“Há quarenta anos, segundo as pesquisas, seis de cada dez norte-americanos confiavam na maioria das pessoas. Hoje a confiança mudou: só quatri de cada dez confiam nos demais.”
Eduardo Galeano, em De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso
A minha visão das coisas do mundo
“Há quarenta anos, segundo as pesquisas, seis de cada dez norte-americanos confiavam na maioria das pessoas. Hoje a confiança mudou: só quatri de cada dez confiam nos demais.”
Eduardo Galeano, em De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso
No vidro do carro da frente, um adesivo que era um aviso. Não, era antes um recado. Queria dizer: “Atenção, eu sou um cara legal”, para que as outras pessoas se comovessem. Mas dizia simplesmente: “Atenção: eu paro na faixa”. Tinha do lado uma mão, com os cinco dedos bem abertos, um sinal.
Opa, a luz amarela ficou vermelha. Um ponto vermelho no céu azul. Mas ele está indo mais rápido. Quando o carro da frente passou pelas tiras largas e brancas deitadas no chão, já fazia tempo que a luz no alto avermelhara.
O que se gabava de parar na faixa, olha só, passou reto no sinal.
Pessoa 1: O que tu fazes?
Pessoa 2: Sou administradora, recém formada.
Pessoa 1: Ah, que bacana. Onde fizeste o curso?
Pessoa 2: Em uma particular.
Pessoa 1: Qual?
Pessoa 2: Uma que está sendo bastante comentada pela imprensa.
Pessoa 1: Deve ser boa então. Qual é?
Pessoa 2: É uma que tem cursos a partir de R$ 199,00. Está ofertado no cabeçalho do site, tipo Casas Bahia.
Pessoa 1: Hmm…
Pessoa 2: Mas é muito boa, tem entre seus valores “Propiciar tratamento justo a todos, valorizando o trabalho em equipe, o alto grau de sinergia e integração, estimulando um excelente ambiente humano de trabalho”.
Pessoa 1: Tá, mas qual é o nome?
Pessoa 2: Na verdade eu preferia não falar o nome. Eu não sei o que significa, porque não diz nem no site. Mas o que importa é que eu paguei direitinho, daí me trataram bem. Ah, e eu nunca fui de saia curta, essa coisa imoral. Minha instituição preserva muito a moralidade.
Pessoa 1: Moral de cueca?
* A quem interessar possa, a situação acima é hipotética.
Uma das coisas mais interessantes no seminário Riqueza e Desigualdade na América Latina, que eu assisti essa semana, foi a perspectiva de que ele parte. Está no nome, mas demorei pra me dar conta. Na verdade, só percebi quando o coordenador, Antonio Cattani, disse com todas as letras.
Noventa por cento dos estudos sobre desigualdade são associados à pobreza. É preciso estudar também a ótica da riqueza. Pobreza e riqueza, segundo o sociólogo (seu currículo é realmente extenso e rico), estão interligadas. Uma existe por causa da outra. É tão óbvio, não? Só que a gente não vê.
A ideia corrente é de que a riqueza é boa. Ela é invejada, é a solução dos problemas. A pobreza, essa sim, é o problema. Essa é uma visão deslumbrada da riqueza. Na verdade já faz um tempo que eu insisto que é um absurdo existirem pessoas tão ricas e que o fato de elas existirem é que gera pessoas tão pobres – em muito mais quantidade. Mas o professor Cattani colocou essa questão de forma tão simples e clara…
Nas palavras de Cattani: é uma mega sena por mês!
O poder, tido como a possibilidade de controlar o Congresso, a mídia, a cultura, a vida e a morte, ter impunidade, está nas mãos de muito poucos. O Brasil não é um país pobre, é uma potência. O fato de ter uma brecha social tão grande mostra que algo está errado. O que acontece é uma “apropriação privada do que é produzido socialmente”. A tese neoliberal de que, ao produzir riqueza, haveria um debordamento que beneficiaria os demais mostrou-se falha. Quem a desmistifica é Sonia Alvarez, também palestrante do seminário e citada por Cattani.
Em um resumo meu bastante grosseiro: para combater a desigualdade, para eliminar o problema da pobreza, é preciso combater a riqueza. Impedir essas grandes fortunas. Distribuir, em suma.

“As perguntas: ‘Quem és?’ ou ‘Quem sou?’ têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: ‘Que sou eu?’. Não mais ‘quem’, mas ‘quê’. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.”
José Saramago, em O Caderno
Mãe e filha caminhavam de mãos dadas. Desviavam do tumulto de um Centro de estudantes e trabalhadores, desempregados e sem-teto, um Centro de Feira do Livro e camelôs, de sujeira e caos. Seus olhos amendoados, os cabelos lisos, o tom da pele denunciavam sua etnia. Infelizmente, suas roupas também. Eram pobres, como a grande maioria dos índios que vemos nas cidades brasileiras. Os dedos da mão da mãe não largavam os dedos da mão da filha. Protegiam e guiavam uma indiazinha de não mais de três anos. Mas os pés… Eram os pés que me doíam ao olhar. Os pés da pequena desviavam dos pés de toda a gente que não a enxergava. Toda a gente que, quando a via, não a reparava. Pés pequenos em um corpo frágil. Pés ligeiros. Pés descalços.
Embora a Zero Hora tenha ignorado, está acontecendo essa semana o seminário Riqueza e desigualdade na América Latina, como parte da programação da Feira do Livro. O fato da ZH ignorar já diz bastante, mas não vou falar agora sobre isso.
Hoje de manhã, palestrantes falaram sobre Argentina, Uruguai e Bolívia. À tarde, a questão do poder no continente. Quero focar em um aspecto levantado por uma palestrante da tarde. Denise Gros trabalha com Sociologia Política, entre outras coisas. Ela falou sobre neoliberalismo, deu uma retrospectiva histórica do ponto de vista ideológico, não do econômico. Particularmente, esse viés com que ela trabalhou me atrai mais.
As bases do pensamento são bem antigas; não vou aqui repetir tudo que ela disse porque não teria espaço, embora fosse interessante. De acordo com Denise, os valores neoliberais já se apossaram não apenas dos meios de comunicação (tema tratado pelo palestrante anterior), mas das formas de pensar e de agir da sociedade de um modo geral. Claro que não de uma forma compacta, já que a sociedade não é um bloco homogêneo, mas no sentido de que eles já estão sendo infundidos na educação, na formação dos cidadãos, desde o ensino básico até as universidades, muitas das quais tendo estudos financiados pelo Estado, ainda na década de 50.
Instituições neoliberais já consideram que o neoliberalismo não é mais um discurso, mas uma essência. Seus investimentos estão sendo dirigidos para o Terceiro Setor, para o financiamento de iniciativas sociais privadas, tal qual Junior Achievement e outros do gênero, de formação ideológica de crianças e jovens. A ideia não é acabar com as políticas sociais (como saúde, educação…), mas que os recursos que o Estado deveria destinar a elas sejam transferidos para que o setor privado o faça. Afinal, eles se consideram mais eficientes em termos de gestão. O problema é o tipo de gestão que se faria. Eficiente para quem? Afinal, a função do Estado é defender o bem comum (se ela é cumprida são outros 500). E a iniciativa privada, tem alguma responsabilidade com a sociedade?
A proposta das instituições neoliberais, na visão de Denise, é transformar o setor público pela racionalidade do setor privado. Elas questionam e desrespeitam tudo o que é público e têm como objetivo contruir um país em que tudo seja controlado pelo setor privado. O Estado existiria apenas para… Para o quê, mesmo?
Já na parte das perguntas, no fim da tarde, ela deu o exemplo do Projeto Pescar, criado pela iniciativa privada para fornecer formação para jovens carentes. Ótimo, eles estariam abandonados sem isso. Ela mesma foi enfática nesse ponto. Mas é importante observar que esse projeto forma para o mercado ao mesmo tempo em que impinge uma ideologia, a de que se consegue tudo com esforço pessoal. É também muito bom que se tenha esforço para conseguir as coisas, mas não é bem assim que funciona. Não é só esforço pessoal, tem o papel forte do espaço destinado a cada grupo na sociedade.
As condições de disputa no mercado de trabalho, as oportunidades, são desiguais. A ideologia de tirar o Estado do jogo e deixar que o mercado regule e selecione os mais “esforçados” é darwinismo social.
No momento em que as leis de mercado se tornam dominantes, anulam-se as conquistas trabalhistas históricas, como jornada de 8 horas, carteira de trabalho, férias, essas coisas todas. Denise citou Friedrich Hayek, um dos principais pensadores do neoliberalismo, que afirmou que o indivíduo é soberano e é desigual ao seu outro. Para Hayek, a desigualdade gera a competitividade, que favoreceria o crescimento da sociedade. Muito saudável, não? Justifica a desigualdade. Impõe, também, o darwinismo.
Ainda bem que a fase atual já está sendo definida como pós-neoliberalismo. Inclusive pela palestrante de hoje de manhã Fernanda Wanderley, que falou sobre a Bolívia.
O dia hoje foi de lamentar a morte de duas pessoas de quem eu gostava muito. Não adianta muito agora tentar prestar qualquer tipo de homenagem que não os trará de volta, mas cabe lamentar a banalidade da vida que esses tempos pós-modernos trouxeram.
O caso do Morency e da Vilma muito provavelmente não foi de imprudência. Foi um acidente mesmo, que infelizmente matou os dois e uma pessoa que estava no carro com o qual eles colidiram na Estrada do Mar. Os outros quatro passageiros do outro veículo ainda estão hospitalizados.
A verdade é que todos os feriados temos acesso a estatísticas, números de acidentes, de feridos, de mortos. São números que sempre alarmam, que nos fazem comentar, condenar o excesso de velocidade, as ultrapassagens perigosas, a combinação entre bebida e direção. Mas são números, só. Distantes, frios. Nesse feriado, os números trouxeram com eles a realidade da morte de um casal que, apesar de idosos, eram muito, muito vivos. Eram felizes, queridos, amados, tinham milhões de amigos e um amor pela família muito grande.
Os números têm por trás pessoas. Vidas, que não são só as que se vão, mas as que ficam. Vidas dos filhos, netos, amigos que ficam e sofrem.
O Morency e a Vilma tinham o poder de espalhar uma onda de alegria ao seu redor. Tinham sempre um sorriso estampado no rosto. O Morency me cumprimentava sempre com um beijo na testa. A Vilma reclamava que eu estava muito magra ou elogiava que agora eu estava gordinha, mais corada, e me dizia que nos víamos muito pouco e que gostava muito de mim. Não sei se algum dia eu disse, mas eu gostava muito deles também.
A vida é muito rápida. Não só porque os anos passam ligeiro, mas porque hoje temos muita pressa, tudo tem que ser correndo. Correndo acordamos, nos vestimos, comemos, vemos TV. Correndo dirigimos. Correndo, a vida passa, a vida acaba. A vida se banaliza.
Que a morte do Morency e da Vilma nos dê um instante de reflexão sobre a vida. Eles que viveram com calma. Outros tempos. Tempos pré-pós-modernos. Tempos mais felizes, talvez. Talvez?
Quando Albert Einstein elaborou sua teoria, relatividade, efeito fotoelétrico e afins, ele não previa que seria o responsável indireto pelo desenvolvimento da bomba atômica. Einstein não queria isso, nunca quis matar pessoas com suas pesquisas.
Muitos anos depois, quando o professor Dieter Seitzer iniciou seus estudos sobre codificação de áudio, em 1970, ele provavelmente imaginava coisas boas com isso. Facilitar a vida das pessoas e blá blá blá. Ele não podia prever que o resultado das suas pesquisas tornariam possível o desenvolvimento do mp3 e que esse trocinho viraria uma bomba nas mãos erradas.
Não, eu não odeio o mp3. Acho ótimo, fantástico, facilita horrores a vida da gente, democratiza o acesso à música e tudo isso. Mas ele devia vir com limite de volume. Ou alguma coisa que ensinasse os donos desses trequinhos a ter educação. Porque o pessoal não se dá conta que o ônibus inteiro não necessariamente tem o mesmo gosto musical. E está cada vez mais difícil pegar um coletivo sem dividir o assento com alguém que queira dividir também a música. De repente é um bem intencionado que vê que eu estou sem mp3 e quer compartilhar comigo o som que ouve, vai saber.
O fato é que não, eu não quero ouvir a música que ELE escolheu. Ou ela, pode ser também. Fora que eu leio no ônibus, geralmente textos acadêmicos, e a música tira totalmente minha concentração. E normalmente a gente ouve só a batida, aquela coisa que nem dá pra identificar direito. A não ser quando o cara é meio surdo e daí dá pra identificar toda a letra da música também, como aconteceu essa semana.
Aliás, uma coisa que essa geração vai ficar é surda. Quero só ver daqui a uns 50 anos. O pessoal que hoje ouve esse negócio nesse volume vai fazer a felicidade – e a fortuna – dos otorrinolaringologistas. Já li em algum lugar que o limite máximo aconselhável para não prejudicar a audição é aquele em que o colega do lado não ouve contigo. Como isso só acontece com a minoria da minoria, teremos que nos acostumar a falar mais alto para sermos compreendidos daqui a alguns anos.
Sobre a apurrinhação de ouvir a música que a outra pessoa escolheu, seria bacana que ela lembrasse aquela velha história de que a liberdade de um termina quando começa a do outro. Ou seja, que baixasse o volume e me deixasse ler em paz.
* Ah, e só pra constar: nenhum parâmetro de comparação entre os efeitos da bomba atômica e a incomodação aos meus ouvidos.
A parte midiática da Feira do Livro está de doer. Tanto a publicitária quanto a jornalística, oficial ou semi-oficial.
A parte publicitária e oficial é meio macabra, com aquela mão saindo de dentro dos livros. Os marcadores de páginas são feios e mais afastam da leitura do que aproximam. Emoção? Bah, será que a prefeitura realmente acha que passa a ideia de que o livro transmite emoção porque tem uma mão a la filme de terror saindo dele? Não só não passa a ideia pretendida como é feia a campanha publicitária.
Já a parte semi-oficial (de tanto que elogia a prefeitura do Fogaça, já é quase quase parte dela) e jornalística também decepciona. O Caderno da Feira que a Zero Hora produziu é bem fraquinho. É em ocasiões como essa que se pode aprofundar um pouco mais o conteúdo, explorar o aspecto cultural da coisa, ir além do óbvio, ser criativo. Mas a criatividade do jornal é bem duvidosa. Admito, eles até se esforçam. Estão vinculando bastante ao twitter, integrando mídias e tal. Mas a cobertura está superficial demais. Fica naquela de “qual teu livro preferido?” que não dá mais. Aliás, que nunca deu.
Para quebrar com meus preconceitos, a capa do Diário Gaúcho de hoje trazia uma foto da Feira do Livro, que foi inaugurada agora há pouco. A capa do Correio do Povo, necas.
A Feira do Livro é um engodo. Quer dizer, não exatamente, mas em parte.
Não critico só por criticar, porque eu adoro a Feira. Adoro as mudanças que ela promove em Porto Alegre e nas pessoas de Porto Alegre. Adoro andar pelo Centro em tempos de Feira, circular pelos corredores. E as atividades culturais que ela promove são realmente louváveis. Não sei se há outro evento semelhante em termos de movimentação cultural na nossa capital. A programação – ainda não vi a desse ano – tem sido bastante extensa, com coisas ruinzinhas, outras passáveis e algumas realmente boas.
O problema da Feira são os livros. Tá, ela não existiria sem eles e, mesmo que fossem promovidas as atividades todas, não seria nem de longe a mesma coisa. Mas 20% de desconto é de fato um engodo. Compro com descontos maiores ao longo do ano inteiro em lojas virtuais, que frequentemente me oferecem fretes grátis, ou até em algumas lojas bem reais, que têm dias do mês destinados a um desconto desse porte.
Não bastassem os livros no Brasil já serem absurdamente caros… Basta comparar com nossa vizinha Argentina. Deveria, sim, haver um incentivo maior. Como querer que as pessoas leiam mais se a maioria de nossas bibliotecas são pobres – e as pessoas nem sabem que podem retirar livros de graça nelas – e se os nossos livros são muito muito caros?
Ah, a Feira vale pelos saldos também. Tem que ser nos primeiros dias, mas se acha coisas muito boas garimpando bem.
- Sol ao abrir a janela de manhã;
- Calor ao sair para a rua, ao deitar, ao levantar, ao vestir;
- Pegar um vestido na hora de escolher a roupa;
- Horário de verão;
- O fim da tarde no horário de verão – não existe período tão bom quanto o fim da tarde durante os meses quentes do ano;
- Clima de Feira do Livro em Porto Alegre – mais do que os livros, o clima mesmo, as pessoas circulando no Centro, em dias de sol, as tardes longas;
- Não ter nada para resolver imediatamente (o que quer dizer ter acabado os capítulos da monografia antes da reunião com a orientadora).