pra alguns, os que costumam ter a mídia ao seu lado – alguém tomou conhecimento dessas dúvidas de Erundina? Se não, aí vão, são simples: “E o Maluf? E o Pitta?”.

As informações são da Carta Capital, que avisa: “A lei é para todos, dirão alguns. Não em São Paulo.”

Hoje venho só indicar um documentário que fala por si. O nome é Criança, a alma do negócio, com direção de Estela Renner. O tema é algo que me preocupa muito, pelas crianças que eu já conheço e nas quais eu reconheço esse comportamento e pela sociedade como um todo. Que futuro teremos diante do que esse vídeo mostra?

Para acessá-lo, é só entrar nesse site, do Instituto Alana, Projeto Criança e Consumo. Lá tem também várias opções pra baixar o arquivo do documentário. Vale a pena dedicar um tempinho a isso.

Ah, e um comentário extra a respeito… O documentário é também um excelente trabalho jornalístico. Vale olhar por esse viés também.

Uma penca de gente pagou uma grana pra ver o ícone do Novo Jornalismo, o jornalista e escritor americano Tom Wolfe. Pra quem não fechou o pacote completo do Fronteiras do Pensamento, tinha ingresso avulso hoje a 100 reais. E confesso, se eu fosse rica e tivesse dinheiro sobrando, eu teria pago os 100 pilinhas.

Ainda bem que não sou rica e não botei meu dinheiro fora. Fui de graça graças à professora Sandra de Deus, que cedeu convites à equipe do Jornalismo B. Decepcionante, no mínimo. Chata e sem noção também se aplicam à aula proferida por Tom Wolfe. A péssima tradução simultânea contribuiu para que a coisa não desse certo.

Ele falou de tudo, em um sem nexo absurdo. Os assuntos foram se intercalando inarticulados e sem motivo. Começou na crise econômica, passou por religião, arte, macacos, controle de natalidade, sexo, universidades americanas, Paris Hilton, genética. E pasme-se, não chegou em jornalismo e literatura. Falou até que Picasso e Matisse deveriam ter estudado arte por mais tempo para aprender a desenhar mãos.

E, por mais que o público insistisse, com uma pergunta atrás da outra – muito boas, por sinal – sobre o passado, o presente e o futuro do jornalismo, suas possibilidades criadoras, a linguagem literária, o jornalista tergiversava e inseria assuntos que nada tinham a ver.

E pior, o velhinho de terninho branco e meias xadrez – começo a desconfiar que ele é como a Mônica ou a guria da Uniban, que abrem o guarda-roupa e veem o mesmo vestido repetido diversas vezes – não só acrescentava informações desnecessárias. Ele simplesmente ignorava a pergunta.

No primeiro minuto da palestra, abri meu caderninho de anotações, saquei a caneta e preparei a máquina fotográfica. Tirei algumas fotos rapidamente, antes que ele falasse alguma coisa interessante que eu tivesse que parar para anotar. Imaginei que o início esquisito fosse apenas uma introdução que seria explicada pelas informações subsequentes. Insisti um pouco, mantendo a caneta destampada entre os dedos da mão direita e o caderno a postos na esquerda. Até que desisti. Guardei o caderno em branco.

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Um ótimo texto sobre o assunto está n’Os Estrangeiros. Vale inclusive a crítica ao preço do ingresso, à compra do saber e tudo o mais. E a reflexão sobre Tom Wolfe, evidentemente.

Emir Sader criticou Lula por não ter acabado com três coisas: a hegemonia do capital financeiro, do agronegócio e da mídia oligárquica. Apesar disso, ressaltou que houve uma evolução muito grande, que o governo fez muitas coisas boas, a começar por aquelas duas características comuns a todo a esquerda do continente: integração regional e políticas sociais. Além disso, acabou com a combinação de particularismo com oportunismo, que reinava antes de seu governo.

Alertou para as tentativas da direita de dividir a esquerda. A política do PSDB é de aliança com o norte do mundo, não de aliança regional. Para eles, disse, tanto faz eleger FHC, Serra ou Alckmin. Eles têm uma estrutura de poder. A esquerda personaliza, no Brasil e nos outros países. Mas Emir Sader ressalta que não é vergonha ter um lider popular. Ele é um instrumento para instituir um poder orgânico, que independa do líder.

Em suas considerações finais, Emir Sader disse que a Venezuela, a Bolívia e o Equador têm o socialismo 20080924_mural-venezuela-socialista1do século XXI como objetivo, mas ainda são sistemas capitalistas. Só que apresentam a tendência a um papel cada vez mais predominante do Estado.

Sobre Honduras, disse que defende a volta de Zelaya, mas que ela vai ser muito funcional para a política norte-americana de normalizar as relações com a América Latina.

20091005_America_latina_UnasurA América Latina passou de continente privilegiado pelo neoliberalismo, no século passado, para único continente que apresenta alternativas a ele.

Seguindo na contraposição entre direita e esquerda do último post, agora uma visão mais séria do tema. Quem dá o tom é Emir Sader, que vi falando em Porto Alegre semana passada sobre os caminhos da esquerda latino-americana. A frase que abre esse post é a ideia principal que ele defendeu na palestra, na qual se baseiam todos os outros argumentos.

Vale referir a retomada histórica que Emir Sader fez. A América Latina, segundo ele, foi devastada no século passado por um neoliberalismo muito agressivo, do qual só Cuba se salvou. De repente, o continente passa a ser o oposto. A esquerda latino-americana é como uma toupeira, que fica escondida muito tempo embaixo da terra e ressurge de repente. A eleição de Chávez foi a precursora da nova toupeira.

Nós ainda vivemos na ressaca do neoliberalismo, um regime que se esgota, porque não gera nada, nem bens nem empregos. Não foi feito para produzir, mas para acumular, baseado na especulação financeira. Só que ele é capaz de se reciclar e resistir se não forem propostas alternativas viáveis.

Apesar de haver dois modelos que norteiam a esquerda na América Latina, eles têm características em comum. Emir Sader diz que todos os países de esquerda privilegiam a integração regional – e não tratados de livre comércio com os Estados Unidos – e integracion_sidesenvolvem políticas sociais, em maior ou menor intensidade e de formas diferentes.

A valorização do social é o diferencial. Bolívia, Equador e Venezuela são países pobres, mas que estabeleceram prioridade e deram conta. Eles acabaram com o analfabetismo. Cuba passa por uma situação econômica muito difícil, mas não fechou uma vaga sequer da faculdade de medicina, que continua sendo referência, não apenas de qualidade, mas de solidariedade.

“Educação não é mercadoria, é um direito da massa da população.”

O Millôr tem um livro de fábulas. 100 fábulas fabulosas é o título. A primeira delas eu li em um dia de discussão via twitter sobre o que é esquerda, o que é direita, qual o papel de cada uma, declarações de uns, comentários de outros, e várias outras dúvidas que não têm resposta, mas que, paradoxalmente, devem ser discutidas. Então, ponhamos um pouquinho de humor na história. Não está entre aspas nem em itálico, mas tudo o que segue foi tirado do livro do Millôr.

MUDANÇAS IMUTÁVEIS

À maneira dos… chineses

“Se você não consegue fugir, você é muito corajoso.”

Olin-Pin, abastado negociante de óleos e arroz, vivia numa imponente mansão em Kin-Tipê. Sua posição social e sua mansão só não eram perfeitas porque, à direita e à esquerda da propriedade, havia dois ferreiros que ferravam ininterruptamente, tinindo e retinindo malhos, bigornas e ferraduras. Olin-Pin, muitas vezes sem dormir, dado o tim-pin-tin, pan-tan-pan a noite inteira, resolveu chamar os dois ferreiros e ofereceu a eles 1.000 ienes de compensação, para que ambos se mudassem com suas ferrarias. Os dois ferreiros acharam tentadora a proposta (um iene, na época, valia mil dólares) e prometeram pensar no assunto com todo empenho. E pensaram. E com tanto empenho que, apenas dois dias depois, prevenidamente acompanhados de advogado, compareceram juntos de Olin-Pin. E assinaram contrato, cada um prometendo se mudar para outro lugar dentro de 24 horas. Olin-Pin pagou imediatamente os 1.000 ienes prometidos a cada um e foi dormir feliz, envolvido em lençóis de seda e adorável silêncio. Mas no dia seguinte acordou sobressaltado, os ouvidos estourando com o mesmo barulho de sempre. E quando ia reclamar indignadamente pela quebra do contrato, verificou que não tinha o que reclamar. Os dois ferreiros tinham cumprido fielmente o que haviam prometido. Ambos tinham se mudado. O ferreiro da direita tinha se mudado pra esquerda, e o da esquerda tinha se mudado pra direita.

MORAL Cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo.

fzbO Plano de Cargos e Salários (PCS) da Fundação Zoobotânica (FZB) foi solicitado há seis anos ao Grupo de Assessoramento Especial da Secretaria Estadual da Fazenda (GAE). Seis anos! É o tempo em que os funcionários, de tanto esperar, passaram a acreditar que o grupo era uma espécie de fantasma, como afirmou a vice-presidente da Associação dos Funcionários da FZB (AFFZB), Arlete Pasqualetto, na audiência pública de ontem.

Uma reunião com o chefe da Casa Civil do Estado, Otomar Vivian, foi agendada para quinta-feira que vem, dia 19. Uma vitória da associação, pela pressão que mobilizou o deputado Frederico Antunes (PP), responsável por marcar o encontro. Mas é importante lembrar o que disse o deputado Daniel Bordignon (PT): não é de interesse do governo que o problema do funcionalismo seja solucionado. É preciso exercer muita pressão para que as coisas andem.

Ressalta-se: o GAE (o fantasma aquele) não se fez presente na audiência pública de ontem, assim como a Procuradoria Geral do Estado, responsável por travar as solicitações e emperrar o processo.

FZB RS“Os vencimentos dos cargos do Poder Legislativo e do Poder Judiciário não poderão ser superiores aos pagos pelo Poder Executivo”, é o que diz o item XII do artigo 37 da Constituição Federal, obviamente a quilômetros de distância de ser cumprido. Enquanto o Judiciário e o Legislativo são beneficiados com aumentos salariais frequentes, o Executivo amarga uma defasagem já histórica. Na contramão do que prevê a Constituição, no Brasil, passamos por um processo de redução do Estado desde a década de 80. Quem diz isso não sou eu, cito o deputado estadual Daniel Bordignon (PT), que presidiu a audiência pública sobre o Plano de Cargos e Salários da Fundação Zoobotânica do RS (FZB), reivindicado há muitos anos.

A audiência foi proposta pela vice-presidente da Associação dos Funcionários da FZB, Arlete Pasqualetto, por acaso minha mãe, o que me dá muito orgulho. Ela apresentou a instituição para o público hoje de manhã. Muita gente não sabe, mas o Jardim Botânico e o Jardim Zoológico, órgãos de grande visibilidade, muito visitados pelo público externo, são duas partes de um tripé que forma a FZB. O terceiro órgão é o Museu de Ciências Naturais, voltado essencialmente para a pesquisa.

biodiversidadeA FZB possui um gigantesco patrimônio genético, de diversas espécies de fauna e flora, nativas e exóticas. É patrimônio dos gaúchos, mas que corre riscos, porque o reduzido número de pessoal não dá conta de realizar todas as suas atividades, que incluem pesquisa e conservação. Um levantamento já defasado definiu que era necessário um quadro de 402 funcionários para atender a demanda. Hoje são 188.

E mais: enquanto não houver Plano de Cargos e Salários, a lei não permite que sejam realizados concursos públicos, o que vem se somar ao baixíssimo salário dos funcionários da instituição, atualmente defasados em 40%.

Embora questões relativas a meio ambiente e a funcionalismo produzam consenso na opinião pública, todo mundo ache tudo muito bonito, na prática ambos são bastante desvalorizados. É parte do processo neoliberal descrito por Bordignon, de sucateamento do Estado. Ele ainda acrescenta: “provavelmente a FZB não foi privatizada porque não houve interessados para comprá-la”. É engraçado, mas não é.

O século XXI é tido como o da ciência e tecnologia, como lembrou a pesquisadora Luiza Chomenko. No entanto, se destina cada vez menos investimento público à ciência. Ou seja, “corremos o risco da privatização do saber”.